A Guerra Continua
Por Joe Cameron.
Eu desligo a televisão e olho para o relógio. São 3 da manha e eu ainda não consegui dormir. Tem cinco dias que não durmo bem. No começo dessa semana eu recebi noticias que Jason Shoemaker, um garoto da minha velha unidade, o quarto batalhão de Tanque, morreu no Iraque. Ele foi cortado em fitinhas por uma bomba às bordas da estrada. Ele era um garoto como eu, da minha cidade de Tulsa, Oklahoma. Nem todas as partes dele foram encontradas. Ainda ha pedaços de sua carne e orgãos enterrado e misturado com a areia de Al Anbar.
Não sou uma dessas pessoas abaladas emocionalmente, afetado com fadiga pós-combate. Eu não tenho que me esforçarr diariamente em angústia para manter os demonios do meu passado fora do reino da minha consciência. Quando beijo uma garota, eu não me lembro de cabeças de soldados iraqueanos tornando uma nuvem pink na mira do meu fuzil. Quando eu ando pelas calçadas quentes de Las Vegas, não me lembro andando na areia quente de Al Muthanna.
Mas há algo sobre a morte de Jason que me afetou. Esta semana comecei a me lembrar dos meus oito meses no deserto (Iraque). Comecei a lembrar a época que passei no suck (Suck e como nós, ex-Marines chamamos os Corps.) E as vezes acordo a noite chorando.
Eu cresci na Oklahoma rural. A religião daquele tipo de vida e fundamentalista rural Cristã. Eu lembro indo para a missa com minha mãe e meu pai, e assistindo os pastores que se pareciam com vendedores de carros usados balançando suas mãos sobre a multidão. Pessoas cairiam de suas cadeiras, arrancadas pelo poder do espirito santo. Eu me lembro quando na idade dos doze anos era minha vez de ser batizado pelo fogo do espirito de Deus, e muito para a aprovação dos meus pais eu copiava aqueles à minha volta e comecei a balbuciar incoerentemente na lingua dos céus.
Quando eventualmente durmo, depois de algumas horas o som do meu próprio choro me acorda. E eu não sei se choro por Jason ou se choro por mim mesmo.
Será que ainda sou humano? Eu sei que soa ridículo e melancólico, mas é como me sinto neste momento. Eu me lembro amando sentir o peso leve da M16-A2 enterrada nos meus ombros, a mira apontada no meu inimigo, e meu dedo descansando no gatilho. Eu amava zerar no tanque do meu inimigo com a mira do meu lança míssil T.O.W. Eu esperava matar mais que meus camaradas fuzileiros. Lavagem cerebral militar realmente me pegou, e eu esperava que algum dia eu ficasse cara a cara com um “cabeça de toalha” e enterraria minha faca cabar na garganta dele. Eu queria assistir o sangue dele espirrar para todos os lados como nos filmes de samurai nos cinemas.
Será que mereço a pena de morte? Eu provavelmente tirei a criança do pai. Eu certamente tirei mães de seus filhos, ou esposas de seus maridos. Será que pertenço estar destroçado em pedaços no deserto de Al Abnar, no lugar de Jason Shoemaker? Se não, porque essa culpa? Porque essa tristeza, e porque essa raiva?
Com 20 anos de idade eu matei meu primeiro Iraqueano. E aquela noite, fora da tenda do meu esquadrão, eu vomitei na areia. Eu acho que naquele momento eu vomitei para fora de mim o que ainda fazia de mim uma boa pessoa.
Eu decidi fazer a única coisa que alguém como eu pode fazer sobre a guerra que ainda acontece dentro de mim, e a guerra que continua acontecendo la no Iraque. Eu vou escrever alguns catárticos textos e esperar que depois de ter tirado isto de mim eu possa dormir melhor a noite. E talvez, algum dia eu ate me sinta humano denovo. Isto é tudo que eu quero.
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SOBRE O AUTOR:
É escritor de ficção, de Las Vegas, mas atualmente vive em Thanjavur, India.
Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Monday, May 21st, 2007.
