A Oportunidade

Por Adriano Queiroz

De frente ao espelho ela olha seus traços. Velha. Está velha. Seus traços profundos: calendário. Cada ruga uma nota de música, um beijo, uma cor. Seu cabelo branco era como o casamento, antes sedoso e de cor forte, agora sem vida, gasto. Branco, pacífico. Cego. Sorriu, nunca pensara que um dia gostaria da idade avançada. “O medo da velhice é coisa de jovem”, gargalhou rouca, pendendo a cabeça pro lado. Naqueles lábios murchos, passaram bocas carnudas, atuais poeiras. “Setenta e sete anos não é pra qualquer um, estou em pé e ainda me admiro”. Agora ela fala sozinha, balbucia palavras. Anda pelos corredores vazios de uma casa grande, como se pisasse em nuvens. Tem dias que dança músicas de época e em outros ensaia passos de música eletrônica, dobrando os joelhos repetidamente, tentando acompanhar o ritmo da batida. Prefere fazer isto só de calcinha, dá mais liberdade. “Sou sem vergonha” disse propositalmente, ao telefone, para uma amiga que a chamava para ir à missa, e completou “O tanto que eu já rezei nesta vida, já estou com crédito para mais três encarnações” e riu. O que mais gosta de fazer é rir, não se importando com a falta de dentes. Quando se irrita com alguma coisa, joga os braços para cima ou mostra a língua. Para ela a velhice é a mistura de infância e experiência. Se perguntarem se ela é lúcida, responde “Não, porque se eu fosse responderia ‘Sim’, lucidez é coisa de quem precisa viver, eu só continuo vivendo”. Vendo seu reflexo penteia, para trás, os cabelos finos. Pega o batom, passa nos lábios e os pressiona para fixar a cor, não perdeu a prática de quando era mocinha. Com as pontas dos dedos perfuma-se cuidadosamente. O ritual é interrompido por batidas bruscas na porta. Ela leva um pequeno susto e fecha a porta do guarda-roupa.

- Vai logo minha senhora, pega a merda deste dinheiro logo.

- Estou pegando minha bolsa, espere um pouco.

Em sua voz certa doçura imprópria para o momento.

O assaltante, nervoso, olha a rua entre as frestas da cortina.

Ela sai elegante do quarto, com bolsa de festa nas mãos.

- Aonde você vai assim? Cadê o dinheiro, as jóias? Tá ficando louca?

- Eu vou com você – diz pegando as chaves e apagando as luzes.

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SOBRE O AUTOR: Adriano Queiroz tem 23 anos, nasceu em São Paulo e é na loucura desta cidade provocadora que seus personagens emergem, diz ser urbano até na praia. Cursa Biblioteconomia e Ciência da Informação na Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo. Ultimamente anda ouvindo muito Nina Simone e as músicas das trilhas sonoras dos filmes do Pedro Almódovar.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, October 31st, 2008.