Abra as Pernas e que Deus me Abençoe

Por Felipe Attie.

Sempre tive minha religiosidade guiada pelas vaginas que cruzaram minha vida. Minha primeira mulher foi uma macumbeira que, ao abrir as pernas para mim, me apresentou ao universo da Umbanda com todos os seus Santos e Orixás característicos. Em seguida, veio a mocinha católica que, apesar de nunca ter conseguido me levar à missa, fez com que durante alguns curtos e surtados instantes eu sentisse uma migalha de respeito pelo Papa. A insanidade católica terminou, quando terminei meu namoro — por motivos que até hoje desconheço — e encontrei a menina que me colocou a coleira da ditadura evangélica.

Durante os quase dois anos de relacionamento, sofri uma metamorfose que me levou à prática de atitudes ensandecidas como, por exemplo, me batizar “nas águas” em plena praça pública e dar testemunhos para fiéis tão loucos quanto eu. Não estou aqui para cuspir no prato em que comi — muito menos em quem comi —, mas sim, para retratar os caminhos virtuosos que uma paixão te faz percorrer. Afinal, se não fossem essas “meninas”, eu jamais levantaria uma bandeira religiosa. Não vejo motivos que justifiquem eu ser obrigado a formatar minhas crenças de acordo com uma doutrina que sei lá quem criou. Não vejo por que seguir as rédeas de um cara que aponta o dedo na cara do pecado e, por trás da cruz, “come” criancinhas. Prefiro seguir meu caminho torto, regado a álcool e atitudes reprováveis, a me deitar na rede da hipocrisia.

Confesso que parte da minha ojeriza por religião provém do traumático período que passei dentro de uma Igreja Evangélica, convivendo ao lado de fanáticos, numa eterna competição em busca de quem é mais apaixonado pelo nosso Senhor. A cada ida à Igreja, uma situação me embrulhava o estômago e só o que me sustentava lá era olhar para a minha amada e vê-la de olhos cerrados, orando em línguas. Lembro-me que tudo o que eu desejava todos os domingos era ouvir o pastor encerrar o culto, levá-la pra baixo do edredom e mostrar, na prática, como se ama o próximo. Uma atitude esperada, se vinda de alguém como eu, um cara de forte apetite sexual. O que não se espera é a maneira como quebrei algumas regras religiosas, justamente ao lado da filha do pastor, uma mocinha bonita que fazia parte do grupo jovem da Igreja e que dançava de maneira exemplar em cima do palco durante os cultos.

He, He, He… As pessoas têm o talento nato de surpreender umas as outras. E foi exatamente isso que ela fez comigo, ao cair de quatro na minha cama, chupando meu instrumento da vida e deixando pra trás todos os anos de santidade cristã sob o olhar do papai pastor e seu precioso noivado com o guitarrista solo do Ministério de Louvor. Confesso que, caso ela fosse católica, não haveria hóstia que segurasse sua língua. Havia tempos que eu não recebia uma benção desse tipo. Quando questionada sobre seu comportamento, supostamente incorreto ao olhar de Deus, ela era curta e grossa em sua defesa: “Do que adianta eu seguir as regras impostas e morrer frustrada?” Bem… se depender do seu desempenho sexual, de frustração com certeza essa menina não vai sofrer.

Enquanto sua grande bunda dura e empinada rebolava em meu quadril e seus gemidos empesteavam meu quarto, eu, um grande colecionador de regras quebradas, olhava orgulhoso para meu reflexo no espelho atrás da porta, calculando a quantos anos de purgatório eu seria condenado. Caso aquela situação tenha sido um teste divino à minha santidade, confesso que fui reprovado com orgulho. Pois não existe nada que aquela “ovelha de Deus” não se submeta a fazer. Com certeza, ela faz do Kama Sutra a sua bíblia, possuindo total criatividade para posições e nenhuma restrição de buracos.

Após o ocorrido, nunca mais nos cruzamos — nem cruzamos — por ai. A última coisa que me lembro dela dizendo foi algo do tipo “seu pau é muito grosso e minha boca é muito pequena”, justificando a manobra que necessitava fazer em busca da chupada perfeita. Enfim, espero do fundo do coração que ela tenha encontrado a felicidade ao lado do guitarrista solo. Ou, pelo menos, esteja buscando-a com o baterista, tecladista, vocal… ou, até mesmo, com o Pastor, seu querido papai. Afinal, se tratando de religião, eu não duvido de mais nada. Amém.

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SOBRE O AUTOR
Felipe Attie é redator e jornalista na hora de trabalhar. Escritor e cartunista nas horas de lazer. E hipocondríaco quando não tem o que fazer. Leva a vida como pode, apesar de não poder fazer muita coisa. Mas sempre diz que o importante é ser feliz (blerg! Mas que coisa brega!)

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Saturday, May 23rd, 2009.