Amar como exercício.

As calçadas da cidade me conduziam através de um corredor cujas paredes, de texturas várias, se revezavam entre prédios e pequenas extensões arborizadas. “Há muitos anos” – comecei a recordar a carta que eu trazia firmemente dobrada em uma das mãos – “Há muitos anos, fui ao Bosque de Bellville plantar uma discreta muda de árvore para ti.”
O piso da calçada continuava a formular o meu trajeto, enquanto meus pés seguiam religiosamente cada detalhe do chão de concreto que me guiava ao local assinalado como endereço do remetente da carta. “Meus cálculos indicaram que uma árvore saudável e frondosa estará esperando por ti com a chegada dos teus vinte anos.”
As palavras, a esta altura já decoradas em mim, iam tomando tonalidade, corpo, timbre e verdade à medida que eu me afastava da materialidade da carta em si, ao amassar ainda mais, entre os meus dedos, o papel que a compunha fisicamente.
“Quis sinônimo para o nascimento; a vida que eu estava te dando. Eu, deixando como legado uma parcela de natureza pura, de uma obra divina, de Vida maiúscula e incondicional.”
Meus pés, súbitos, tropeçaram em uma enorme raiz, grossa e densa, possível base de uma árvore saudável e jovem. No reflexo físico do tropeço, minhas mãos se contraíram ao invés de, espalmadas, buscarem amparar a minha queda no chão.
Tive a sorte de não cair. Mas, a força da contração das minhas mãos fez uma fissura irremediável no papel da carta.
“Será como se nela, por todas as suas células, circulasse a seiva-prova do elemento vital, deixando representado, ali na vegetal presença, a energia que nos deve unir e servir de referência para todos os teus dias.”
Fez-se sombra.
Um hálito fresco soprou minha face e balançou meus cabelos. Inesperadamente, a calçada que antes me guiava perdeu-se em um chão de terra. Era como se em um bosque eu tivesse chegado. Olhei para cima.
“Crerás em algum deus? Não posso saber. És tão miúdo e desconhecido que não parece estar comigo. Devo te amar, devo te receber como o filho esperado. Mas não te conheço. Quem sabe, ao longo do tempo, brote em mim, qual a muda que espero brotar no bosque, uma fração de sentimento por ti? Enquanto esperamos, saberás do meu amor através dos olhos – e, ao contemplar a grandeza das folhas verdes a ti dedicadas, bem ao alto, saberás que estas são fruto do meu empenho em deixar em ti um lastro de vida e uma prova do amor que, como pai, te devo.”
A carta em minha mão era, nesse momento, simples bola de papel amassada, sem sentido, destruída e úmida pelo suor e pelo sangue que de minha mão escorria. Eu estava ao pé da árvore e a minha seiva-prova pingou na terra que estacara os meus pés.
Subiu o cheiro da chuva e eu já não estava mais calçado. O meu corpo todo se aqueceu, com tremores de reconhecimento e satisfação.
Com uma enorme sensação de acolhimento, repeti para mim o que a lápide, ao pé da árvore, me ditava: Com a prova do meu futuro amor, Juanes (1931 – 1977). E era como ter nascido, mas agora de verdade.

Sobre a autora:

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Bruna Maria é carioca, mas não chega a ser muito fã de dias de sol. Formada em Letras, já cultivou uma média de três blogs pela rede, deletando os dois últimos por ter embirrado com a escrita. Para ela, o ato de escrever pode ser muito cruel e pouco redentor e, por isso, vive tentando desistir de se meter com as palavras. Mas não consegue. E, agora, investe em seu blog “Projeto Autoral” (www.projetoautoral.wordpress.com), no qual descreve a rotina da organização de seu primeiro livro.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Monday, March 15th, 2010.