Amargo
Por Reinaldo Melo.
Sob o sol ardente que maltratava, haviam mentes e braços maquinais, facões e foices reluziam, o canavial desabava.
- É, Tijó, é o diabo no céu e nós na terra.
- Vira essa boca pra lá, seu Pedro.
- O cabra venceu o céu e agora queima nós aqui embaixo.
- Cruz-credo. Vamos almoçar, vai.
Homens, mulheres e crianças com suas capangas e marmitas interrompiam o duro trabalho. Na sombra, encostados num pé de cana, ou sob o calor, degustavam-se com o arroz e feijão. Uns, mais privilegiados, acompanhavam-se de farinha e carne, outros, menos privilegiados, sem a carne, e outros, mais desgraçados ainda, sem arroz feijão ou carne, só farinha.
Tijó e seu Pedro, sentados num canto ao léu, ouviam o som da usina que vinha lá longe.
- E pensar, Tijó, que tudo que a gente corta aqui vai pra lá virar o açúcar do nosso café, a cachaça que a gente toma e o dinheiro de homens que nada fazem.
- …
- Como pode tanta gente não dizer não?
- Que que é, seu Pedro?
- Nada.
- Seu Pedro, cadê o Chico?
- Você não soube?
- O quê?
- Cortou o dedo.
- Mas é?
- É. O facão pegou bem no meio do miudinho.
- E ele?
- Vai ficar uns dias sem vir.
- E vai comer o quê?
- O pessoal da usina deu um dinheiro pra ele ficar sem necessidade em casa.
- Dinheiro bom?
- Que nada, o miudinho não vale nada. Se fosse o indicador ou polegar, dariam um dinheiro bom. Só que o Chico não poderia trabalhar mais ou trabalharia sem o mesmo ritmo.
- Levaria prejuízo.
- Mas eles deram esse dinheiro para que ele não procurasse a justiça, porque além de terem que pagar mais ao Chico, a justiça cobraria uma multa da usina.
- E por que ele não foi?
- Por que a justiça é na cidade grande, podia não dar certo e a usina ganhava, e, além do mais, o dinheiro a mais acabaria e o Chico não teria onde trabalhar, pois a usina não aceitaria ele de volta.
- Ainda bem que foi o miudinho.
Mal haviam terminado o almoço, lá vinha o administrador do canavial dar fim ao intervalo.
- Acabou a moleza, cambada. Embora trabalhar.
Recomeçaram o trabalho.
Tijó com a história do Chico ficou mais atento. Segurava a cana em cima e cortava embaixo e, depois de cortada, em vez de rodopia-la no ar, colocava-a no chão para cortar as folhas. A cada cinqüenta pés cortados, tinha de amarrar bem apertado todos juntos para formar um maço de setenta quilos.
No fim do dia, com o sol quase se pondo, chegaram as caminhonete para a coleta. Os trabalhadores, um por um, carregavam os seus maços até o pé da caminhonete para a contagem e o pagamento. Primeiro iam as crianças, que cortavam menos, e quase todas eram ajudadas pelos mais velhos, pois não agüentavam os maços. Depois as mulheres e, então os homens.
Tijó, uns dos últimos, acompanhava o administrador a contar dos maços:
- Vinte e seis maços dá uma tonelada e duzentos quilos. Cortou menos que ontem, Tijó?
- É depois do dedo do Chico é bom tomar cuidado.
Pegou o dinheiro e esperou a contagem dos maços de seu Pedro:
- Trinta e oito maços dá…
- Duas toneladas e duzentos e sessenta quilos- arrematou seu Pedro.
O administrador o olhou ressabiado e o pagou.
- Obrigado- agradeceu seu Pedro ironicamente.
Foram para a caminhonete que os levariam de volta para a casa. Seu Pedro olhava o céu que, no seu crepúsculo, já estampava a lua.
- E Isaura, Tijó? Melhorou?
- Melhorou nada, seu Pedro. A bichinha á noite só geme.
- E o médico?
- Deve de ter ido lá hoje para fazer alguns exames. O negócio é pedir pra Deus.
- É, Deus…
O resto da viagem foi um silêncio. Tijó e os outros cochilavam. Os únicos acordados eram o motorista e seu Pedro, que continuava a olhar o céu agora já estrelado.
A caminhonete chegou, os homens desciam e apertavam os passos para logo chegarem em casa. Tijó se despedia de seu Pedro:
- Até amanhã, seu Pedro.
- Até, Tijó.
- Fica com Deus.
Seu Pedro sorriu.
- Antes só do que mal acompanhado, Tijó.
Tijó foi para casa pensando na brincadeira de seu Pedro e chegando lá se deparou com o médico na porta de sua casa.
- Boa noite, doutor.
- Boa noite, Tijó.
- E Isaura?
- Tenho más notícias, Tijó.
- Que que foi?
- A úlcera está roendo todo o seu estômago. A dor estava tão insuportável que apliquei um pouco de morfina.
- É grave, doutor?
- É, Tijó. Ela precisa operar o mais depressa possível. Senão…
- O quê, doutor?
- Ela morre.
- Ai, meu Deus. O senhor opera ela?
- Não sou especialista, Tijó. Ela deve ser levada para o hospital da cidade.
- Mas eles cobram a operação que deve de ser cara e eu não tenho dinheiro.
- Sinto muito, Tijó. Infelizmente não posso ajudar mais do que os meus limites…Pegue, são ampolas de morfina. Agora ela está dormindo, quando acordar por causa da dor você aplica de uma até duas.
- Obrigado, doutor.
- Até logo, Tijó.
Tijó, tremendo, observava o médico indo embora. Quando não mais o via entrou em casa. Foi para o quarto. Isaura dormia e seu rosto adormecido refletia uma expressão de angústia.
- Deve tá de sonhando com a dor- pensou Tijó.
Foi para cozinha.
Onde arrumaria dinheiro? O pouco que ganhava mal dava para comer. Há pouco o cachorro morreu de fome. Como pagar a operação? Seqüestrar um médico. Não, depois tinha de fugir e ia arranjar trabalho onde? Se Isaura morresse, quem ia preparar a capanga, quem ia arrumar a casa, quem ia cuidar da roupa…
Foi para o quarto das crianças.
…quem ia cuidar das crianças?
Voltou para a cozinha, acendeu uma vela e foi para o canto onde tinha a imagem de uma santa. Começou a rezar, mas os pensamentos não o deixavam.
E se arranjasse outra mulher. Mas quem ia querer um inútil como ele que só sabia cortar cana.
Era tarde da noite já, quando Isaura começou a gemer. Tijó foi para o quarto e lá, de qualquer jeito, sem saber onde, enfiou a agulha da ampola com morfina em Isaura que parou de gemer. Deitou-se, mas não conseguiu dormir.
E se matasse Isaura, além de se livrar do problema do dinheiro acabaria com a dor dela. Mas onde esconderia o corpo? E as crianças? Era um burro bruto, mesmo.
- O demônio já tá me dominando.
Levantou-se. Acendeu mais uma vela e prostrou-se na frente da santa novamente.
- Ave Maria cheia de graça, ave Maria cheia de graça, ave Maria cheia de graça…
Por que Deus não ajuda. Será que é porque nunca aprendeu a rezar? Ou seu Pedro tá certo e nós somos sozinhos?
- Pai nosso que tá no céu, pai nosso que tá no céu…
Deus é muito bom, tá fazendo chover dinheiro no quintal.
- Olha, Isaura. Cê vai operar. O dinheiro que era pra comprar o caixão a gente comprar roupa pras crianças e equipara melhor a capanga com a dos outros. E se não parar de chover a gente compra uma casa na cidade grande, põe as crianças na escola e abre também uma usina de açúcar, emprega o seu Pedro como administrador, que depois disso ele vai acreditar em Deus…
Tijó acordou com os gemidos da mulher e foi colocar a morfina de novo. Voltou para a cozinha e ficou olhando pra santa. A cabeça doía. Não ia conseguir dormir. Doía também o corpo, a alma. Olhou para as ampolas que deixara na mesa. Pegou-as e aplicou uma de cada vez no seu braço. O peso e a dor aliviaram-se. Adormeceu. Nem os gemidos da mulher lhe acordaram.
- Agora tá chovendo ampolas de morfina. Doutor que que o senhor tá fazendo aí no céu? Por que o senhor tá jogando as ampolas aqui pra baixo? É pra aliviar a minha dor e a de Isaura? O senhor tá parecendo Deus. Mas disse que não pode me ajudar. Desce pra operar Isaura. Pena que seu Pedro tá lá longe me chamando.
- Tijó, Tijó…
Quando Tijó acordou levou um susto. Seu Pedro e seus colegas de serviço gritavam seu nome lá fora. Abriu a porta.
- Oi, gente. Oi, seu Pedro.
- Tijó, você não vai trabalhar, não?
- Eu perdi a hora.
- Vamos que a caminhonete tá esperando.
Foi buscar o facão. Subiu na caminhonete. Além de não preparar a capanga se esqueceu de tomar banho. Os colegas reclamaram.
- Na volta todo mundo tá fedendo e ninguém reclama. Por que na ida há de reclamar- advertiu seu Pedro.
Todos se calaram.
Tijó, no caminho, teve a idéia de ir falar com o administrador pra vê lhe emprestava o dinheiro da operação que depois poderia ser abatido aos poucos na contagem do dia-a-dia. Seu Pedro notou a angústia de Tijó, mas achou melhor deixá-lo quieto.
Chegando lá, foi ao caminho da usina.
- Não vai trabalhar, Tijó?
- Não, seu Pedro. Tenho que resolver um problema.
Caminhou até a usina, procurou o administrador que o atendeu friamente:
- Aqui não é instituição de caridade. Se quer dinheiro, vai trabalhar.
- Mas minha mulher pode morrer.
- Menos uma desgraçada no mundo. Anda, cabra. Embora trabalhar.
Foi voltando para o canavial. O desespero lhe tomou conta. Ajoelhou-se. Começou a chorar. Colocou as mãos no rosto para limpar as lágrimas. Olhou-as e, então, a idéia surgiu. Levantou-se e correu para o canavial. Passou depressa por seus colegas e por seu Pedro, que não teve tempo de chamá-lo, pois Tijó já se enfiava no meio das canas.
Após se afastar demasiadamente dos colegas olhou novamente para as mãos. Analisou apalpando os dedos. Seria o miudinho, mas o miudinho não daria nem para o transporte. Então o do anel, este daria pra pagar a operação. Não, seria o do meio, pois pelo tamanho sobrava até um pouco de dinheiro. Será que pagariam bastante? E o polegar? Não, depois não dava para segurar mais nada. Então o de apontar, que é importante e custa bastante. Vai ser o da mão esquerda. Sem ele daria pra segurar a cana, pois cortava com a direita. Ficaria mais lento pra trabalhar, mas pelo menos não precisaria fazer os serviços de Isaura.
Pegou uma pedra. Passou-lhe o facão para afiar. Colocou a mão aberta no chão, levantou o facão, fechou os olhos e quando desferiu o golpe uma voz gritou:
- Tijó, não…
Com o susto o facão mudou a trajetória pegando no pulso de Tijó e arrancando-lhe a mão. Caiu. Deu tempo apenas de ver o rosto de seu Pedro. Desmaiou.
Acordou dentro da carreta que o tinha levado para o hospital e agora levava-o para casa. Tinha passado a noite inteira e quase era dia. Estava com o pulso enfaixado. Não sentia a mão.
- Me leva pra usina.
- Você vai querer trabalhar ainda, Tijó?
- Não, seu Pedro. Depois eu explico. Agora preciso de ir pra usina.
Chegando foi falar com o administrador que logo lhe deu o dinheiro. Seu Pedro entendeu tudo. Com uma mistura de ódio e pena ouvia Tijó.
- Agora Isaura melhora.
Seu Pedro que já perdera um dia de trabalho e uma noite de sono ficou no canavial e Tijó foi embora na carreta que o deixou na esquina próxima de casa. Estava alegre. Isaura ia operar e já planejava trocar de posição com ela que, com saúde, trabalharia no canavial enquanto ele cuidava da casa.
Tijó foi caminhando em direção do lar e deparou-se com um monte de gente na porta de casa. Suas crianças no quintal choravam. Entrou em casa e viu Isaura dentro do caixão cercada de gente.
- Seu Tijó…- suspirou a vizinha olhando o pulso enfaixado.
- Como foi?
- Ela gritou muito, seu Tijó…Vomitou muito sangue…Não agüentou.
Olhou para o caixão, foi para a janela com lágrimas nos olhos, olhou as crianças, o pulso e olhou o céu que iniciara uma forte chuva que se alastrava pelo quintal, pelas ruas, pelo canavial e pelo mundo.
SOBRE O AUTOR
Reinaldo Melo Nasceu no Rio Grande da Serra - SP, em 1978. Se formou em Letras pela Fundação Santo André em 2002. Publicou neste mesmo ano um livro de contos chamado O Invisível e o Pêndulo. Hoje é professor da rede pública de ensino e está mestrando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP.
Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Friday, October 5th, 2007.
