Bem-vindos a Carençolândia

Por Xico Sá.

Bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram um reino nada encantado.

Deram a este pueblo o nome de Carençolândia.

Embora tenha sido criado pelas mulheres no tempo em que só existia o fogo e o verbo, foram os machos que se impuseram, muitos séculos depois, como os mais legítimos cidadãos carençolandeses.

Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais [aqueles que só usam roupas com encosto de brechó]. Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa, uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras.

O macho carançolandês não passa meia hora separado, não vive sequer o luto amoroso da resoluta que aplicou-lhe um conga no meio da bunda - a padoca mole e farta que dantes já prescrevia o chute. Ele vai lá e agarra a primeira que passa, nem que seja um manequim de gesso, como ocorreu ao meu amigo Sizenando, aquele mesmo que trabalhava como galhudo-mor nas crônicas de Rubem Braga. Enquanto o manequim era levado de um lado a outro da rua, para uma troca de vitrines, ele abofelou-se com a loira gessificada e a entope de gala até hoje.

Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência.

Sim, na Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. A Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné Bissau, de Chade… d´alma.

A Carençolândia é o vale do Jequitinhonha metafísico que chia como catarro em nossos pulmões e tórax _diga 33!!!

Carençolândia não tem sequer feriado.Um programa populista e eleitoreiro de saúde pública agora trouxe Prozac, Lexotan, Frontal e zilhões de remédios tarjas pretas para este reino. Os comprimidos foram postos em toda a rede de água de Carençolândia… Adicionados ao sal, ao açúcar… Mesmo assim não houve um sorriso sequer, nem mesmo do gato lisérgico de Alice.

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SOBRE O AUTOR
Xico Sá, jornalista e escritor, trabalhou nos principais veículos do país e obteve vários prêmios por suas reportagens, entre eles o Prêmio Esso, Prêmio Folha de S.Paulo e Prêmio Abril. É colunista da Folha de S.Paulo e tem uma crônica publicada semanalmente nos jornais Diário de Pernambuco, Diário do Nordeste (Fortaleza) e O Tempo (Belo Horizonte). É colaborador de vários veículos, como as revistas Trip, TPM e Rolling Stones. Faz parte também da equipe do programa “Cartão Verde”, da TV Cultura/SP. Publicou os seguintes livros: “Modos de macho & Modinhas de fêmea” (ed. Record, 3ª edição)), “Divina Comédia da Fama” (ed. Objetiva), “Nova Geografia da Fome” (livro-reportagem, ed. Tempo d´Imagem), “Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias” (Editora do Bispo), “Se um cão vadio aos pés de uma mulher-abismo” (Ed Fina Flor), “Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente” (editora do Bispo) e “Tripa de Cadela & outras fábulas bêbadas” (editora Dulcinéia Catadora) entre outros.

Tem parcerias musicais com o grupos Mundo Livre S/A e fez parte da equipe de roteiristas do longa-metragem “Deserto Feliz” (2007), filme vencedor dos festivais de Gramado (2007) e de Guadalajara (México, 2008), dirigido por Paulo Caldas.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, August 19th, 2009.