Bolero
Por Sandra Porto.
A antiga vitrola deslizava o som pelo quarto em penumbra. Em algum lugar do passado, ele se encontrava. Tão cansado! O vazio cenário, memórias sem ocasião, o ocaso. De seu peito descoberto, tudo escapava. Onde os pontos de partida? Onde os de chegada? Colecionava indefinições. Há algum tempo pensara ter colocado um ponto final naquilo tudo. Hoje sabia que eram apenas reticências. Como num trailer do cinema fantástico, via-se de fora perseguindo sua imagem desfocada. Acostumado a enquadres, colocava os óculos e nada acontecia que o confortasse. Procurou por sua luz interior (era dado a místicas), mas não havia respostas. Olhos cegos para dias nublados. Desesperado, procurava reagir. Seu orgulho gritava e o corpo estremecia. Como um histérico, esbravejava por não desejar um cão que o guiasse pelas ruas, que o ajudasse a dobrar as esquinas ou que o avisasse das armadilhas do caminho. A razão, a saída. Traçar esquemas, planejar o não planejável, controlar o porvir. Acreditando no risco das palavras, esquecia que sangrava. Como aplacar uma dor cuja origem não se consegue identificar? Talvez a yoga o ajudasse. Quem sabe o milenar saber o revelasse? Respirava lentamente, prestando atenção aos seus pulsares. Pretendia perder a ilusão de acreditar “que estar ao seu lado bastaria”. Outra bobagem. Já dizia a música que não há nada de novo e ainda somos iguais. Fantasia compensatória. Recurso ingênuo da criança que deseja o doce dos outros. Continuava sem fôlego. Com os olhos ardendo, fixados num ponto das paredes nuas, tentava calar as vozes do silêncio a que se obrigava. Mas não chorava e muito menos lacrimejava. Afinal, seria o esperado. Talvez uma saída para o constrangimento em que se metera, o clichê de que a esperança… Porém sua inteligência aguçada nunca permitiria tal negligência, não o deixaria impune, com certeza. Fácil demais, simples em excesso, reducionista ao extremo. Parou com a respiração ritmada abandonando o oriente-se, rapaz. Uma imagem talvez. Buscava por ela, até porque aprendera em algum lugar que elas valiam mais do que mil palavras. Ligara a TV. Pacino dançava com seus olhos mudos. Sempre se surpreendera com os truques cinematográficos. Sempre se identificava com as personagens e perguntava: por que não eu? Esquecia de que lado estava e que daqui não fazia sucesso algum. Assim sendo, batia o martelo prescrevendo o nada danço. Entendia, paradoxalmente, que já dançara havia tempos. Literalmente, em épocas tão distantes que nem se lembrava mais. Simbolicamente, no tempo presente, agora. Tentou o rádio. Talvez uma música o aconselhasse. Talvez uma voz o acolhesse. Alguma notícia, boa ou ruim. Não importava. Para sua surpresa, um Lupiscínio triunfal inunda o ar através da mulher que fala das “saudades de um moço, por favor”. Sabe que não resistirá por muito mais tempo. Num relâmpago, consegue saber de si na sombra do fósforo que acende seu cigarro.
A antiga vitrola ainda deslizava o som pelo quarto, agora em chamas.
SOBRE A AUTORA:
Sandra Porto Mora em Niterói, já que os ventos para lá a levaram. Tem a Psicologia por profissão. As letras, por paixão. No final das contas, dá tudo no mesmo, já que se sabe alguém em des-construção permanente. E por isto, precisa escrever. Sempre. O resto, é história para boi dormir.
Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Saturday, July 28th, 2007.
