Bruna Surfistinha

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Bruna Surfistinha, O Doce Veneno do Escorpião - O Diário de uma Garota de Programa, Panda Books, S. Paulo, 2005
Bruna Surfistinha, The Scorpion’s Sweet Venom: The Diary of a Brazilian Call Girl, Bloomsbury, Londres, 2007 (pb)

Desde o revolucionário sucesso de Belle de Jour em 2005, o Diário de Uma Garota de Programa se tornou um extraordinário fenômeno. Ávidos leitores se delicíam nos libidinosos episódios eróticos sexuais e são invariavelmente guiados pela voz de uma mulher respeitável, de classe média abraçando independência feminina.

O Doce Veneno do Escorpião escapa da fórmula encontrada neste estilo de biografia por duas razões. Primeiramente, Bruna Surfistinha não vem do confortável, super-privilegiado cenário tipicamente encontrado neste tipo de texto biográfico. Morando em São Paulo, não há evidência alguma de problemas em termos sociais, mas conflito, apesar de tudo, é mostrado com sua problemática familia. Descobrindo, ainda cedo que é adotada, Raquel (mais tarde renomeando-se Bruna) é consumida por ódio contra sua familia adotiva.

A segunda, e mais fundamental diferença entre esta e outros romances de mesma natureza é o fato de, apesar do assunto ser controverso, resiste em ser uma leitura erótica. No começo do livro, o leitor é enternecido pela adolescência de Raquel. Se preparando para uma vida nova.

Ainda que a narrativa demonstra a desfolhagem da inocência com remarcante rapidez, não podemos abandonar nossas primeiras impressões de Raquel. Quando um cliente pergunta por “Bruna, a surfistinha”, dessa forma fortificando sua nova identidade, é impossivel imagina-la como as amadurecidas e sofisticadas garotas de programa de rivais biografias.

Seria uma pena identificar isto como uma fraqueza do livro. De fato, isto é um astuto truque por parte de Bruna, encorajando o leitor a ser seduzido por seu charme inocente enquanto ela indiferentemente descreve encontros com chocante clareza . Para alguns, o conteúdo pode não ser tão estimulante, mas a narrativa de Bruna é incontestávelmene inteligente e envolvente. Com um facinante elenco, sustentando suas próprias idiossincrasias sexuais, suas histórias são afetuosamente e de forma divertida reunidas. Há quem deve lamentar a carência de uma narrativa mais intensa; tão viva quanto os diferentes episódios são, o que são, todavia, difíceis de pôr junto numa coerente consecutiva ordem. Complicado ainda pelo uso de dupla narrativa; entre Bruna relatando os contos de sua profissão, mas nos oferecendo frequentes discernimentações de sua infância. Estes intervalos são geralmente bem colocados no texto, porém, inevitavelmente dando ao livro alguns momentos de ponderado bom senso.

Talvez para compensar a prevalência de mais incomuns que esclarecedoras anedotas, uma pequena porção do romance é também voltada para “Dicas de Bruna Surfistinha em como melhorar sua vida sexual”. Estranhamente, dando um nível gráfico de detalhes encontrados no resto do livro, estas dicas são, na sua maioria, um tanto breve e indefinida. Apesar disso, as dicas são investidas com audácia energia que tem, até agora, sido a mais reconhecível e atraente característica.

Este robusto, grosso encanto vindo da própria Bruna, salva o livro em ser algo mais que um diário de garota de programa, uma apagada imitação de outras biografias guiadas pela sexualidade. Lendo o livro, é impossivel ter piedade ou ser chocado por Bruna, ao contrário, nos encontramos completamente cativados por sua história. Agora, Bruna encerrou sua vida profissional como garota de programa, e alguns podem dizer que sua carreira como escritora também. Sua natural, fácil e imensamente agradável voz narrativa diz o contrário, porém, certamente, esta não é a última palavra de Bruna, a Surfistinha.

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SOBRE A CRÍTICA:
Charlotte Stretch mora em Brixton onde é escritora free-lancer, é também um dos editores do 3:AM Magazine, e está trabalhando no seu primeiro romance.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, July 11th, 2007.