Do Que Ela é Capaz

Por Douglas Dickel.

Unombre vai ao cassino. O cassino é uma das últimas diversões coletivas neste mundo enfadonho e amontoado. O vírus da superpopulação há muito preparou exércitos em seus QGs na Índia e na China e os enviou para contaminar todos os outros países do planeta, até a Islândia e o Canadá, veja só, que outrora incentivara a natalidade e a migração. Nada de espaços naturais, nada de espaço, nada de movimentos dos membros do corpo vivo. Asilo inviolável nunca foi levado tão à risca com respeito às casas, aos lares, local onde hoje tudo se passa e se decorre para a chamada vida humana. Poucos se arriscam, como Unombre, a se espremer entre os prédios e chegar até o cassino, a fim de um pouco de adrenalina e de contribuir infimamente para o combate ao vírus. Contribuição ínfima, sim, mas você deve se lembrar da fábula do beija-flor. Ou talvez ele ganhe um bom prêmio em dinheiro para investir em alguma droga lícita que o faça suportar melhor a existência em frente ao home computer, quando voltar à sua casa, menos inviolável do que a média delas.

Roleta russa é o que há, lá. É o único jogo do cassino pós-pós-moderno. Desde que os Estados Unidos unificaram as leis do mundo, cada cidadão tem sua própria pistola, e é com sua parabela recém-comprada que Unombre vai ao cassino, neste dia cinza como todos os outros. Ele tem orgulho de sua novíssima arma, porque gosta de belos desenhos, e o desenho dela é arrojado, aerodinâmico, com linhas retas e alguma diagonalidade. Batizou-a Repetição, por motivos óbvios, por seu alto poderio de tiros por segundo: onze. Unombre e Repetição, juntos (apesar de a arma usada para testar a sorte ser um revólver especial do próprio cassino), enfrentam as filas de adversários com muita facilidade. Depois de três horas de esperas nas filas e rodadas de jogo, os dois embolsam 1 milhão de dólares mundiais. Pensam em grandes sucessos do Canal Retrô, como Show do Milhão, Big Brother, Slumdog Millionaire, e decidem parar por ali. Três horas, 1 milhão e dezenas de homens mortos são suficientes para seus objetivos.

A dupla se espreme até em casa e lá se separa. Unombre envolve Repetição numa flanela cor-de-laranja e deixa-a na gaveta do criado-mudo ao lado da cama. Ao fechar a gaveta, o puxador cai e fica em sua mão. Na parte frontal do objeto de madeira, enxerga, confuso, uma contagem regressiva a começar pelo 10. Quando a contagem chega ao zero, o sortudo vencedor vê-se de volta à entrada do cassino, sem o milhão. Tudo a partir dali dá-se como antes, as mesmas filas, as mesmas esperas, o mesmo milhão, os mesmos pensamentos. Ao deixar a parabela no criado-mudo, de novo o puxador conta regressivamente, de novo a entrada no cassino. Unombre, angustiado, tenta ao máximo esforçar-se para mudar alguma coisa desse ciclo sem graça, dessa piada de humor negro. Mas é muito difícil e extenuante, torturantemente cansativo. Percebe-se dois: um que segue o fluxo do ciclo que parece sem fim e outro que, dentro da alma e do corpo automáticos, contrai-se como se fosse um indivíduo enterrado vivo, tentando remover as paredes do caixão empurradas pela areia que o cerca. Seu eu número dois começa a pensar que é vítima de um castigo, de uma praga de Deus. Unombre Segundo lembra que sempre acreditou na harmonia do Caos, na infelicidade extrema que pode acompanhar uma felicidade extrema, e com isso vem-lhe a clareza e ele passa a entender a situação. Tem esse pensamento no momento de abrir a porta de casa pela octogésima-oitava vez, e a fagulha mental abre uma brecha no ciclo. A pausa permite que seu segundo eu tome o controle do corpo e da alma que habita. Foi assim, então, que Unombre, antes de guardar mais uma vez sua parabela brilhante na gaveta, aperta-a contra o queixo, apontando para cima, e segura o gatilho para testar em si tudo aquilo de que Repetição é capaz.

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SOBRE O AUTOR
Douglas Dickel foi lançado em 1977. Publicou em 2004 ‘Ambivalência’, um livro de poemas que lhe rendeu o Prêmio Nacional, O Sul & os Livros de Autor Revelação da 50ª Feira do Livro de Porto Alegre. Agora participa da oficina de Charles Kiefer para mergulhar no conto. Além de escrever, Douglas dedica-se à música e à fotografia.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, May 29th, 2009.