Dois Poemas
Por Vanderlei Lourenço.
Medo
Eu tenho medo.
Medo da morte,
Medo de tudo,
Medos dos fortes,
Medo de todos,
Medo de você,
Do fim e de mim.
Eu tenho medo.
De morrer, de viver,
De hoje, de ontem,
Da chegada e da fonte,
Do raso e do profundo
Medo do medo,
Medo do mundo.
Desgraça
Madrugada alta
E lá vai ele
O trem está cheio mas tem que ir nele
Este mês não pode haver falta.
Não pode chegar atrasado
O patrão não dá tolerância
Às sete tem que fazer presença
De ontem ainda está cansado.
Empurra e é empurrado,
O que fazer, não tem jeito…
Pede a Deus para que o trem não dê defeito
Não lhe cabe lá dentro, vai pendurado.
Marmita debaixo do braço
Dentro dela arroz e feijão
Não deu pra deixar dinheiro para o pão
E ele pensa: O que eu posso eu faço…
Chegou na estação
Não desce, é empurrado
No corpo o velho blusão surrado
E lá vai ele ganhar o pão.
Marca o cartão,
E começa a batalha
Sol está quente, a fábrica uma fornalha
Lamenta a vida, xinga o patrão.
O suor a correr-lhe o rosto
Ele pensa na família.
Pois sem ela não resistiria
Hora do almoço, come sem gosto.
A tarde caindo
Mas não pode ir não: fica para o serão
Pensa no aluguel e na prestação
Está cansado mas vai resistindo.
Que vida, uma desgraça!
Ao chegar em casa vai logo dormir
Pois amanhã de novo tem que partir
Dorme sem que alguém festa lhe faça…
SOBRE O AUTOR
Vanderlei Lourenço nasceu em Minas Gerais, mas há muitos anos mora no Rio de Janeiro. Escreveu vários poemas na adolescência e juventude, participando de concursos literários, mas nunca publicou. Atualmente tem se relacionado com a literatura mais como voraz leitor do que como poeta.
Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Monday, September 10th, 2007.
