Jana Lauxen: Precoce? Eu? Estou é atrasada!

Jana Lauxen é gaúcha, tem 24 anos, mantém o blogue www.janalauxen.blogspot.com e acaba de lançar seu primeiro livro, Uma Carta por Benjamin, pela editora carioca Multifoco.
Quando dizem que ela é precoce, costuma enrugar a testa e responder:
- Precoce? Eu? Estou é atrasada!
Abaixo você confere o bate papo que levei com Jana, por e-mail, e pode viajar no universo caótico, ácido, organizado e doce desta jovem escritora que, ao que tudo indica, não vai levantar acampamento assim tão cedo.
Ainda bem.

 

3:AM: Como é ser escritora no Brasil?

Jana Lauxen: Escrever, para mim, é fundamental, seja no Brasil, seja no outro lado do oceano.

Porém, aqui, nosso maior problema é o descaso total com a arte e seus artistas e isso (é muito importante ressaltar) não é somente responsabilidade do governo ou das editoras, mas da população toda.

É comum encontrarmos pessoas que acham caro um livro custar 30 reais, mas pagam 200 por uma calça sem reclamar.

E não me refiro aqui ao povo pobre e analfabeto (estes eu até compreendo), mas à classe dita intelectualizada, formada em universidades particulares, que viajam todo ano para a Europa.

É bem trágico – para não dizer cômico.

3:AM: E um livro custar 30 reais não é caro?

JL: Valendo-se do tradicional custo-benefício, eu penso que não é.

Caro, para mim, é uma calça custar 200 só porque possui uma etiqueta metida a besta presa na bunda.

Mas isso também é uma questão cultural, e é por isso que ser escritor no Brasil não é moleza.

3:AM: Quais seriam os benefícios mais evidentes que um livro de ficção traria ao leitor para compensar tal custo? Pressupondo, evidentemente, uma obra de qualidade indiscutível.

JL: Eu costumo dizer, tal qual disse Fernando Pessoa, que a literatura é a melhor maneira de ignorar a vida. Pode até soar um pouco careta, mas o cara que lê pode dispensar outras formas de viagens, sejam geográficas, sejam psicotrópicas, e mergulhar em outra realidade, tudo através de um livro.

Uma calça jeans nunca faria isso por você.

3:AM: Falando em Fernando Pessoa, quais são teus grandes autores?

JL: Bá, pergunta difícil.

Caras que eu sempre leio e releio e leio outra vez é o próprio Pessoa e seu Livro do Desassossego, Pedro Juan Gutiérrez,  Afobório, Carol Teixeira, Veríssimo pai e Veríssimo filho, Jorge Amado, Quintana, Frodo Oliveira e, e, e… Credo, existem centenas deles!

3:AM: Analisando os autores citados, percebe-se uma grande diversidade. Há espaço para todos? Há mercado para todos?

JL: Penso que há espaço para quem é bom, para quem sabe fazer.

É claro, tudo é uma questão de estilo literário, e alguns autores agradam um número maior de leitores do que outros.

Por exemplo: Afobório escreve histórias de terror, e existe um público específico que consome histórias de terror. E tem o pessoal que lê a Carol Teixeira, que passeia mais pelas crônicas e pela filosofia. Quintana faz poesia, e muita gente que lê poesia, não lê terror. E muita gente que lê terror, não lê poesia nem crônica.

Se eu me tornar prostituta e escrever um livro sobre ‘minha vida rodando a bolsinha’, vou vender mais do que todos estes que citei acima, porque tem muita gente consumindo literatura pornô – o que não significa que muitos outros não gostem.

Mas, sem dúvida, há espaço e mercado para todos, porque tem gente e gosto para tudo.

No entanto, repito: precisa ser bom, precisa ter qualidade literária. O resto é delírio. E estilo.

3:AM: E a internet nisso tudo?  Favorece algum estilo em especial ou é igual para todos? Ela traz mais benefícios ou malefícios à literatura?

JL: Na minha opinião e baseada em minha própria experiência, a internet foi a faca e o queijo e o pão e a geléia. Não teria conseguido nada do que consegui sem minha fiel escudeira, a rede.

Veja minha situação: sem grana, morando no interior do interior do Rio Grande do Sul, sem contatos, sem padrinhos, sem eira nem beira. Como poderia conseguir qualquer coisa?

Pela internet, oras pois.

Foi através dela que fiz todos os meus contatos, e conheci meu editor, minha editora e muitas pessoas que, assim como eu, também fazem da literatura sua profissão.

É certo que existe muita porcaria sendo publicada na rede, mas pense comigo: também existe muita porcaria sendo publicada em livros, em revistas, em jornais.

Já sobre favorecer algum estilo, creio que não. Eu mesma visito blogues de altíssima qualidade, e cada um traz sua marca específica: contos, terror, poesia, crônicas. É muito rico e é muito bacana.

E, claro, internet é democracia, todos podem fazer. E democracia abre precedentes para que, quem não sabe, também faça, mas ainda acho melhor todos poderem do que nenhum.

Digo ainda mais: para um escritor, desconheço jeito mais fácil e simples de estar próximo de seus leitores. Além de haver uma interatividade imensa, o sujeito que gosta de ler o que você escreve não precisa esperar sair seu próximo livro ou você escrever para algum meio impresso para te encontrar. Basta dar um click e pronto.

Eu acredito que, cada vez mais, os autores que estiverem ligados vão aderir à internet.

Gente, atenção: ela é aliada da literatura, e não inimiga!

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3:AM: E como foi tua passagem da rede para o papel? Qual o gosto ao ver “Uma Carta por Benjamin” (a saber, o primeiro romance assinado por Jana, editado pela Multifoco e lançado em abril/09) impresso, com capa, cheiro e tudo mais que um livro traz?

JL: Rapaz… Foi demais.

Faltam palavras em nosso Aurélio para tentar resumir qual é a sensação. Quando peguei o livro nas mãos, chorei, chorei mesmo. Na verdade chorei e ri, tudo ao mesmo tempo, parecia uma maluca.

Foi lindo, um sonho realizado, materializado, ali, ao alcance das minhas mãos.

Na verdade, minha passagem foi do papel para a rede e, da rede, de volta para o papel. Quando comecei a escrever, não tinha blogue, nem sabia que isso existia. Na verdade, nessa época eu não tinha nem email, hahaha.

E por mais que eu seja uma defensora ferrenha da internet, nada, nada, NADA se compara com o livro impresso, e a textura e, como você mesmo falou, o cheirinho e tudo o mais.

É incrível.

3:AM: Como já disseram, a publicação não é o fim do sonho, e sim o começo. E agora?

JL: E agora vamos em frente, que o tempo urge e a Sapucaí é grande.

No momento, vou me dedicar a divulgar o livro e a continuar mandando chuva lá no meu blogue pessoal.  Além disso, tenho outros projetos junto com a Editora Multifoco, como a antologia de contos policiais Assassinos S/A, onde já estou organizando a seletiva para o Volume II, que será ilustrado.

Estou envolvida, com satisfação e graças a Deus, em projetos muito bacanas voltados para literatura e arte, como a Revista Café Espacial, e o Jornal Vaia, e o Blog Cabeças Cortadas, e o Beco do Crime, e o E-Blogue.com, e até mesmo este site, o 3:AM.

Enfim.

Tenho bastantes coisas para agora, e estou feliz por isso.

Ah, sim, claro: também ficarei esperando, ansiosa, o e-mail de algum cineasta fodão que queira transformar Uma Carta por Benjamin em filme, hahaha.

3:AM: E objetivamente: onde, como e porque comprar o Benjamin?

JL: ONDE: Por enquanto, o livro está disponível somente no site da Editora Multifoco e em minhas mãos. Claro que em minhas mãos é melhor, porque daí vai autografado.

COMO: Bem fácil. Basta escrever para esta que vos fala através do e-mail 3am.jana@gmail.com solicitando seu exemplar. Ele custa R$25 mais o frete, ou seja: não paga 6 cervejas.

PORQUE: Porque Benjamin, que é um cara como eu, ou você, recebeu uma carta muito estranha, de uma mulher chamada Madalena, da qual ele nunca ouviu falar. E esta mesma Madalena, através de suas correspondências, vai envolvê-lo em uma história muito doida, que mistura drogas coloridas, fanatismo e autoconhecimento. Querendo, você pode ler o primeiro capítulo clicando aqui:  http://janalauxen.blogspot.com/2009/04/uma-carta-por-benjamin-1-capitulo.html

3:AM: Há pouco tempo surgiu uma teoria de que os livros de ficção estariam com os dias contados. O que pensa disso?

JL: Hã, o que? Sério que alguém criou e espalhou essa… teoria?

Imagine, não, nunca, jamais, sob nenhuma hipótese.

O que eu acho que aconteceu foi o seguinte: uma boa parcela da nova geração de escritores que está surgindo, desde o final da década de 90 até os dias de hoje, têm se utilizado da sua própria vida como matéria-prima. Por isso, o teor das histórias acaba circulando em torno do dia a dia do sujeito: eu acho, eu fiz, eu penso. Eu mesmo me utilizo disso lá no meu blogue, com minhas crônicas e palpites, coisa que não faço quando sento para escrever uma história, um conto, uma novela.

Nada contra o estilo, apenas não é o meu.

Quando estou escrevendo uma história, busco criar personagens completamente diferentes de mim, vivendo situações que eu nunca vivi – até porque é bem mais divertido.

E se eu estou fazendo isso, certamente muitos outros também estão. Assim, posso quase apostar 10 pilas que a ficção não vai morrer. Mesmo.

3:AM: E para escrever, tens algum ritual?

JL: Já tive alguns, mas perdi todos, graças a Deus.

Até porque, nem eram rituais, eram manias mesmo.

Por exemplo: eu acreditava que escrevia melhor de manhã, e que precisava de silêncio total e absoluto para isso. Uma torneira pingando e eu já parava tudo e reclamava: assim não dá!

Hoje levo a coisa com mais profissionalismo. Sento e escrevo, na hora que vier a idéia ou que precisar ou que o prazo estiver estourando. Assim, pá, pum. E pode ser de tarde, de noite, com vizinho gritando, criança chorando.

Minha atenção é muito dispersa, mas escrever eu escrevo, até no meio de uma guerra.

O que só facilitou as coisas para mim porque, cheia de manias e rituais e formalidades (lê-se bobagens), acabava perdendo um tempo danado e produzindo muito menos.

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3:AM: Podes dizer então que és adepta da frase “sempre que a inspiração bate lá em casa, ela me pega trabalhando”? Ou depende de uma ou outra fonte inspiradora?

JL: Ou 99% de transpiração e 1% de inspiração.

Pode ser.

Mas penso que isso que a maioria das pessoas chama de inspiração, na verdade, é talento.

Ou facilidade, habilidade, tanto faz.

Alguns escrevem que é uma beleza, enquanto outros desenham, e outros cantam, e outros manipulam remédios. Eu acredito que todo mundo nasça com uma predisposição para alguma atividade específica e que, nem sempre, está ligada à arte.

Porém, é claro, nenhum talento (ou inspiração) vive sem técnica, sem treino, sem esforço. E é aí que entra o trabalho, a transpiração: no sentido de lapidar o que ainda não está tão bom.

3:AM: Mais objetivamente ainda, falas de ler e reler o texto dezenas de vezes até estar realmente pronto? Esse procedimento faz parte da criação dos teus textos? Alguém te ajuda nesta tarefa?

JL: Escrever é a arte de reescrever e cortar. E eu reescrevo e corto o tempo inteiro – não confio a mais ninguém este trabalho.

Na verdade, se eu ler um texto meu 3 mil vezes, 3 mil vezes vou sentir vontade de mudar alguma coisa, nem que seja uma vírgula, uma palavra, um detalhezinho.

Alguém já disse que os escritores só publicam seus textos para pararem de corrigi-los, e eu acredito piamente nisso.

3:AM: Gosto dessa pergunta: vale a pena?

JL: Ô.

Só vale.

Nada nessa vida é muito fácil, e o que é, não tem graça – todo mundo sabe disso.

Além do que, escrever para mim é fundamental, primeiro porque escrevendo eu organizo meus próprios pensamentos. Segundo porque, se alguém leu um texto meu, e este texto processou alguma coisa na cabeça do leitor (entretenimento, pensamento, abstração, ou até cólera, raiva, desconforto), cara… É massa.

Às vezes recebo uns e-mails do pessoal dizendo “nunca tinha pensado por esse lado”, “me identifiquei muito”, “sua maluca, como pode escrever isso?”, e eu penso: estamos no caminho certo. Vale a pena, sim.

Também é uma questão de valores pessoais: para alguém que busca dinheiro, ou fama, ou confetes, possivelmente escrever não valeria a pena.

Mas para mim, que estou atrás de outras coisas, não só vale a pena como é absolutamente necessário.

3:AM: E, para terminar, o que dizer para essa massa de excelentes novos escritores despontando por aí? Deixa aqui para centenas deles o teu recado final.

JL: Tem lugar para quem é bom.

Por mais que digam que não, tem.

Só é preciso talento, técnica, um pouco de inteligência e muita, muita cara de pau.

 

Sobre o Entrevistador:

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Beto Canales é um eterno estudante de literatura. Produz principalmente contos, apesar de atrever-se a cometer crônicas e muito esporadicamente poesias. A universalidade de seus personagens e dos lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte do planeta. É também um cinéfilo apaixonado e um assumido aprendiz de crítico de cinema.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, August 19th, 2009.