Incômoda Perfeição

 Por Tássia Jaeger.

Da janela do seu quarto, Clara tinha a praia de Ipanema aos seus pés. Pés que raramente desciam de um salto 15. Em seu closet abrigava mais de 50 pares de sapatos de salto alto, sem contar a diversidade de outros modelos de calçados. Seu guarda-roupa era o sonho de qualquer mulher vaidosa, tamanha a quantidade de peças. O café da manhã, preparado por Dona Mercedes, a empregada, era completo: dois tipos de sucos, café passado, leite quente, croissants doces e salgados, pão caseiro recém saído do forno e frutas frescas. Seus almoços e jantares eram verdadeiros banquetes. Seu namorado era indefectível: bonito, inteligente, romântico, extrovertido, bem quisto por todos e com um futuro promissor. Os pais de Clara eram de dar inveja a qualquer filho, de tão atenciosos e compreensivos. Sua família grande e unida se reunia todos os fins de semana. Suas férias e feriados eram quase sempre em Angra. Clara era dona de um corpo perfeito, de cabelos sedosos, unhas impecáveis, rosto angelical e gestos delicados. Era formada e especializada, mas ainda sob o teto dos pais (característica dessa nova geração insegura e despreparada pra coisas tão simples que não exigem diploma, como afazeres domésticos). Clara, a típica burguesinha bem encaminhada, tinha a vida perfeita. Perfeita demais. Tão perfeita que dava nos nervos, de tão chata. 
Sua vida, tal como ela mesma idealizava pros seus filhos, assim que os tivesse, lhe parecia sem sal. Estava tudo muito pronto. Fora muito planejado e bem estruturado. Seus pais suaram pra que ela tivesse uma vida sem necessidades. Não mediram esforços pra que ela jamais precisasse se esforçar. Assim, ela não tinha nada a fazer. Não precisava começar e nem terminar nada. Bastava continuar administrando o que lhe foi dado de mão beijada assim que seus pais partissem. E ainda faltava muito tempo pra que ela precisasse, de fato, administrar tudo aquilo. Só precisava gozar a vida. Mais nada.
Muitas vezes, em meio às freqüentes (e entediantes) reuniões familiares, entre os risos de seus parentes, Clara ficava séria, pensativa, alheia às conversas. Todos perguntavam o que ela tinha, e ela sempre desconversava, respondendo coisas do tipo “nada, nada” ou “tô pensando nas coisas que eu tenho que fazer”. Mas ela sabia que não tinha nada a fazer. Nem sequer precisava arrumar seu guarda-roupa ou sua cama, pois Mercedes o fazia. Era justamente esse nada que a irritava. Nessas vezes em que ela ficava fora do círculo de conversas, Clara estava na verdade observando todos, julgando-os e julgando a si mesma. Achava que as vidas daquelas pessoas eram fúteis, mesquinhas e hipócritas, assim como a sua. Não queria estar ali. Odiava essas sociais que tinha que fazer e se odiava por não se negar a fazê-las. Queria fugir dali, gritar impropérios pra aquela gente chata e repetitiva, achar um motivo pra que seu namoro estável entrasse em crise; queria mudar. Mas faltava-lhe coragem. Do que ela iria reclamar (de barriga cheia)? Quantas pessoas não dariam tudo pra estarem em seu lugar? Além do mais, ela era uma mulher feliz. Era? É? Fora algum dia? Nem ela sabia.
Perfeição pra Clara não era atraente. Ela não se sentia viva com a vida que levava. Sua vida era estável demais. Precisava de emoções profundas, o raso não lhe interessava. Precisava de oscilações, de altos e baixos. Precisava trancar a respiração e soltá-la depois de um tempo pra ver como era bom respirar. Pois ela sabia que pra perceber a vitalidade do ar, era preciso sentir falta dele às vezes.
Clara queria viver uma história de amor, pois aquela que vivia não tinha… sal. Começou num bar qualquer, numa noite qualquer, com um assunto qualquer. Foi tão insignificante aquele começo que nem sequer ficou marcado em sua memória. Histórias que começavam assim, de forma tão banal, não podiam dar certo. Seriam mais mornas ao longo do percurso. Mas o morno era confortável pra Clara. Era como um banho. Quente demais queimava, e frio demais gelava. O morno era ideal. Entretanto, os romances que assistia eram sempre melhores que o seu. Podiam até ser trágicos, ao estilo Romeu e Julieta, mas pelo menos tinham alma. Sua história nem ao menos daria um livro. Além disso, queria se aventurar pelo mundo, viajar, conhecer pessoas interessantes, não ter rumo, se libertar de si mesma sem temer o que viria pela frente.
Esses eram alguns dos pensamentos que rondavam sua cabeça em meio às conversas alheias nas reuniões familiares. Assim, durante suas auto-reflexões contidas, esperava que o foco da conversa saísse dela e, de fininho, ia pro seu quarto. Sentava encostada à cabeceira da cama, apanhava o notebook, colocava no colo e escrevia. Ficções. Ficções nas quais ela se imaginava a protagonista. Histórias cheias de emoções. Histórias nas quais havia o sal que faltava na sua própria história. Clara se inspirava em quase tudo pra escrever. Em filmes, livros, músicas e nos passantes da rua. Inspirava-se em várias vidas, menos na sua. Pareciam que todas as histórias que ela escrevia eram dignas de serem vividas. Era através delas que Clara criava as experiências pelas quais desejava ter passado.
O mundo no qual Clara vivia não era interessante. Era supérfluo. Por isso, antes de escrever, ela gastava horas na janela. E lá em baixo, entre aquelas pessoas, ela encontrava matéria-prima pras suas obras. A vida estava lá fora. No seu apartamento, a única coisa que vivia era o vazio existencial que sentia. “A vida perfeita nem sempre é digna de ser vivida”, pensava. Chegava a invejar as pessoas com vidas bem menos abastadas que a sua. A aparente mediocridade dos favelados que moravam perto de sua casa lhe era mais atraente do que o luxo que a cercava. Lá havia história; muita história pra se contar. Lá, apesar das coisas ruins que aconteciam, eles eram felizes. Aqueles pobres eram felizes porque um dia conheceram a tristeza e a superaram. Aprenderam que só se entende o que é a felicidade conhecendo a tristeza. E viram que “é melhor ser feliz do que ser triste”. Mas Clara não conhecia a tristeza. Então como era possível saber se era feliz? Precisava de mais antônimos na sua vida.
Certa vez, após assistir a um documentário sobre Vinícius de Moraes, adotou uma frase dele como lema pra sua vida: “É melhor viver do que ser feliz.” Sim, porque aquela felicidade que ela vivia era amena demais. Ela queria experiências loucas que talvez não lhe proporcionassem felicidade, mas satisfação. Afinal, só se vive uma vez. É preciso então experimentar. “Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, ela cantarolava sonhadora.
Clara estava presa em si mesma. E só suas histórias eram capazes de libertá-la. Como disse Felipe Pena, “o escritor procura fugir da fugacidade da vida pelo tortuoso caminho das letras”. Clara concordava com ele quando este ainda dizia que assim o escritor estaria “amenizando a angústia de sua efêmera existência sobre a terra”. Entretanto, ainda faltava algo. Suas histórias não podiam morrer naquele apartamento. Precisavam respirar. E foi assim que Clara e seus esboços foram parar nas livrarias. Haviam intelectuais que ainda insistiam em dizer que pra ser escritora a pessoa deveria ter vivido muitas coisas; devia ter muita bagagem. Mal sabiam estes que o que mantinha Clara viva eram seus livros, inspirados em nada além de seus desejos e vontades mais íntimos. Desejos e vontades que ninguém jamais compreenderia. Seria ingrata demais se dissesse que queria mais tendo menos, quando todos que tinha menos queriam mais. Assim, era apenas em seus romances que Clara vivia a vida que julgava perfeita. Não uma vida, mas várias. E assim transcendia Gide que dizia que “entre 100 caminhos, a gente tem que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”.
Em seus livros, Clara vivia diversos sentimentos e sensações. Através das vidas distintas de seus vários eus, ela se encontrou. Como escritora e sentindo-se a protagonista de seus romances, ia da euforia à melancolia. Podia enfim distinguir tristeza e felicidade. Era monótona ou agitada, passiva ou ativa, impulsiva ou racional. E era tudo isso sem sair da janela de seu apartamento. Era tudo isso olhando o mar de Ipanema, sem descer do salto 15.

Sobre a Autora:

tj.jpg

Tássia Jaeger; 22 anos; gaúcha de Porto Alegre; 6º semestre de Jornalismo; colaboradora do Tudo de Blog, da Revista Capricho; Escreve desde 2005 no blog www.tataj.blogspot.com, mas já costumava escrever histórias e versos em cadernos velhos, guardanapos de restaurantes e folhas de revistas, até descobrir os computadores; ama ler tudo que vê pela frente e não sai de casa sem um livro; gremista; constantemente esfomeada e raramente saciada; ariana ao pé da letra; viciada em blogs; revoltada com as convenções da sociedade hipócrita, com a futilidade e com a mesquinharia; fala e depois pensa, mas tudo que pensa, fala (e escreve); satisfeita com suas idéias e pontos de vista; amém.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Tuesday, September 22nd, 2009.