Linha Contínua

Por Andréa del Fuego. 

O acidente aconteceu, os corpos no chão, a noite desce. Sentada no acostamento vejo as luzes chegando disformes, sou uma náufraga do piche.

Estava naquele carro, lembro quando saímos animados, íamos sem pressa, aqueles no chão são meus amigos.

Roberto, meu amor, sente aqui. Tua voz perfumada, jeito leve, jeito forte, vem cá.

Meu sangue escorre vivo e vai ficando da cor dos vestidos das velhas, bordô. Roberto, eu te amo. Por que não te disse?

Como um cachorro com seu dono, era sua cachorra. Toda vez que fechava a porta eu deitava com o focinho nas patas esperando você voltar. Fui sua cachorra sem ter sido sua cadela no cio. Mesmo que tivesse me rejeitado seria bom, pois pra isso teria que me tocar, tirar minhas mãos do seu corpo.

Caminhões passam em alta velocidade, meus cabelos não voam, estão grudados no rosto. A visão não fica turva, as mãos nem trêmulas estão, não arrisco levantar-me. Os faróis parecem próximos e no entanto demoram a chegar, os vejo no alto da banguela, estrada petróleo e lilás.

Saberia defender-me de qualquer um agora. Todos aqueles que não me viram porque nunca soube fazer-me vista, deveriam estar aqui. Roberto, pode me ouvir?

Que lucidez assustadora, que salto, este é o auge de minha vida, a glória. Meus amigos estão mortos no asfalto e eu não. Minha vida não acabou como imaginei se uma tragédia acontecesse, a tragédia não me levou.

Olhe ali o corpo de Suzana. Uma massa densa que vai desaparecer, nem mesmo o corpo que esculpia ficará como prova de seu respiro. Nada. Invejei tanto Suzana e nem morta deixo de querer ter sido ela. Ter o cabelo sedoso, a pele apaixonante, mesmo sabendo que isso era a interpretação da luz pelo meu cérebro.

Quero saber antes de fechar os olhos; quero saber, afinal, o que interpreta a luz?

Onde isso tudo se funde pra me dar a visão que tenho agora?

Visão igual pra todos em parte, qualquer um veria este carro capotado, o vale atrás de mim velando os corpos. No entanto, a morte desses aqui, essa imagem de dez dimensões contendo o que sei sobre cada um, o que minha memória bebeu, só a mim pertence.

A luz que me atravessa não atravessa mais ninguém.

 

Sobre a autora:

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Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Nego tudo (Fina Flor, 2005) e Engano seu (O Nome da Rosa, 2007, projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo) e dos juvenis Sociedade da Caveira de Cristal (Scipione, 2007) e Quase caio (Esacala Educacional, 2008); integra as antologias: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial, 2004), Fábulas da Mercearia (Ciência do Acidente, 2004), 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira (Editora Record, 2005), 35 Segredos Para Chegar a Lugar Nenhum (Bertrand, 2007), Capitu mandou flores (Geração Editorial, 2008), entre outras. 

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, August 19th, 2009.