Literatura 2000

Jornal do Brasil

Entrevista de Flávio Carneiro, concedida juntamente com Italo Moriconi, a Paula Barcellos

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Está na moda discutir, tanto na academia quanto nos jornais - sem contar os inúmeros sites e blogs espalhados Brasil afora - a existência da chamada geração 00 de escritores brasileiros. Se ela existe ou não, se a nomenclatura ou o rótulo é contundente, só o tempo vai dizer. Mas é fato que há um grupo de jovens autores publicando seus livros, movimentando o marasmo da crítica e, principalmente, dando muito o que falar - e falando muito também.
Há aqueles que acham uma afronta a expressão ”literatura de blog” ou ”blogueiros”. Mas existiria definição mais pertinente para uma Clarah Averbuck, por exemplo? Pois bem, para não instigarmos apenas novos determinismos ou polêmicas infundadas e até cabotinas, convidamos os críticos literários e também escritores, Flávio Carneiro e Italo Moriconi, para um bate-papo sobre o que anda acontecendo na prosa brasileira contemporânea.
Flávio Carneiro, que lança em março pela Rocco No país do presente: ficção brasileira no início do século 21, reunião de 65 resenhas de obras de autores novos e também de consagrados, de início já deixou bem clara a sua postura sobre a tal geração 00:
- Não acho que se deva definir ”geração 2000”, é apenas mais um rótulo, não ajuda em nada a entender o que se passa na ficção atual.
Organizador de Os cem melhores contos brasileiros do século (Objetiva), Italo Moriconi discorda um pouco de Flávio e até arrisca algumas características da nova safra de escritores:
- É uma geração mais linkada a uma literatura surgida a partir do suporte da internet. Às vezes, nem existe referências literárias, a inspiração pode estar vindo do próprio umbigo do escritor, como no caso dos blogueiros.
Mas num ponto eles concordam: não há mais espaço para uma nova Clarice Lispector ou um novo Guimarães Rosa. Essa cobrança por um novo cânone, que normalmente parte dos próprios críticos, é por eles condenada. Não há mais uma cultura intelectual exclusivamente literária, terreno fértil para o surgimento de gênios. Para Flávio Carneiro, quem reclama a falta de uma ficção original brasileira nos últimos anos deveria rever seus conceitos de inovação. Afinal, o que não falta são bons escritores por aí.
Nelson de Oliveira, ao utilizar a denominação geração 90, provocou muita polêmica. Mal acabaram essas discussões, surge outro rótulo, a geração 00. O conceito de geração literária ainda é válido?
Flávio Carneiro - O conceito de geração é bastante enganoso. Dá a entender que se trata de um grupo, quando, na verdade, esse grupo não existe, o que existe são escritores que começaram a publicar numa mesma época, e isso não quer dizer muita coisa. Sobretudo hoje, quando a diversidade é a principal marca da ficção, com os escritores seguindo caminhos bem diferentes uns dos outros. O conceito de geração é resíduo de um tempo em que ainda se acreditava em grupos e em projetos coletivos.
Italo Moriconi - Uma geração literária, artística ou intelectual não se define apenas por idade ou pela coincidência cronológica. Uma geração no sentido forte do termo é um grupo ou diversos grupos que possuem algum tipo de identidade estética ou ideológica, mesmo que essa identidade seja pluralista, como ocorre hoje em dia.
O que faz um escritor pertencer à geração 90? E à 00?
FC - Ter começado a publicar em algum momento dos anos 90, mais nada, porque o resto é só diversidade. Não acho que se deva definir “geração 2000″, é apenas mais um rótulo, não ajuda em nada a entender o que se passa na ficção atual. O que há são bons e maus autores que começaram a publicar de 2000 pra cá.

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IM - Acho difícil estabelecer uma diferença entre as gerações 90 e 00. Elas próprias é que nos deveriam fornecer essa diferenciação. Tenho uma certa tendência a ver tanto os escritores jovens dos 90 quanto os escritores novos dos anos 00 como parte de um mesmo momento na história recente da cultura brasileira. Arriscaria uma diferenciação no sentido de que vejo a chamada geração 00 mais linkada a uma literatura surgida a partir do suporte da internet, dos blogs. Um traço comum às gerações 90 e 00 é que já não tomam mais como seus modelos absolutos a Clarice Lispector e o Rubem Fonseca, que foram os grandes mestres da geração 70. Creio que as referências são mais diversificadas e às vezes nem existe referências literárias, a inspiração pode estar vindo do próprio umbigo do escritor, como no caso da geração 00 blogueira.
O escritor gaúcho André Takeda diz que, para a literatura ir além, é preciso mais sites, mais editoras, mais novos escritores. Concordam?
FC - Não. Temos editoras e escritores em número suficiente no Brasil. Precisamos de mais leitores, livrarias, bibliotecas públicas, programas de incentivo à leitura.
IM - Diria que a quantidade é um fator muito importante, mas acredito que a literatura vai para a frente fundamentalmente através do impacto causado pelos autores mais talentosos, pelo fator qualidade. Cabe à critica e ao público ir peneirando ao longo dos anos quem são os autores realmente bons dentro de uma geração.
Blog é literatura?

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FC - Literatura é, até porque o conceito de literatura é bastante amplo e sob seu teto generoso podemos abrigar várias formas de escrita. Agora, se é boa literatura ou não já é outra história. Clarah Averbuck, a meu ver, representa certa vertente atual, formada por autores que levam ao pé da letra a frase: minha vida daria um romance. Dá romance, tudo bem, mas romance ruim. São autores que não dominam o ofício, que têm um mínimo de técnica e um máximo de presunção. Já me disseram que os blogs devem ser valorizados, porque apontam para um traço da cultura contemporânea etc. Concordo, se a questão for tratada do ponto-de-vista da sociologia, dos estudos culturais ou algo assim. Mas o fato de ser uma manifestação legítima de certo momento de determinada cultura não é o bastante para garantir a qualidade do que é feito.
IM- Blog é literatura em potencial. Acredito firmemente que o atual estágio da civilização tecnológica, marcado pelo computador e pela comunicação virtual, é infinitamente mais favorável à leitura e à escrita que o estágio anterior, televisual. Literatura é uma arte que exige que a pessoa tenha aprendido a tirar prazer da disciplina mental e corporal.
Em geral, os críticos universitários resistem a estudar o momento literário em andamento. Por quê?
FC - Falar do presente é sempre delicado. Fomos educados segundo os pressupostos da história tradicional, que privilegia o distanciamento na análise do fato. Mas hoje novos historiadores já defendem uma idéia diferente: é possível falar do fato no momento mesmo em que o vivenciamos. Acho que a questão aqui é outra. É a prepotência do discurso do historiador e do crítico literário que quer dar a palavra final sobre determinado autor ou obra que os leva à necessidade de distanciamento. Acreditam que sua função é julgar, e para tanto precisam de tempo. É por isso, por esse princípio equivocado, que a crítica dá pouco valor ao estudo do contemporâneo. O crítico não precisa julgar nada, embora às vezes possa até fazê-lo, mas sem ter necessariamente esta obrigação. O que ele deve fazer, sempre, é pensar sobre o seu objeto: o texto literário. E por que não pensar sobre o objeto que acaba de ser produzido? Por que esperar que ele se estabilize, se transforme em cânone? Alguns críticos, me parece, têm medo de errar, de, por exemplo, elogiar determinado livro e daqui a alguns anos a academia chegar a um veredito: esse livro é ruim. Isso iria depor contra o tal crítico que elogiou a obra. Mas também aí há um equívoco: o crítico não tem que dar satisfação a ninguém a não ser a seus leitores, que merecem ler análises pertinenentes. E quem garante que a academia, num segundo momento, não poderá reavaliar seu veredito, aprovando o livro que antes reprovava? O crítico não tem que se sujeitar a isso, seria uma loucura.

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IM - Acho que sua pergunta reflete um certo mito negativo. Na verdade, em um bom número de universidades brasileiras, tanto em Letras como um pouco em Comunicação, existem muitos professores que levam a literatura atual para a sala de aula. Existem universidades mais tradicionais, como a USP, que não chegam sequer a Clarice e Rubem em seus programas de graduação. Mas não se pode fazer dessa questão um fetiche, pois não cabe à universidade funcionar a reboque do ritmo vertiginoso do jornal e da TV. Para a universidade, a literatura e a arte não podem ser apenas um espaço de novidade e atualidade. Cabe à imprensa cultural e ao movimento artístico extra-universitário agitar e mobilizar em torno da produção nova. Agora, é claro que seria maravilhoso voltarmos aos anos 60 e 70, quando a universidade era um celeiro fundamental de renovação.
Com o boom dessa geração, pode-se dizer que foi criada uma nova maneira de fazer literatura?
FC - Não, acho que seria exagero.
IM - Não sei se está sendo criada uma nova forma de literatura pelas novas gerações. Sei que a internet oferece um tremendo potencial de experimentação, mas a verdade é que vemos muitos autores jovens buscando expressar-se de forma bem tradicional, seja através de um estilo confessional pós-adolescente (na literatura blogueira), seja através de relatos realistas de tipo jornalístico sobre a vida nas periferias pobres (o chamado retorno do real). A meu ver, a característica mais forte da literatura mais recente é colocar a figura autobiográfica do autor dentro do texto ficcional. Os textos mais interessantes nessa linha são aqueles em que a figura do autor aparece, mas de maneira mentirosa, ou seja, é um confessional fingido.
- Muitos questionam a falta de uma nova Clarice ou um novo Guimarães Rosa, como se não houvesse nada de inovador.
FC - Não há mais uma nova Clarice ou um novo Rosa porque já não cabe, hoje, uma escrita tão personalizada quanto a deles. Clarice e Guimarães são os últimos remanescentes das vanguardas do século 20. Criaram, cada qual à sua maneira, obras de forte experimentação de linguagem, às vezes chocando ou pelo menos incomodando seus contemporâneos. Hoje já não há espaço para isso. O que é muito bom. Adoro Rosa, adoro alguns livros (não todos) de Clarice, mas eles criaram uma ficção que não caberia no panorama atual. Eles escreveram contra certos padrões determinados, derrubando muros, desconstruindo modelos. O que vejo hoje é algo que costumo chamar de transgressão silenciosa. Uma transgressão que evita o estardalhaço, que não chama a atenção, que vai roendo por dentro. Quem reclama da falta de uma nova Clarice ou um novo Guimarães Rosa deve rever seus conceitos de originalidade, de inovação. Há muita coisa original na ficção brasileira dos últimos anos, e os melhores autores, na minha opinião, são justamente aqueles que enveredam por essa transgressão silenciosa.
IM - Não temos mais uma cultura intelectual exclusivamente literária, por isso os novos escritores não estão nem aí para se transformarem em gênios literários, pelo simples fato de que nenhum tem com a própria atividade aquela relação quase sagrada com a escrita que a geração modernista tinha. Guimarães Rosa, antes de saber que era gênio, quis efetivamente ser um gênio. Alem disso, só dá pra ser gênio em literatura quem tem seu sustento garantido e hoje os nossos escritores precisam trabalhar para sobreviver. Às vezes, passam-se várias gerações sem que apareça alguém realmente excepcional. Acho que os vários séculos de Cervantes a Guimarães Rosa produziram um corpus laico de livros sagrados que pode nos alimentar por milênios.
- Qual a importância do Encontros de Interrogações, realizado essa semana em São Paulo?
FC - Acho muito importante. É preciso elaborar programas, ações que contemplem ao mesmo tempo o incentivo à leitura e à criação literária. Pelo que sei, um dos principais objetivos desse encontro foi o de levantar, a partir do debate, sugestões efetivas nesse sentido, a serem encaminhadas às instâncias governamentais. Espero que seja bem produtivo.
IM - Acho que é uma iniciativa interessante. Lamento não ter sido convidado. Mas acho também que escritores não funcionam muito como coletividades sindicais. Todo escritor de verdade é espirito livre, autônomo, independente, indomável. Por outro lado, uma geração artística e literária é sobretudo um grupo ou vários grupos que desenvolvem estratégias comuns de inserção nos circuitos da literatura e da arte. Os modernistas fizeram isso através das técnicas de choque da vanguarda e depois pela cooptação pelo Estado, a geração 70 através do diálogo com a universidade e a politica, a geração 90 através de técnicas publicitárias e a geração 00 (assim como já tambem a 90) através de técnicas de visibilização na rede. Portanto, cada nova geração cria seus próprios circuitos de consagração. Não se trata de criticar, trata-se de entender como a coisa funciona e como varia historicamente. O importante é que funcione.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Saturday, May 19th, 2007.