O Consertador de Sapatos

Por Karen Scopel. 

O velho virou-se e rumou para a sua oficina, a velha sapataria que fôra de seu pai e, antes ainda, de seu avô. O mesmo cheiro de tantos anos, mistura de colas, tintas, solventes e lembranças. Fechou a porta atrás de si, sua vida confundia-se com aquela sala; compartilhou alegrias com as tábuas das paredes, tristezas com o chão duro e frio, porém firme, apesar dos buracos que se formaram onde antes haviam os nós da madeira. Sentou-se num banco, também velho, e aos poucos foi se curvando, tanto a ponto de ver apenas o chão sob seus pés. Queria ser sugado por um daqueles buracos, esconder-se de tudo, fingir que nada acontecera. Brincar de esconder e ser invisível era o que o filho mais gostava quando criança; ele entrava sorrateiro e escondia-se atrás da porta, logo, com suas pisadelas rápidas de menino, passava para debaixo da bancada, a mesma da época de seu bisavô, toda com pequenas divisórias que desde sempre guardaram os mais diversos tipos de apetrechos, pregos, preguinhos, tachas, botões, linhas, presilhas e tantas outras miudezas.Sentia-se apequenando.Ele, o pai, como participante da brincadeira, fingia surpresa quando o menino postava-se ao seu lado, como se tivesse acabado de tomar forma. Naquele tempo não eram necessárias palavras.

“Não quero ouvir, filho, não tens motivos para ir embora, são ilusões que te esperam lá fora”. Ao lembrar-se, seu coração martelava a ponto de fazer seu corpo todo estremecer.

“Mas pai, eu não quero passar o resto da minha vida aqui, quero ser diferente, quero…”

Não deixou que ele continuasse. “Quer o quê? Quer que todos pensem que meu único filho me virou as costas agora, nesta minha idade em que nada mais me espera, a não ser a velhice cega e sem piedade?”

“Chega, pai, vamos parar por aqui”. Sentiu o martelo bater mais forte, assim como bateu forte a sua mão no rosto do filho. “Quem diz quando chega sou eu. Ainda mando aqui, sou teu pai”.

As janelas da sapataria estavam abertas e foi um suave canto de passarinho que o tirou de seu torpor. Levantou-se e pôde ver a mulher no pátio, sentada em sua cadeira de fazer crochê, as lágrimas misturando-se aos pontos que iriam se unir para formar uma flor. Nem esperou o anoitecer, foi para o quarto, vestiu o pijama e fechou as cortinas. Abandonou-se ali.

As lembranças dos tempos distantes estavam lhe chegando cada vez com mais freqüência e confundiam-se com a discussão daquele dia. Dia este que lhe parecia ontem. Mais uma vez acordou no meio da noite e começou a contar as tábuas que se uniam para formar o forro no teto, da cabeceira para os pés da cama, até o final do quarto, e de lá em sentido contrário até onde seus olhos alcançavam. Não conseguia dormir. Parecia ainda sentir seus dedos atingindo com força o rosto dele. Há muito tempo, também quis uma outra vida para si, também quis ir embora, ainda quando aprendia com o pai a arte de consertar e confeccionar sapatos; mesmo assim, não conseguia deixar seu filho partir. Antes, muito antes de pregar-se a esta sua vida, com tantas tachinhas que dariam para pregar um sem número de solas de sapato. Seu pai, na época, não precisou dar-lhe um bofetão, seu olhar de reprovação bastou. O mesmo olhar que via agora, ao levantar-se da cama e deparar-se com a própria imagem refletida no vidro da janela.

Saiu do quarto, passou pela cozinha e pela sala, chegando à sapataria. Colocou o avental sobre o pijama, a mulher iria reclamar se o visse assim, mas fazer o quê? Era só o que ela fazia nos últimos tempos, reclamava da sua rabugice, do seu arrastar de chinelos, do seu pouco falar e dizia sentir dor nas juntas e frio nos pés.

Um sapato precisava ser colado, outros tantos esperavam sua vez para receber solados novos, o salto daquele tamanco não, aquele não tinha mais conserto.

Olhava agora para as paredes de tantas épocas, do pai e do avô, dele mesmo, jovem recém casado assumindo o negócio e dividindo as tardes com a esposa, que durante algum tempo o ajudou na sapataria, mera desculpa para passarem mais tempo um com o outro. Os martelos e perfuradores pendurados, as sacolas com sapatos prontos e esquecidos por seus donos, abandonados. Decerto ninguém sentia falta deles. A mulher continuava a dormir, foi-se o tempo em que se dava conta de estar sozinha na cama e levantava em busca do marido.

Tinha uma botina precisando de pintura, uma bolsa de viagem para trocar a alça.

Não sentia mais o passar dos dias, sabia que era hora de parar de trabalhar quando a mulher preparava o chimarrão e punha duas cadeiras na calçada em frente à velha casa; era o momento de apreciarem o cair da tarde. Não trocavam mais palavras, apenas gestos e atitudes, repetidos por tantos anos que já haviam se tornado costume. Os vizinhos passavam, se deixavam ficar uns instantes, as crianças se divertiam descendo a rua com seus carrinhos de lomba. Todos os dias eram assim, não tinha por que os contar, muito menos esperar por eles.

O filho, quando nasceu, era para ser o primeiro de muitos, mas sua mulher quase morreu e não puderam ter outros. O menino cresceu cercado pelos mimos da mãe e os olhares atentos do pai. Tentou ensiná-lo na sapataria, porém ele não tinha o menor jeito, era só tirar o olho e martelava os dedos ou colava invertidas as solas dos sapatos. Dizia querer ser, não lembrava muito bem o quê. A cada dia ele aparecia com uma idéia nova, queria ser qualquer coisa, menos sapateiro. 

Começou por cortar o couro que serviria de alça para a mala, era preciso colar, depois costurar com um ponto bem firme e arrematar as pontas com tachas resistentes. Queria poder costurar a vida assim, fechar os buracos, unir as pontas, consertar os rasgos, colar os pedaços.

A noite foi embora, a mulher levantou, chamou-o para o café e reclamou do avental sujo sobre o pijama. Ele sentou-se, tomou um gole e perguntou pelo filho.

“Faz dois meses que ele foi embora, esqueceu? Todo dia agora essa pergunta”.

O café ficou amargo de repente; melhor voltar e tentar consertar aquele tamanco.

Sobre a autora:

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Karen Scopel estréia oficialmente na literatura com a publicação de um de seus contos no livro Histórias de Trabalho 2008, coletânea resultante de um concurso da prefeitura da capital gaúcha. Encantada pelas palavras desde a infância, adora ler. Escrever, além de ser um estímulo à imaginação e à observação do que a cerca, é um grande desafio.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, September 30th, 2009.