O Corpo

Por Afobório. 

- Arthur, conhece o pipoqueiro?
- O da esquina, sim.
- Pois é esse mesmo.
- O que tem ele?
- Precisa matá-lo.
- Tem certeza, o que ele fez?
- É ele quem está por trás de tudo.
- Não pode, ele não é um homem capaz de sandices.
- Pois eu lhe digo que é.
- Acha mesmo que é ele, e que devo matá-lo?
- Se continuar com esse coração mole será eliminado em pouco tempo.
- Bem, tem alguma idéia de como posso fazer isso?
- Use o seu poder, misture-se nas sombras e o atinja entre as costelas. Vai perfurar o pulmão e causar um edema. Aquele velho não vai aguentar, eu tenho certeza.
- E quando será?
- Hoje, depois que fechar a livraria. Quero que pegue aquela faca de açougueiro que está sobre a pia e despache aquele idiota. Assim o exército do mal pensará duas vezes antes de se meter com a gente.
Foi quando mais um cliente chegou:
- Olá, como vai?
- Muito bem.
- Me chamo Arthur, em que posso ajudar?
- Procuro um livro.
- Alguma preferência?
- Prefiro literatura beat.
- Bem, gosto muito desse aqui – disse, esticando o braço e alcançando a obra.
- Almoço nu. O título é bastante curioso.
- Garanto que não vai se arrepender.
- Vou levar.
- Obrigado, e volte sempre – respondeu Arthur, enquanto entregava o pacote ao mesmo tempo em que guardava o dinheiro.
No mesmo instante fechou a porta, depois as janelas. Queria ter certeza de que ninguém espiava para dentro da livraria. Foi até o banheiro, vestiu um poncho preto e um chapéu negro.
Depois caminhou para a cozinha e pegou a faca. Rapidamente saiu pela porta dos fundos e andou pela lateral da casa até os arbustos verdejantes que adornavam o portão antigo.
A rua estava deserta, e a luz dos postes acesa. Chovia mais uma vez, e era tão frio que os ossos doíam. O velho abaixava para recolher as coisas e colocá-las dentro de sua sacola. Era perfeito.
Enquanto fitava, Arthur também odiava. Apertou o cabo da lâmina e saltou em velocidade; o coitado nem sofreu. Foi atingido com perfeição e caiu. Logo que largou o homem para desfalecer na calçada, correu em sentido oposto.
Por duas quadras ele não parou. Quando chegou ao portão do antigo depósito abandonado que fazia divisa com os fundos de seu quintal, pulou o muro num impulso só, segurando no topo da tela alta. Aos passos largos, rasgou o terreno e venceu mais uma cerca para chegar até seu pátio. Abriu a porta, entrou, lavou e guardou a faca com extrema agilidade, trocou de roupa e foi para a sua poltrona. Era hora de ler e fumar.

Sobre o autor:

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Afobório é o pseudônimo de Alexandre Durigon, um desajustado de barba espigada e delírio nos olhos. Não sente medo, não é de ferro, mas tem um coturno de número 43, forte e pesado, usado para derrubar muros e exterminar ditadores. Crê nas coisas que sente, vê a literatura como uma lâmina. Pensa que a arte só tem sentido quando te deixa pasmo, calado, pensando em como a humanidade chegou até aqui. Acredita no espírito, na mente e na morte, antes de tudo. Contratado pela Editora Multifoco, do Rio de Janeiro, lança ainda esse ano seu primeiro livro solo, Livre para ser preso.
Afobório escreve no Beco do Crime, no E-Blogue.com e no Blog Cabeças Cortadas.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, August 19th, 2009.