O dilema do sabão em pó.

por Rodrigo Volponi Leal

Você pega sua lista de compras e vai até o supermercado. Há um corredor inteiro, com vários metros de altura, só com opções de sabão em pó. Sabão de ação direta, dupla ação, tripla ação, multiação, com alvejante, com ação bleach (porque “alvejar” não é um termo claro o suficiente), com suavizante, com poder rosa, com solução anil, com 02, fresh, para roupas brancas, para roupas coloridas, para roupas sensíveis. E agora? Multiação é quantas vezes maior que tripla ação? Ou será que é menor? Não seria melhor ação direta? Para cuecas, o poder rosa está definitivamente fora de cogitação. Mas é melhor ter cuecas alvas ou suaves?

E os xampus? Hidratante, anti-queda, anti-caspa, para cabelos oleosos, secos e indefinidos, com condionador, dois-em-um, três-em-um. Onde está aquela opção “um-em-um”, xampu-xampu, mesmo? Não tem. É um beco sem saída. Você sabe que, independente da escolha que fizer, vai deixar lá na prateleira todas as outras opções. Só há uma única certeza: você vai escolher errado.

Se sentindo levemente derrotado, você se encaminha para a seção dos alimentos. Pobre alma. Café: alta mogiana ou baixa sorocabana? Forte, extra-forte, fraco ou equilibrado? Cereais matinais: com sete, oito ou nove vitaminas? Integrais ou com açúcar? Não seria melhor ver caixa por caixa, comparando os ingredientes?

Aí você, segurando aquele “iogurte sabor morango com pedaços de fruta adicionada de ferro e cálcio sem gordura trans em embalagem econômica compre três leve quatro”, enxerga aquilo. Aquilo. Você nem se lembrava, mas ela está lá. Inexorável, impenetrável, implacável: a tabela nutricional.

Suas opções foram multiplicadas exponencialmente. Agora, além de escolher sabor, cor, textura, marca, fabricante e ingredientes, há também lipídios, protídios, cálcio, ferro, fósforo e vitamina A. E calorias, meu Deus, calorias. É mais fácil deixar um notebook dentro do carrinho, planilha de cálculo aberta, preparando comparações e gráficos para ajudar a escolher, usando pontuações e ponderações de média para cada característica dos biscoitos recheados disponíveis.

É muita coisa. Não dá tempo. Você pensa que a melhor solução seria pedir demissão do trabalho para poder comparar corretamente as diferentes opções de pão de forma. Talvez até abrir uma empresa de consultoria em empanados de frango congelado. Ou criar um curso de especialistas em avaliação nutricional de jujubas de ursinho.

Antes de cair espumando de desespero no caminho para o corredor de bebidas, você se lembra que existem esmaltes para unhas. E agradece aos céus por nunca ter que pintá-las. Ainda bem.

Sobre o autor:

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Rodrigo Volponi Leal, a sutileza em forma de gente desde 1979. Publicitário, interneteiro e aspirante a batuqueiro do Olodum. Gosta de tulipas em vaso de barro e de falar só quando tem certeza.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Tuesday, October 20th, 2009.