O FANTÁSTICO MUNDO DAS COISAS

Por André ‘Cardoso’ Czarnobai.  

1. A Colher 

Colher é um apetrecho TALHÉRICO muito esquisito desde criança e,

portanto, muito perturbado pelos coleguinhas na ESCOLA. Com a forma de

um GARFO DE LUVA levemente ACONCHEADO, a colher é um ser que cresce

para jamais sair do SUBALTERNO. Quando adolescente, serve para fazer

todo o trabalho duro; as mais PARRUDAS designadas para SERVIR os

pratos e as mais MIRRADINHAS ficam com a tarefa de CAVOCAR sobremesas

e sopas. Garfos e facas, que ficam sempre com o mais NOBRE da

refeição, deleitam-se com a situação e CAGAM NA CABEÇA da pobre

colher.

 

Mas é no UNDERGROUND que a colher ESMIRILHA todo seu potencial. Já

adulta e INVARIAVELMENTE na prisão, desde que BEM LAPIDADA, uma colher

pode servir de arma MORTAL. Nas mãos de dentistas CHARLATÕES, que não

tem VERBA para adquirir aquele espelhinho altamente tecnológico para

ver os dentes lá do FUNDÃO, a colher pode virar um excelente COMPARSA

em qualquer tipo de FRAUDE.

 

Como regra FUNDAMENTAL, uma COLHER somente teme e respeita o

profissional do ILUSIONISMO, que tem essa mania irritante de

DECAPITAR, AMASSOCAR e MUTILAR o pequeno utensílio com seus PASSES DE

MÁGICA. Isto transforma a categoria no único INIMIGO NATURAL da colher

que, se não for esperta, já está MOLDADA na forma de um CARRO do URI

GELLER a essa altura do campeonato.

 

2 . O Polvo

 

O polvo teve problemas na infância: ia mal no colégio.

 

Não era nem que fosse burro, o BICHORRO: tiravam ele afu, as outras

crianças. Encrencavam, azucrinavam mesmo a MOLÚSQUICA vida do

CEFALÓPODE. Bolinha de papel na sala-de-aula, carrinho no

jogo-de-futebol (mesmo quando ele era o juiz) rasteira e cama-de-gato

no recreio. Faziam troça PESADA da vestimenta do polvo, e a mãe do

polvo, pra complicar ainda mais a vida do polvo, mandava de lanche

sanduíche de bolacha Maria com margarina pro polvo.

 

E a rapaziada se FOLGAVA no polvo.

 

Ele, pubre, nem chorar CHURIA: soltava tinta nos cantinhos e

espedaçava ao alho-e-óleo, os tentáculos, no fogo. Rapaz, isso fica

uma DILÍÇA de comer na praia, eu dizia. O polvo se ESCANDALIZAVA. Ê

povinho fresco, o OCTOPUSSO. E também de hábitos pra lá de BENTÔNICOS.

Te lembra daquela vez que a gente (e quando eu digo “a gente”, leia-se

“eu”) nem precisou coçar os bolsos pra mascar perto de VINTE ANÉIS DE

LULA à milnesa ouvindo as ondas, o rosto ardendo de sal y sol y ARENA,

um dia de semana, em Santa Catarina? Ficou todo bravo, o polvo!

ZURROU-ME na orelha tal qual CABRITA.

 

No meu resguardo de sempre, disse-lhum “bom dia, COMENDADOR” em tom

respeitoso. Houve um grande perdão. Depois, durante algum tempo, não

houve mais nada. Então a gente (e quando eu digo “a gente”, leia-se

“eu”) ouviu um CRÉQUE medonho de CRÂNEO de polvo ESTALANDO na paulada,

mas isso foi só na MENTE que no QUENTE não surtiu efeito: ainda não

tou TELECINÉTICO.

 

Me olhou, o polvo, SINCRÔNICO, como que respondendo ao som E/OU pesar

do impacto na CUCA. Pensei “merda, pensei alto demais”. Mas nein:

abriu-me o CÓRNEO bico em MOTEJANTES gargalhadas, o SAFARDANA,

enquanto de mim lançou-se em MIRA de furtar-me um AMPLEXO (mouco).

 

Cedi aos apelos do PANDILHA pensando exclusivamente na saúde de Olívia, a URSA.

 

Era CARAMÊLO, Olívia, uma cor-de-caramelo escuro, um

acobreado-quase-café, quase-chocolate. Cheirava à CINAMOMO no inverno

e CANELA no verão. Apesar de URSA, era do verão, Olívia, no que

DIVERGIA, por completo, do BISBÓRRIA do polvo. Com ele não tinha essa:

era um cara sofisticado, gostava do frio e de usar chapéus e grandes

CASACOS, queria que houvesse uma MALHA FERROVIÁRIA ativa no Brasil

para alimentar-se de lagosta enquanto aprecia a paisagem RUPESTRE e

mais clubes de jazz na sua cidade para degustar Cohibas, Montecristos

e Quai D’Orsays a qualquer hora da noite.

 

Sofria de FEBRE dos ANOS TRINTA, o polvo. Talvez fosse MALEITA, vai

saber. Não cheguei a saber porque escondeu as respostas a todas as

perguntas numa MUCUTA, o polvo. MUCUTA, manja? Hmmm. Como é que eu vou

te explicar? É uma espécie de PICUÁ. Sabe o que é PICUÁ? Hmmmm.

 

Quase como uma CAPANGA.

 

Sobre o autor:

 

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Ficcionista y não-ficcionista, gongorista, jornalista, roteirista,

consultor criativo, webshaman extraordinaire, webdesigner autodidata,

desenhista, preparador de original, tradutor, intérprete, produtor

musical, DJ, MC, demonstrador e vendedor de aparelhos de monitorização

vital, pior fotógrafo do mundo, bon-vivant e modelo, André Felipe

Pontes Czarnobai nasceu no dia 27 de maio de 1979 em Porto Alegre, Rio

Grande do Sul, Brasil.

Página na web: http://qualquer.org/bugio/

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, August 19th, 2009.