O Filho-Homem
Por Jana Lauxen.
Quando dona Mirna descobriu que estava grávida, seu Januário mandou matar um boi para comemorar.
Depois de quatro filhas, finalmente seu filho-homem haveria de chegar.
Todos na casa rezaram e fizeram promessas, implorando aos céus por um rebento machinho. Principalmente as filhas, que tinham dores de cabeça só de imaginar o desgosto do pai:
- Ele não vai suportar outra filha mulher.
- Que Deus nos ajude.
O filho-homem, por acaso ou destino, veio em um dia colorido de primavera. Chorou baixinho, se aninhou nos peitos da mãe e deixou seu Januário morrendo de orgulho e satisfação.
Foi batizado de Guilhermino, e a preferência do pai pelo guri era evidente.
Também pudera:
- O pai já preferia esse filho antes mesmo dele ser concebido.
Mas nem as filhas nem a mãe se importavam: pelo menos agora, Januário tinha um filho-homem para se distrair, e parara de encher-lhes os respectivos sacos.
Era melhor assim.
Quando Guilhermino fez quatro anos, Januário passou a lhe tratar a base de ovo.
- Ovo deixa forte, dizia.
E era ovo frito, cozido, assado, em forma de omelete, gemada, misturado no arroz, na vitamina, na salada.
- Isso não vai fazer mal para o menino? – tentava a mãe.
- Só se faz mal ser forte.
E à base de ovo, Guilhermino foi crescendo.
Porém, ao contrário do que apregoava o dedicado pai, seu filho-homem não se tornou forte – na verdade, não passava de um mirrado rapazote.
Com quinze anos não pesava mais do que 50 quilos. Tinha os braços finos, os traços do rosto mais delicados que os de suas irmãs. E ao invés de mostrar interesse pela lavoura do pai, e pelos carros, e pelas meninas – como todos os garotos da redondeza - Guilhermino se trancava no quarto para escrever partituras.
- Além de não gostar de nada, ainda por cima escreve partituras. Meu Deus do céu! O que, afinal, é uma partitura?
Lá pelas tantas, até a mãe e as irmãs começaram a estranhar o comportamento do guri. Ele era gentil e compreensível demais para ser um homem de verdade. Sem contar que tinha um verdadeiro horror de baratas, e uma exagerada adoração por novelas.
Será?
Mais do que nunca, seu Januário desembestou a empurrar diferentes variedades de ovos para o filho:
- Pai, ando meio enjoado de ovo.
- Homem que é homem não fica enjoado. Além do mais, ovo deixa a gente forte, e você anda muito fraquinho.
A vizinhança começou a comentar.
O menino do Januário já beirava os 22 anos e nem carteira de motorista tinha. Não jogava futebol, nunca colocava os pés na rua.
E o fato de escrever partituras era motivo de especulações constantes:
- Soube que ele anda metido com partituras?
- Deus me livre.
E as beatas faziam o sinal da cruz.
Januário quase não saía mais de casa.
Não suportava os olhares curiosos e zombeteiros que todos lhe lançavam.
Não era possível que seu filho fosse afeminado. Não depois de tanto ovo. Até suas filhas eram mais machos que o frágil Guilhermino.
Onde, como pai, ele falhara?
Era o que se perguntava, todos os dias, um derrotado Januário.
Num dia colorido de primavera, Guilhermino sentou na mesa para almoçar e disparou:
- Vou embora de casa.
- Pra onde? Pra quando? Com quem?
- Pra capital. Logo. Arrumei um namorado.
Todos fingiram que não haviam escutado o na-mo-ra-dO.
A mãe derrubou um copo e o pai pigarreou:
- Melhor assim.
O filho-homem de Januário fez as malas e pegou um ônibus. Disse que telefonaria, escreveria, voltaria, mas todos sabiam que ele não iria fazer nada disso.
Ninguém naquela casa nunca mais tocou no nome de seu filho-homem. E na rua, quando eram abordados por vizinhos curiosos, desconversavam e diziam que o caçula havia ido estudar fora da cidade.
- Partituras. Ele foi estudar partituras.
No bar, durante muito tempo, não se falou noutra coisa.
- Eu já conheci gente que gostasse de ovo, mas igual ao filho do Januário, nunca vi.
E todos riam debilmente, enquanto comiam uma omelete.
Preparada com dois ovos.
Jana Lauxen é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009, 136 páginas, R$25). Também colabora com a revista independente Café Espacial, de São Paulo, e o Jornal Vaia, de Porto Alegre. Publica seus textos em diferentes sites, como o Blog Cabeças Cortadas e o Beco do Crime, além de seu blogue pessoal, o www.janalauxen.blogspot.com. É e-ditora do portal de arte e cultura E-Blogue.com. Organiza, ao lado do escritor Frodo Oliveira, a coletânea de contos policiais Assassinos S/A, que já está em seu segundo volume.
Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Sunday, January 18th, 2009.
