O Mito e o Pecado Contrário

Por Letícia Palmeira.

Mitos são tantos e nós tão poucos. Garoa no vaso da flor que murchou. Somos retas em quadros de Dalí. Somos sopro. Dígitos da imensidão. Criamos mitos para os muitos tamanhos de nossas frustrações. Criamos mitos e somos fictícios e somos andaimes de construção. Balão de oxigênio, cera que sela carta. Vento que entoa a entrada da noiva, lenta e branca, lúcida em seu mito de mentir que ainda respira por si. Não respiramos porque a fina curva de nossos olhos observa outra criatura que não esta, que não a verdade, que não a verdade despida nas ruas. Calçadas povoadas por mitos. Crianças caçando mitos em seus mundos longe de casa. Mulheres trabalham por mitos. Homens desejam mitos. Calados, transfigurados, imagens reveladoras do traço que não fizemos. Criamos, mas não nos pertencem. São mitos e nós somos mudos. Não somos donos nem de nossos pecados. Pecados lavrados, penhores para o futuro e anos a mais. Mitos no mundo que fora moderno e hoje envelhece turvo de tudo que já fora descoberto. Mas há quem diga que há quem prove que dentro de nós há segredo maior. Talvez sejamos mitos e sequer saibamos. Enquanto atravessa a rua, no momento da explosão, na hora de comprar leite, na vez de entrar na contramão, na estúpida tentativa de ganhar na loteria, na leitura apavorada de um livro, sozinho, sozinha, alguém observa você, Mito. Você é o mito. Imagem transfigurada de um imaginário, de um cenário. Um foco e a perfeição de ser mito. Um mito vivo lendo, carregando pacotes ou velando a noite pela porta de uma simples casa do interior. Nunca solitário. Nunca defeituoso. Somos mitos e muitos não sabem. Cegos na terra de amores sem fim. Tentar entender mitos. Erro curto de pavio curto. Entender o mito destrói o mito, o mundo, o que é dito no escuro do quarto em que se dorme. Melhor é chorar sozinho. Você também é Mito. Você pode chorar, sofrer, agonizar. Garoa salva, pecados contrários por acontecer. E entender é palavra de dicionário antigo.

leticia.jpg

SOBRE A AUTORA
Letícia Palmeira é graduada em Letras em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino na cidade de João Pessoa. Cidade em que mora e observa ruas e engarrafamentos e pessoas que dormem em ônibus. Está sempre escrevendo e quando não, pensa em escrever algo. E assim segue em harmonia.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, December 17th, 2008.