O Outro Lado

Por Clarissa Corrêa

Acredito que as pessoas têm muitos lados. Não existe essa de pessoa totalmente boa e completamente ruim. Existe beleza na feiúra e vice-versa. Observe: alguém muito feio pode ter um nariz delicadamente belo. Em contrapartida, um indivíduo lindo pode ter orelhas de abano. Por que eu estou dizendo tudo isso? É simples: não existe santo, nem demônio.

Vejo muita gente se queixar da vida e falar “sou tão boa, ajudo vovôs a atravessar a rua, não mato formigas, sou honesta e decente”. Eu digo para você que nem sempre tenho tempo e paciência para ajudar o próximo. De vez em quando estou com pressa, outras vezes um mau humor toma conta do meu ser. Meu esporte preferido na infância era tirar as comidinhas de cima das formigas, adorava ver o desespero delas, ficavam bem tontas procurando o que não mais existia. Honestidade tenho de sobra, mas será que sou decente? Às vezes uso decotes acentuados, minha avó acha um horror e fica escandalizada.

O mais importante não é ajudar o outro, acredite em mim. Você precisa, em primeiro lugar, ajudar a si mesmo. Não me atire pedras, nem me rotule de maluca egoísta. Você entra em um avião e a comissária de bordo dá uma série de orientações. Fala dos assentos flutuantes, da máscara de oxigênio, do lugar dos banheiros. Você presta atenção em tudo, afinal, nunca se sabe o que acontece nas alturas. Aposto que você nunca parou para prestar atenção em um detalhe importantíssimo: a frase-chave das comissárias. “Em caso de despressurização da cabine, máscaras cairão automaticamente à sua frente. Coloque primeiro a sua e só então auxilie quem estiver ao seu lado”. Primeiro coloque a sua. De novo: primeiro coloque a sua. Não é egoísmo, não. Para ajudar alguém você precisa poder respirar.

Por melhor que você seja é inevitável que tenha um ou outro sentimento mesquinho, somos humanos, é natural. Ninguém é 100% certo, errado, bom, ruim. Em alguns dias eu acordo do avesso. Em outros sou um doce de pessoa. Isso faz de mim uma pessoa melhor ou pior? Lógico que não, as circunstâncias da vida é que nos fazem seguir por um ou outro caminho. Não se cobre tanto, às vezes a vida acorda nos dando um sorriso aberto e em outras ocasiões ela bate a porta na nossa cara com muita, muita força.

O meu outro lado é criança. Nasci bebê, vou morrer criança. Por mais que eu viva situações, aprenda, arrume a minha bagagem emocional, minha alma é infantil. E sempre vai ser. Enxergo a vida de uma forma leve e não entendo por qual razão as pessoas associam a palavra infantil com algo ruim. Dizem que você está tendo uma atitude infantil ou sendo infantil ou se comportando infantilmente. Por quê? Ser infantil não deveria soar pejorativo, devia ser bonito! Existe coisa mais bela do que uma criança? A criança pode ser feia e vai continuar sendo bonita. Eles têm um sorriso livre, uma força transparente e ingênua, uma sinceridade cheia de cores, um brilho que os adultos perdem. Quando nascemos, somos puros. Livres de tudo, de vivências, erros, frustrações, quedas, tropeços. Não passamos por dificuldades, não somos discriminados, não nos sentimos rejeitados. Então vamos crescendo. Vamos vivendo, levando, aprendendo que nem todo mundo sabe o que é franqueza, que existe gente lá fora que pode ser má, que você tem que ter jogo de cintura, tem que aprender a rebolar, que não pode falar tudo que pensa, que não dá pra fazer tudo o que quer. Você vai criando barreiras imaginárias, muros invisíveis, escudos, proteções. E perde a pureza, perde a inocência, entra no mundo adulto. O universo dos adultos pode (e freqüentemente é) assustador. Dá vontade de pular na cama da mãe e descansar a cabeça no ombro dela, afinal, até então era o lugar mais seguro do mundo.

Você precisa ser salvo. Para isso é necessária certa dose de firmeza e atitude enérgica, pois a primeira máscara é a sua. Só não perca a capacidade de sentir pura e simplesmente. Salve-se, mas continue sorrindo e acreditando, pois é o acreditar que nos mantém vivos e nos dá a certeza de que o próximo dia pode e será melhor.

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SOBRE A AUTORA: Clarissa Corrêa é gaúcha e quase balzaquiana. Nasceu em Rio Grande, mas mudou-se para Porto Alegre aos 6 anos. Quando era criança quis ser bailarina, atriz, médica e princesa. Adora cachorros, abraço apertado e tem pânico de lagartixas. Acredita em contos cinderelescos e finais felizes, pois acha que o importante é não perder a capacidade de sentir. Foi quase advogada e quase psicóloga, mas sabe que nasceu para fazer Arte. Além de pintar, escreve. E escreve em qualquer lugar: no chão, na areia, na calçada, no espelho, em papel. Tem um blog, um livro quase pronto, outro sendo escrito e se forma no final de 2008 no curso Formação de Escritores e Agentes Literários, pela Unisinos. Escreve contos, bilhetes, crônicas, cartazes, bulas de remédio, de tudo um pouco. Do pouco, um tudo. E do tudo, partes de nós.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, November 7th, 2008.