O PaN, a TAM, a Bunda e o Gozo

Por Reinaldo Melo.

O brasileiro é um bicho engraçado e nada como os “grandes” eventos e as “grandes” tragédias para que esta graça fique evidente. Há umas duas semanas, o país era de uma festa só. Era o cristo de sabão eleito como maravilha do mundo, ao mesmo tempo que uma maravilha chamada ação do governo contra o tráfico matou 19 pessoas (a maioria executada) no complexo do Alemão, para o qual o cristo de sabão dá as costas. Pois é, a estátua sabonete é mais importante do que a vida humana.

Depois veio o Pan e ficamos orgulhosos de ver o “povo” (povo que gasta 300, 400 até 1000 reais pra entrar no evento de abertura) vaiando aquele que detém o cargo-mor da nação. A vaia até que é válida, mas vaiaram ao mesmo tempo que patrocinavam uma das maiores roubalheiras ao olho nu de uma nação. O custo do Pan foi de 10 vezes maior o seu valor inicial. Junto ao Lula, coitadinho, estavam alguns que se locupletaram com aquela “festa”, mas o UUUUUU foi só pro barbudo. De certa, não houve justiça. Fora a má educação de vaiar um atleta profissional na hora de sua performance. Depois dizemos que somos um povo simpático, que todo o mundo gosta da gente, mas a vaia demonstra como somos malcriados, ignorantes e-sei-lá-mais-o-quê. A voz do povo é um UUUU sem noção.

Depois de um fim de semana com os berros do Galvão e de outros comemorando bronzes ( terceiro lugar é vitória?) veio uma terça e outros 200 inocentes perderam suas vidas por conta da desordem e do regresso que assolam o país. E o povo, do qual a grande maioria nunca viajou de avião, virou, de uma hora pra outra, especialista em aviação com cumplicidade da mídia. A pista, o reverso, o piloto, etc.

Mas eu não queria falar de tragédia, nem ser um cri cri chatóide. Eu quero falar de Bunda, paixão nacional. Nossas bundas são abençoadas, e privilegiadas. Somos os maiores usuários de nossas bundas. Sentamos a bunda no sofá, na cadeira, na cama, na cadeira do estádio, na poltrona do avião, na cadeira da sala de aula e, com cara de bunda, praticamos a inação, ou seja, não agimos. Povo bunda.

Vaiamos presidente no estádio, ficamos indignados em frente à TV quando há tragédias imediatas. Mas não sabemos que somos um sociedade em que 45 mil pessoas morrem assassinadas anualmente, só no Rio há quase 1500 mortos em menos de seis meses. Nas estradas morrem mais de 30 mil por ano. Na saúde pública, os médicos escolhem quem morre primeiro e quem morre depois. Na educação pública, 90% dos alunos saem da escola analfabetos funcionais.

Nossa bunda não nos permite ver estas tragédias, a bunda grudada no assento diante da TV só goza diante das maravilhas, dos bronzes, pratas e ouros de uma maioria de atletas que têm o cansaço e a vida dificulta estampada em suas faces quando estão sobre os pódios. Gozamos com a mentira, gozamos com as críticas nonsense que, ininteligivelmente, somos forçados, pela telinha, a construir.

Diante do Pan e circo que idolatramos, da Tam, que criticamos de forma tantã, e do tratamento bunda que damos àquilo que deveria ser levado a sério, a ordem do dia só poderia ser essa mesmo: Relaxar e Gozar. Sim, relaxamos e gozamos. Somos relaxados, no pior dos sentidos, e gozadores diante de nossas verdadeiras tragédias. Como diria o assessor lá: TOP-TOP na gente.

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SOBRE O AUTOR
Reinaldo Melo Nasceu no Rio Grande da Serra - SP, em 1978. Se formou em Letras pela Fundação Santo André em 2002. Publicou neste mesmo ano um livro de contos chamado O Invisível e o Pêndulo. Hoje é professor da rede pública de ensino e está mestrando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, August 17th, 2007.