O Pó de Carol.

Por Jana Lauxen. 

Eu já lia o Kevin Arnold Para Dois, blogue da escritora gaúcha Carol Bensimon, quando ela surgiu com seu livro de estréia, Pó de Parede (Não Editora, 2008, R$25).
Encomendei meu exemplar levada pela simpatia que tinha pelos escritos despretensiosos de seu blogue.
Mas antes, li e reli em muitos lugares elogios acalorados à escrita desta menina de 27 anos, e confesso que pensei: exagero.
Não deve ser tudo isso.
Não pode ser tudo isso.
Não com apenas 27 anos.
Mas agora, depois de terminar minha saga pelo pó de todas as paredes de Carol Bensimon, preciso reconhecer: é.
É tudo o que disseram, e é ainda mais.
Pó de Parede reúne apenas três contos, mas se fosse somente um, ainda assim valeria à pena.

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A Caixa, primeiro conto do livro, traz a história de Alice e da casa onde mora com os pais, cuja arquitetura (em formato de caixa) é motivo de sussurros e especulações por parte da vizinhança, careta e óbvia.
A descrição de cada cena, de cada situação e sentimento, é algo comovente.
Você enxerga o que a autora descreve, sente os cheiros, as sensações, as texturas, pode quase tocar na história como se esta fosse algo sólido e real.
E diferentemente do que acontece com muitos textos descritivos, que acabam se tornando enfadonhos e chatos, Carol consegue manter o fôlego de uma maneira surpreendente, e tornar sua narrativa leve, lírica, sustentada por generosas doses de reflexão e humor.
Sim, tem humor no Pó de Parede.
De sobra.
Um humor refinado, quase ferino, que nem mesmo aos mais desatentos passa despercebido.

Falta céu, segundo conto do , para mim é o mais melancólico – mas nem por isso menos bonito e brilhante.
Muito, muitíssimo pelo contrário.
A história mais uma vez te carrega, com afinação, pelas minúcias da vida de Lina, e suas divagações acerca da derrubada de uma floresta que circunda a cidade onde mora – e onde havia um rio, responsável por trazer um pouco de movimento e refresco para a vida sufocante e parada que todos levavam.
O fim da floresta para o início da construção de um condomínio de luxo, que busca reproduzir artificialmente tudo que havia antes ali, gratuito e natural, marca também o fim de sua adolescência para a entrada (nem sempre triunfal) na vida adulta.
Falta Céu é uma daquelas histórias que você vai lendo e, de tempos em tempos, pára para pensar no que acabou de ler.
E quando chega a última frase – a que dá sentido ao título e a toda a história – você engole em seco e repara no gosto amargo que apareceu repentinamente na sua boca; gosto de verdade doída, nem sempre fácil da gente assumir e digerir.
A nostalgia do segundo conto é arrebatada pelo humor da terceira e última história, Capitão Capivara, que entra na avenida contando a saga de Clara, aspirante a escritora em busca de emprego e matéria prima para seu primeiro livro, e Carlo Bueno, autor renomado de dezenas de Best Sellers.
Neste, a veia comicamente mordaz de Carol transborda - para nossa sorte.
Por mais de uma vez precisei explicar porque estava rindo sozinha com um livro na mão, e minha vontade era responder: eu não estou rindo sozinha, oras bolas!
E eu não estava mesmo.

A verdade é que agora eu entendo - ô se entendo - cada palavra do que foi escrito sobre Carol e seu livro, em tantos lugares e por tantas pessoas diferentes.

Pó de Parede é uma grande panela, onde a autora conseguiu misturar ingredientes pouco prováveis de uma maneira certeira e mirabolante – ingredientes estes que, para qualquer outro escritor, seriam bastante difíceis de combinar. O resultado final ficaria, muito possivelmente, ruim.

No entanto, preciso denunciar aqui a conclusão na qual cheguei: Carol Bensimon não tem 27 anos.
E nem é aquela menina sorridente, simpática e de óculos que aparece na orelha do livro.
Não pode ser.
Eu só acredito vendo.
Tenho para mim que Pó de Parede foi escrito por alguém bem velho, que já viveu em muitos lugares e em muitos tempos, ao lado de muitas pessoas que o ensinaram muitas coisas.
Não cabe - não pode caber! - tanta sabedoria e intimidade com as palavras em apenas 27 anos.
Carol nos leva de volta para lugares dentro de nós mesmos, lugares que muito provavelmente já tenhamos até esquecido (ou tentado esquecer) que existem.
Em alguns momentos você precisa parar tudo para rir; em seguida, precisa parar tudo para disfarçar uma lágrima que, teimosa, quer descer. Em outros momentos você precisa parar tudo para pensar sobre o que acabou de ler e, num outro ainda, você lê repetidas vezes a mesma frase, numa tentativa quase desesperada de capturar dali todos os seus significados e significantes – e existem muitos, mais do que podemos apreender.

O meu Pó de Parede já está todo rabiscado, marcado, sublinhado.
É o tipo de livro que não se empresta nem se doa para a biblioteca.
Porque sabemos que, mais dia menos dia, vamos folheá-lo novamente, e vamos encontrar ali coisas que, na primeira, segunda e décima terceira leitura deixamos passar.
Histórias que trazem, cada vez, uma novidade, e por isso nunca enjoam, nunca envelhecem, nunca ficam para trás.
E tirando o fato de que a autora mente sobre sua idade biológica (foi a única conclusão plausível que encontrei), Pó de Parede é um livro belo, simples e refinado, que faz você agradecer por ter tido a oportunidade de, um dia, aprender a ler.
Obrigada Carol.

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Sobre a autora:

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Jana Lauxen é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009, 136 páginas, R$28). Colunista da revista independente Café Espacial, de São Paulo, e do Jornal Vaia, de Porto Alegre. Publica seus textos em diferentes sites, especialmente em seu blogue, onde manda, desmanda e manda outra vez. É editora da revista virtual 3:AM Magazine Brasil - versão brasileira do site inglês 3:AM Magazine - e também uma das idealizadoras do projeto E-Blogue.com (in memorian). Organiza, ao lado do escritor Frodo Oliveira, a coletânea de contos policiais Assassinos S/A (Ed. Multifoco), que já está em seu segundo volume.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, September 25th, 2009.