O Simbléfaro do Sonho

Por Bernardo Gregori.

Sophia deslizou sua calcinha úmida e doce, por onde lhe foge a essência de volúpia e excesso, mesmerizando ambiciosas abelhas e coprófilos colibris; despiu-a; aproximou-se da beirada do teto do Terraço Itália e ejaculou-se rumo à eternidade que estava, há muito - sua efêmera nêmese dissolvida, nua - aderida à intransigência do asfalto.

Como tudo que é infinito é breve - seja por auto-hipnose ou por ácido tédio - a menina Sabedoria empírica, assim como Ícaro e o Palace II, estatelou-se no chão. Sem vontade, ou munição. Sem cera, penas, escombros, mera, apenas, sem ombros; o chão nem se importou, na verdade, até acomodou-a.

Eterna Sophia sofria ainda sim, sempre, super, supra, sobra, simples, sépia; daqui a alguns anos, fóssil, ou fossa após alguns letais de cujus detalhes administrativos. “Ah, o Zé foi tirar Xerox, depois tinha a Caixa, o Citi… acho que pra carimbar este aí, vai demorar; viu, moça? Melhor vir outro dia.” Moça? É a sua mãe.

bernardo.jpg

SOBRE O AUTOR
Bernardo Gregori é poeta, escritor, músico, e artista gráfico. Bernardo acredita que sua força motriz seja a criação de um estilo tão único culminando em uma nova língua. Bernardo Gregori acredita que os escritores são sagrados e mágicos condutores; os verdadeiros contadores de história são os leitores.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Sunday, May 10th, 2009.