O Último Beijo

Por Rodrigo Moreira Pinto.

O rosto na poça. Lágrimas com água de chuva. O moço de costas, corpo esparramado: braço grosso, cotovelo fraturado, com marcas vermelhas onde a roupa não cobre. Olhos entreabertos, sem viço, como a boca. Por esta escapa letras, que se dissolvem na poça: Fragmentos de suas últimas palavras.

Pouco antes, os mesmos lábios tocavam outros, com viço. O braço, agora inchado, tocava aqueles quadris que já foram seus. Com os dedos, apertava a carne. Degustava a textura almejando guardá-la. Estavam se beijando longamente, nas escadas a céu aberto, em frente do apartamento da jovem mulher. Ele estava dois degraus abaixo, para compensar a altura. Com a língua, num gesto de desespero, buscava a saliva na boca dela. Juntava. Guardava. Foi o pior beijo que deram. Estava ciente disso. Doía. Mas era melhor do que a memória de um beijo incrível. A garota, por pura bondade, permitia que continuasse tal ato, porém, o desconforto a fazia se afastar gradativamente. Ele insistia. Forçou até não poder mais. Então, inevitavelmente, descolaram os lábios.

O rapaz não sabia onde por os olhos. As paredes pinchadas do prédio, as janelas, as escadarias, seus pés, o corpo e o rosto da moça foram alvos desta viagem ocular. Neste último, ousou mirar mais de uma vez. Olhos fortes, inteligentes, distantes e cheios de piedade. O feriam cada vez que suas vistas os encontravam. Nocauteado, ainda tinha a mão sobre o quadril, esboçando movimentos estabanados.

As palavras vinham, em vão. Não passavam da garganta. Na boca só havia espaço para a saliva da garota, a qual com muita vontade ele degustava. As palavras chegavam cada vez mais rápidas. Pressionavam. Estavam se congestionando. Devido ao atordoamento, quase não percebeu quando a moça gentilmente tirou a mão dele de seu quadril. O ponto final. Ele ficou inerte. Mesmo querendo, não conseguia se dirigir à jovem. Satisfez-se com a parte dela que restava em si.

Pôs-se a descer. Três andares até o solo. Estava tudo mais ou menos tranqüilo enquanto sentia um resquício do beijo dela. As palavras continuavam vindo, com força e peso cada vez maiores. Quando seu corpo deixou de sentir o da moça, as palavras emperram de vez e bloquearam a respiração. Dez degraus até o solo. O jovem foi ficando azul, sem força, e com o peso que o sufocava, perdeu o equilíbrio e caiu.

O rosto na poça. Lagrimas com água da chuva. O moço de costas, corpo esparramado: braço grosso, cotovelo fraturado, com marcas vermelhas onde a roupa não cobre. Pela boca entreaberta, as letras que compunham o nome da moça escapam. Todas as outras vão garganta adentro, agora em estado dormente

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SOBRE O AUTOR:
Rodrigo Moreira Pinto cursa Letras na Universidade de São Paulo. Começou a escrever prosa em meados de junho de 2007. Atualmente escreve contos, crônicas, poesias e roteiros de histórias em quadrinhos.

Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Tuesday, August 19th, 2008.