O Velório

Por Tati Bernardi.

Primeiro chegou o Kiko. Pediu um café e um croissant de amêndoas. Depois a Priscila com o namorado trazendo um pratinho com tortinhas de chocolate e mousses pequenininhos. Trouxeram cigarro e água com gás também. Aí chegou a Carol com a filha e na seqüência o Luiz com o Zé. Eu fiquei a tarde toda no chá de hortelã.

Todos nós comendo, fumando, rindo, espalhando migalhas, guardanapos babados, restos de jornal. Tudo em cima do seu defunto. Era uma mesa grande para caber tanta gente mas por sorte o seu caixão não era pequeno.

Você se comportou como um morto mesmo. Não se mexeu, sorriu ou manifestou qualquer opinião. Falamos pouco de você, bem pouco. Ninguém chorou, ninguém comentou “um homem tão bom e tão jovem”. Não teve nada disso. O cardápio estava bem na sua cara e o pratinho com os doces da Priscila bem em cima das suas mãos cruzadas no peito. Quase não dava pra ver você. A não ser quando o garçom levava algum resto embora ou a filha da Carol insistia em jogar tudo da mesa no chão. Criança odeia hipocrisia.

Tal qual aqueles enterros de gente com mais de cem anos que morre dormindo, no fundo achamos óbvia e aceitável a sua partida. Era como se embaixo da gente não estivesse uma história se decompondo, um sonho interrompido de forma tão absurda quanto qualquer pessoa que deixa de existir. Eu estava de ombro de fora e saia curta, reparava com tédio e algum desejo o rapaz de muleta comprando baguete. Fui colocar mais açúcar no chá e com gosto deixei cair um pouco em seus olhos fechados pra sempre. Ah se desse tempo de te mostrar mil doçuras, quis lamentar, mas não lamentei. Era o velório mais calmo e sem lamento de toda a minha vida.

Até que o Kiko pagou a conta e foi embora a pé, pensando o que faria pra se distrair num domingo mal acabado como aquele. Depois a Priscila e o namorado correram para não perder o filme. A Carol teve que levar a filha pra tomar banho, a menina tinha chocolate até dentro da unha do pé. O Luiz me abraçou forte e também se foi, precisava passar na farmácia pra comprar alguma coisa de gripe. O Zé sumiu e nem me dei conta. O garçom levou tudo da mesa, passou um pano melado pra zerar a vida e me perguntou se eu desejava mais alguma coisa. Eu fiz que não. Eu não desejava mais absolutamente nada.

Novas pessoas e novos turnos foram levando as cadeiras, uma senhora animada levou meus guardanapos, o casal de gays levou o cardápio, a garçonete nova levou a conta com as balinhas ignoradas dentro, as horas foram levando o calor e a claridade, o silêncio foi levando qualquer pedacinho fraco de esperança, o dia foi levando tudo mesmo eu não identificando nada. Eu não me mexia. Eu não tinha lugar pra ir. Eu não tinha mais vida dentro de mim. E foi então que entendi minha calma dura e fria. Era eu naquela merda de caixão com um calço no pé direito.

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SOBRE A AUTORA
Tati Bernardi é redatora publicitária, escritora e roteirista da Globo. Escreve sobre si mesma por uma questão de originalidade: ninguém mais escreve sobre ela.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, April 10th, 2009.