Olimpo

Por Denise Ravizzoni.  

Deuses sempre foram cruéis. Os gregos e todos os outros. Zeus, o ‘big boss’ era mulherengo e manipulador. Gostava de engravidar mortais gostosas e se divertia jogando uns contra os outros seus pares de pantheon.
Mitos. Cercados de mitos. Somos mitos também? Mulheres com cabelos de serpentes, éguas canibais, labirintos habitados por criaturas estranhas, rios murmurantes e bichos de cem cabeças. Nada diferente dos dias de hoje.

Chego atrasado à consulta. Droga. Pago pelos minutos em que não estou presente também. Justo? Quem disse que o mundo é. Porque a mulher que ouve o que digo e diz estar me tratando seria exceção? E lá vou eu, com cara de culpa já na entrada, sorrisinho sem graça, pedir licença. Ela sorri sem mostrar os dentes e faz sinal para o sofá.
- Está 10 minutos atrasado. Mas hoje posso compensar no final.
Surpresa. Nem sempre tenho razão.

Hera foi uma vaca ciumenta. Suportava as traições de Zeus e depois se esforçava em punir as amantes do marido e seus filhos, como fez com Hércules. Afrodite, a bela, traiu seu marido Hefesto com o guerreiro Áries. Por sua vez, Hefesto era manco por culpa de Zeus, que certa vez o lançou ao solo porque o filho – sim, Hefesto era seu filho – tomou o partido da mãe Hera durante uma discussão.

Sento, me ajeito como posso e entendo que a sessão começou.
- Não foi intencional. O trânsito estava ruim, o ônibus ficou retido.
- Você acha que penso ter sido sua intenção?
- Não penso nada. Só estou dizendo que não foi.
- Você está justificando sem motivo, então?
- Olha, não estou justificando. Não me faz sentir como se estivesse na porra do jardim de infância. Foi só um comentário. Pessoas fazem comentários.
- Os meus comentários estão irritando você?
- Não estou irritado, só disse que cheguei atraso. Merda, tudo tem um significado oculto pra você?
- Você pensa que há mensagens ocultas, códigos, em meio às frases que usa?
- Olha, pára com isso. Estou tentando manter uma conversa, certo? É melhor começarmos logo a porcaria da sessão.
- Reações defensivas. Não estou acusando você de nada. Apenas observando a escolha do seu vocabulário.
- Vai pro inferno, você e seu maldito vocabulário – eu grito, com raiva, até quase estourarem as veias da minha garganta. E a luz se apaga.

Os Titãs chegaram antes dos deuses. Travaram uma guerra violenta e os deuses levaram a melhor. Os cretinos prenderam os Titãs nas profundezas. Prometeu foi condenado a ter o fígado comido todos os dias por uma águia porque entregou o fogo aos humanos. Chronos devorava sua prole. O inferno dos gregos tinha três andares.

Acordo com a garganta seca, os lábios quase colados. Nenhuma saliva, o sol ainda não aquece. Febre, a febre comendo meus olhos por dentro. Um gosto estranho, muito estranho. Estava na cama, mas com a roupa que usei ontem durante o dia todo. Há sangue na camisa. Na mão, ainda tenho a pesada e cara caneta de ouro que usei para perfurar por doze vezes a garganta de Aurora, a psiquiatra. Uma estocada para cada morador do Olimpo. Encerrei o tratamento. Declarei-me paciente em alta.

Poseidon segurava um tridente e governava as ondas do mar de acordo com seu humor.

Sobre a autora:denise.jpg

Denise Ravizzoni em números - Dois contos em coletâneas, um livro de contos, um romance. Milhares de livros e centenas de músicas no arquivo da memória. Muitos anos escrevendo uns tantos anúncios e roteiros para propaganda. Um filho, resultado positivo absoluto de um casamento desfeito. Número de amigos razoável para garantir um bom saldo de afeto. Decepções sem conta, o suficiente para armar a guarda sempre que necessário. Cota racionada de esperança para dias menos difíceis. Tempo de vida que não corresponde à idade da alma. Some tudo, multiplique por dois, subtraia o que precisar.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Sunday, August 30th, 2009.