Paisagem Útil

Por Fábio Vanzo.

Despertou na cama desarrumada, cheia de cobertas. Embora a cama fosse de casal, e ele dormisse só em sua costumeira metade, não havia nenhuma mulher com ele. Gostava de dormir sem roupas e bem acobertado. Durante todas as noites, sentia frio e calor se alternando, e jamais soubera o porquê. Por vezes suava e tremia os dentes ao mesmo tempo, como se estivesse com febre. Talvez fosse a febre de existir, aquela permanente segunda-feira de manhã que era viver.

Estava só. Esticou-se para apanhar uma cerveja no frigobar ao lado da cama e se recostou novamente no grande e macio travesseiro. Tomou dois longos goles e deixou a garrafa gelada repousar sobre seu peito, depois sobre sua coxa esquerda. Então bocejou, ao que se seguiu um longo suspiro.

A metafísica invadia o quarto silenciosamente, como o vento que entrava pela fresta da porta, vindo de baixo, para apanhá-lo de surpresa. Enquanto isso, sua cabeça doía um pouco e os olhos pesavam por causa dos remédios que tomava para dormir aquele sono pesado, porém perturbado e pouco repousante.

Olhou em volta: o armário, com caixas de sapatos e cartas no alto; o pôster já meio descascado dos Beatles ‘69 num jardim inglês florido; o óleo sobre tela abstrato que uma prima lhe dera de presente num distante aniversário; a prateleira com CDs, livros e DVDs, tudo muito desorganizado; um mural com fotos e bilhetes de alguém que já lhe fora a razão de viver, mas que, naquele momento, era um bom motivo para morrer.

Aquelas imagens e palavras pareciam não existir, não pertencer mais a mundo nenhum, a não ser no insistente zumbido que lhe faziam no coração, uma quase-dor que agia como uma presença de ausência, um tudo-nada de algo que, terminado, parecia nunca ter acontecido realmente.

Por que aquilo ainda ficava ali, e não guardado junto com outras tralhas inúteis no armário, ou na lata de lixo? Não sabia dizer. Talvez fosse apego desnecessário ao passado, talvez comodidade sentimental. Como alguém que dormisse por trinta anos seguidos segurando o telefone celular nas mãos, com medo de perder a ligação reconciliadora da pessoa ida que jamais voltaria.

Ou para lembrar que tinha sido feliz, mesmo que sem saber, naquele momento, olhando o mural, se uma felicidade ilusória realmente compensava, uma alegria que trouxe em uma mão um raio de sol e, na outra, nuvem de tempestade. Ramo de flores e punhal de prata. Talvez ainda tivesse esperança de que ela voltasse.

Tentou telefonar, mas ela nunca atendeu. Mandou e-mails, mas não obteve resposta. Das inúmeras cartas que enviou, não se soube nem se chegaram ao destino. Talvez o destino, das cartas e dele, fosse não chegar a nada nem a ninguém.

Um dia deixou de correr atrás dela, âncora que talvez o impedisse de seguir em frente porque já bastasse o que tinha vivido até então. Mas sentia saudade. Daquelas que rangiam como engrenagem torta. Ruidosa como pés num chão de cascalho. Farfalhava como folhas secas de outono e gotejava como sangue de um pequeno e profundo corte.

O resto era beber aquela cerveja gelada, nu, sem máscaras, sem amarras, sem companhia. Nem de ouvir música gostava mais, aprendera a ouvir o silêncio, aquilo que diziam ser justamente os músicos os mais aptos a reconhecer.

Apanhou outra garrafa, e deu um gole tão grande que lhe escorreu um pouco no queixo e no peito, onde ficaram alojadas ainda algumas gotas, por causa dos pêlos. Pensou em levantar, mas lhe doíam tanto as coisas por causa de um mau jeito que achou por bem ficar mais um pouco na cama. Afinal o que importava acordar, viver, levantar-se, fazer qualquer coisa. Preferia beber, pois aquilo fazia frente à qualquer metafísica e à monotonia de agruras do dia-a-dia, o tédio de nada de bom acontecer.

Procurou um maço de cigarros no chão, com os olhos, mas não encontrou. Era para fazer frente ao vento que já tomara todo o cômodo. Seu corpo estava frio, e era o preço de dormir com aqueles fantasmas todos e suas gélidas recordações.

Seu quarto era nos fundos, no andar de cima. Ainda deitado, olhava da sua cama a janela. Só dava para ver o céu muito azul e as grandes primaveras que se erguiam do quintal do vizinho dos fundos. Pensou: ah, daqui onde estou só vejo azul e verde, um em cada quadrado de vidro. Que bom se o mundo fosse só isso, um pouco dessas duas cores infinitas e imutáveis, e mais ninguém lá fora.

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SOBRE O AUTOR
Fábio Vanzo é jornalista, guitarrista, petista, ateísta e existencialista. Gosta do Corinthians, de cinema americano dos anos 1970 e de cerveja. Não tem paciência para teatro, filme experimental ou almoço depois das 13h.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Friday, June 5th, 2009.