Papai?

Por Jana Lisboa.

“Não ouço vozes, não tenho raiva do meu pai e eu estou bem”

Fácil ser tida como normal, exceto quando nenhuma das frases acima é verdadeira.

Ouço vozes, sim, e no imperativo: “Sente. Comporta-te. Obedece. Não chore.”

Palavras do meu pai enunciadas para mim no pretérito, quando ele tentava me corrigir porque escutava dos outros: “ela é engraçadinha e bonitinha, vai te dar trabalho”.

Queria correr, mas tinha que sentar como uma moça grande. Contar meus planos mirabolantes, mas tinha que ouvir os planos gigantescos dele pra mim. Mesmo nas minhas escolhas, tinha o que fazer o que ele mandava, porque ele era mais velho e sabia melhor. Quando a dor vinha, tinha que agüentar porque a vida é assim, dói, e você tem que aprender a não chorar, senão vão cagar na sua cabeça.

Senti raiva do meu pai, ele queria que eu fosse grande, mas ele sempre me fez sentir pequena e isso me dava ira. Aí, eu cresci e, para me sentir grande, me afastei.

Já não era mais engraçadinha, nem bonitinha, era cínica. Cínica igual a ele pra não deixar ninguém cagar na minha cabeça. Nem ele.

Aprendi a responder: “Não sento. Não me comporto. Não obedeço.”

A gente brigou feio e quase não se falava, porque nenhum queria escutar o que o outro tinha pra dizer. Aprendi a responder que está tudo bem, mesmo quando não estivesse e a não chorar. A vida é assim, dói e você tem que agüentar.

Soube que ele ia se operar e dentro de mim ficou tudo errado. A semana inteira sentei perto do telefone, pensava em ligar, e de repente, apertar 13 dígitos era a coisa mais difícil de se fazer no mundo inteiro. A segunda era articular as palavras que viriam depois que ele falasse “alô”.

O telefone tocou e foi que nem daquela vezinha que a gente foi pro supermercado e eu vi a rampa, pedi pra ir lá, ele negou, eu desobedeci, sai correndo, caí de cara, abri o queixo e chorei. Chorei muito. Chorei porque tive medo da repreensão. Chorei porque igual a ele, eu não sabia pedir desculpas. Aí, ele veio me pegou no colo e não mandou eu parar de chorar, nem eu tive que explicar nada. Ele ligou e eu caí no choro. Foi igual aquela uma vezinha que ele era grande, eu pequena e foi bom ser pequena pra poder chorar muito sem saber dizer desculpas e nem ter que explicar nada.

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SOBRE A AUTORA
Jana Lisboa, a frôr de menina: Nascida e criada em uma grande família de classe média e de influencias tradicionalmente católico-militar. Quando pequena, queria ser um cachorro. Não pode. Logo, cresceu e virou o livro guia ambulante sobre “o que a supressão de desejos metamórficos pode fazer a um ser humano”. Bachareladamente falando é publicitária. Intelectualmente, medíocre. Cronicamente, irônica. Ainda preferiria ser um cachorro.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, January 28th, 2009.