Play it again, Sam!
Por Sandra Porto
Como era mesmo seu nome? Passados tantos anos, não conseguia lembrar com tanta facilidade do detalhe importante, mesmo acordando todas as manhãs ao seu lado. Olhava à sua direita, já que gostava de dormir do lado do coração – superstição, coisas de mulher, sabe-se lá – e tinha a mesma sensação de desconforto. Sentava-se na cama com cuidado para não despertá-lo e descobria seu corpo envolvido pelos lençóis. Observava de um jeito minucioso, os detalhes que já conhecia de olhos fechados, assim aquele cheiro inconfundível! Era estranho como conseguia lembrar mais dos cheiros das coisas do que delas em si. Não dava muita importância a nomes e sobrenomes. As palavras e as coisas pareciam-lhe contraditórias. Os cheiros não. Esses eram presenças indiscutíveis. Confiava que cada coisa possuía um aroma peculiar. Sabia dos cheiros dos medos, das alegrias, dos interesses escusos, dos beijos não vistos e até dos pensamentos guardados bem no fundo das pessoas. Achava exótico pensar que pensamentos tivessem cheiros próprios. Mas que tinham, lá isso tinham. Não se enganava com eles e nem possuía mágicos poderes. Só tinha certeza de conhecê-los, um a um. As pessoas achavam estranho quando tocava no assunto. Dos cheiros. Por isso, aprendera a calar-se. A vida já era muito complicada sem tais invasões, principalmente quando permissão não havia. O cheiro dele era constante e forte. Portanto, não se surpreendia muito ao acordar e vê-lo ao seu lado jogado na cama, desprevenido, indefeso. Sentia mesmo alguma ternura por essas visões matinais, que chegavam acompanhadas de uma sensação de poder sobre o destino de alguém que se deixava dormir imprudente, num sono despreocupado. O que a perturbava era este nome fugidio. Perguntava-se às vezes se chegara a ponto de confundi-lo com os lençóis da cama e com o travesseiro que conservava faz tempo. Fosse isto, estaria tudo explicado. Nomear lençóis e travesseiros era desnecessário. Nem sempre assim fora. Recordava-se do início de suas vidas e sentia certo prazer. Na memória, flashes de “Casablanca”, repletas de languidez e assombros. A dificuldade em escolher o rumo da história. Fim mais previsível, impossível! “As times goes by” lhe soava com tamanha intensidade que até conseguia acompanhá-la devagar para não errar a letra, já que abortara suas aulas de inglês por falta de paciência. Escolheria partir, caso fora a personagem principal - mulher perdida em memórias – se houvera algum juízo naquela cabeça ondulada de cabelos cinematográficos. Não se deu conta por um bom tempo que a sua cama era real e que aquele homem não desapareceria depois que as cortinas se fechassem. Sua sessão não terminaria tão cedo. A ficção passava ao largo de sua cama.
Ele abriu seus olhos lentamente. Olhou para ela e a encontrou fixando seu rosto com a expressão fugidia. Esperou por ela. Resgatá-la agora de nada adiantaria. Foi quando ouviu, vindo daquela mulher sem opções, bem baixinho, o pedido dolorido e finalmente endereçado: “Play it again, Sam.”
SOBRE A AUTORA
Sandra Porto Mora em Niterói, já que os ventos para lá a levaram. Tem a Psicologia por profissão. As letras, por paixão. No final das contas, dá tudo no mesmo, já que se sabe alguém em des-construção permanente. E por isto, precisa escrever. Sempre. O resto, é história para boi dormir.
Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Tuesday, August 21st, 2007.
