Porque Você Não Adota Uma Criança?

Por Jana Lauxen

Certamente motivos não lhe faltam: pouco tempo, dinheiro curto, tudo muito caro, a casa que você ainda não comprou, o grande amor que você ainda não encontrou, a pouca idade, a idade avançada, as prestações do carro que faltam pagar, essa enorme burocracia, etecetara e etecetara.

Todos motivos sérios e reais.

Porém, acredite: insuficientes.

No Brasil existem, atualmente, cerca de 80 mil crianças entre zero e dezoito anos esperando a adoção.

E, além dos muros dos orfanatos, a situação que se apresenta é a seguinte:

De um lado estão as crianças que foram abandonadas pelos pais, que sofreram violências, que acabaram esquecidas, renegadas, sujeitadas a viver sozinhas e sozinhas moldar a sua personalidade.

Do outro lado, homens e mulheres frustrados, gastando rios de dinheiro em tratamentos para gravidez e choramingando pelos cantos as mazelas de não poderem conceber um filho – um herdeiro, sua prole, capaz de perpetuar seu sangue e seu sobrenome e blábláblá.

Pode-se, é claro, compreender o anseio humano de dar continuidade a sua genealogia; assim como também pode-se entender o desejo da mulher em ser mãe, e viver a experiência única e irretratável da maternidade.

O que não é fácil de se entender são as barreiras que cada um cria e os argumentos que cada um usa na hora de justificar porque não adotar uma criança ao invés de remar contra a maré em tentativas frustradas de gestação.

Uma grande amiga minha, por exemplo, não pode mais ter filhos.

Ela teve um problema grave durante sua gestação e, depois do nascimento do primeiro filho, precisou retirar o útero.

Mas isso não significou o fim da maternidade para ela.

Tanto que, quando quis seu segundo filho, ele veio.

Não pelos métodos tradicionais: ela não o concebeu, nem o carregou em seu ventre, mas nos dias das mães sempre recebe dois cartões, e todas as noites ganha dois beijos lhe desejando boa noite.

Para ela, entre o Gabriel e a Manuela não existe diferença nenhuma.

Ao contrário daquilo que muitos falam por aí, ela não ama mais seu filho de sangue do que sua filha de coração; nem teme que ela possa se desvirtuar ou desenvolver alguma doença mais do que teme que ele possa. São duas pessoas independentes que ela cria e ama, exatamente da mesma maneira.

Imaginem se as famílias, ao invés de ter dois, três, quatro ou cinco filhos tivesse somente um –para viver as tais experiências consideradas por todos tão importantes e indispensáveis – e optasse por adotar o segundo, o terceiro, o quarto?

O problema do abandono estaria resolvido no Brasil.

E enquanto você acredita que este problema não tem absolutamente nada a ver com a sua vida, espere estas crianças que hoje estão abandonadas, crescendo e vivendo sozinhas, saírem para o mundo: a maioria sem rumo, sem auto-estima, sem nada a oferecer.

Um dia, uma destas crianças pode cruzar com seu filho pela rua – aquele em quem você tanto investiu para que nascesse, em tratamentos demorados, caros e cansativos – e resolver roubá-lo para lhe levar um par de tênis ou um celular. Talvez seu filho seja agredido, talvez seja assassinado durante um assalto bobo.

Porque não podemos mais sustentar este nosso individualismo caduco e egoísta; não podemos mais pensar na felicidade da nossa família e dos nossos amigos se não pensarmos na felicidade coletiva, no bem estar de todos os outros.

Não podemos mais proteger nossos filhos se não protegermos todas as crianças.

O que você pode fazer quanto a isso?

Adote.

Esta criança vai precisar de roupas, de comida, de estudos, vai precisar do seu tempo e de outras coisas que são caras, e raras, e escassas.

Mas se você puder lhe dar atenção e carinho, se puder protegê-la, se puder abraçá-la quando ela sentir medo, e cuidar dela quando pegar um resfriado ou ralar o joelho, estará ajudando a salvar muitas vidas.

Não só a desta criança; mas a sua, a minha, e a de todos nós.

Você pode não ser mais tão jovem, ou ainda não ser maduro o suficiente; pode não ter muito dinheiro, nem a casa própria; pode não ter encontrado o grande amor da sua vida, nem ter tempo sobrando, mas a verdade é que se você não adota é porque você não quer.

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SOBRE A AUTORA:Jana Lauxen tem 23 anos, um diploma, alguns vícios, um gato cego e sérias pretensões. Publicou em coletâneas, pela Editora Andross, pela Editora Revolução Cultural, pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores, pela Academia Poçoense de Letras e Artes e pela Taba Cultural Editora. Já trabalhou na Agência Experimental de Publicidade e Propaganda da Universidade de Passo Fundo – lugar onde aprendeu a odiar publicidade – e atualmente vive em um condomínio doido, com seu comparsa Cavanhas e sua abóbora de pelúcia, e está determinada a se jogar no mundo da Não-Literatura.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Thursday, November 20th, 2008.