Primavera Nos Dentes
Por Fábio Vanzo.
Oi, pode entrar. Dá beijo. Beijo. Sabe a novidade? Finalmente despertei hoje para a eternidade. Sem vida, sem peso, sem coisa alguma. Dá as mãos pra mim pela última vez? Acho que vou sentir falta disso quando estiver debaixo da terra. Tem coisas pras quais a gente não dá valor, mas o suor das tuas mãos nas minhas, ah, eu quero levar comigo, sentir bom bastante carinho. Você sabe que não estou partindo por rancor, covardia, nem nada. É só cansaço.
A morte vem como uma presença enevoada, deixa tudo meio turvo. Dá uma fraqueza, uma leveza, parece que ela vem e nos pega no colo… ela que nos trouxe e vem nos buscar, né, fechando o ciclo. Ela chega assim, nos invade, e fim. Só vem buscar o que sempre foi dela. A gente morre todos os dias, deixando pedaços encharcados de mágoa e dor por aí, machucando os outros e sendo machucado por eles, como se estivéssemos nos debatendo para sair de um lugar sem saída, todos ao mesmo tempo. ‘Tá todo mundo perdido, você entende? Ninguém tem culpa, é só o problema de ser atirado aqui sem manual de instruções. Você vai tateando num mundo de cegos que nem você, de burros, estúpidos, fracos, chorões, mesquinhos, e, quando aprende a viver, já é hora de morrer. Coisa de filho-da-puta, não acha? Brincadeira de mau gosto, total.
Ah, como eu decidi? Simplesmente acordei hoje, como acordo todos os dias, coloquei a discografia da Nara Leão pra tocar no som – se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, podiam colocar isso como meu epitáfio, anota e me faz esse favor? – comecei a beber, fumar, a televisão sem som num canal internacional de notícias – é engraçado ficar imaginando o que está acontecendo em línguas que desconheço – e decidi. É, simples assim, ora. Não é emprego, nem casamento, essas coisas que precisam de cerimônia. Não tenho contrato assinado com Deus.
Como é? Ah, nada demais. Não passa filme nenhum diante da cabeça, sabe? Vai passar uma bala, né. Ah, fiz você rir. Sim, eu rio de tudo mesmo, não tem como levar isto aqui a sério. Quando decidi morrer foi porque percebi que estava dando importância demais à minha vida, quando é algo pra simplesmente ser desprezado. Vida? Cada um tem pelo menos uma, é uma coisa tão comum, tão frágil. Em algum lugar devem ser vendidas vidas novinhas em folhas, ou até seminovas. Quem sabe eu não compro uma vida de segunda mão e volto pra te dizer como é lá no Hades?
Mas, como eu dizia, essa coisa de passar tudo diante das vistas é coisa de cinema. Não dá tempo, fica tudo meio embaralhado nos pensamentos, fica difícil se fixar em algo. Mas não é ruim não, viu? Dá um formigamento gostoso, uma ausência; já ficou siderado assim? É um alumbramento, a alma desrespeitando os limites do corpo de deixando a pele com uma sensação fluida. A vida pesa tanto durante a existência, é sempre tão difícil de carregar, e, quando ela termina, veja só, fica leve, leve, de ser levada num sopro de vento.
Vou lá ser feliz no mundo das idéias, com as mônadas, com todas as essências. Afastadas as angústias, voltarei a ser teoria, assim que nem um deus, um anjo, uma coisa assim bonita, etérea. Já te disse que adoro essa palavra? Ela é doce, parece que escapa, assim como seu significado, por entre os vãos dos dentes. Tem palavras que são assim mesmo, transcendem. E eu vou voltar a ser palavra, letra-e-língua-morta, signo puro, sabor indescritível.
A morte tem gosto, percebo agora. Gruda no céu da boca que nem doce-de-leite, e também deixa os dedos untados. É como se uma gelatina, isso, o Universo inteiro fosse uma gelatina enorme, pegajosa, trepidante, e escorresse, devido ao calor, por cima de si mesma, como uma estrela que não se agüenta com a própria gravidade
É tudo tão prosaico que dá vontade de rir. Ou então é o conhaque que bebi. A gente passa a vida inteira entre fugir da morte ou de ter um fim grandioso, épico, planejado. E quando chega o ponto final da curta sentença que é a vida, a gente vê que o conteúdo não tem nada demais, é como mais um parágrafo qualquer num grande livro entre outros grandes livros no meio de uma biblioteca imensa que quase ninguém visita.
Não existe nada mais triste que a tristeza. E eu cansei de ver meu coração em pedacinhos, rolando escada abaixo até a rua que sempre pensei que fosse minha. Vai ser gostoso não precisar mais existir, não ter essa obrigação de ser feliz a todo custo. Está me entendendo? Olhe pra mim enquanto eu falo. E sem lágrimas, por favor. A gente chora em filme, em novela, em atropelamento de filhote de gato; comigo não.
Ah, estes cortes? São caminhos para o inferno, anotações de subsolo, pr’eu saber todas as veredas caso me perca no abismo. São nomes secretos da minha deusa ao revés, alma partida para o infinito. São estigmas da minha redenção. A gente agüenta toda dor, menos a última, costumo dizer. Então essa última precisa ser planejada, cerimoniosa, concorrida. Afinal tudo é dor. E é bom se ver livre de tanto sentimento ruim, tanto rancor, tanto ódio mal censurado. Adormecer sem a preocupação de despertar no dia seguinte. Por que me abandonaste, por que me abandonaste?
Estou ansioso. Vontade de descansar. Olhos fechando, abraço a escuridão. Promete que me leva flores? Queria primaveras perfumadas no meu enterro. Mande colocarem algumas na minha boca, porque vai ficar meio estragada por causa do disparo. Espingarda é foda, faz um estrago danado. Desculpe-me pelo sangue, ‘tá? Foi bom te conhecer. Te amo!
SOBRE O AUTOR
Fábio Vanzo é jornalista, guitarrista, petista, ateísta e existencialista. Gosta do Corinthians, de cinema americano dos anos 1970 e de cerveja. Não tem paciência para teatro, filme experimental ou almoço depois das 13h.
Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Sunday, December 28th, 2008.
