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Rádio Saara

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foto de Matias Maxx

Num centro do Rio que mantém ares de Oriente Médio, a região do Saara (Sociedade dos Amigos e Adjacências da Rua da Alfândega) garante seu clima peculiar de feira de rua graças à freqüência diária de 150 mil pessoas à 1200 estabelecimentos, restaurantes e lojas que vendem toda sorte possível de bugigangas, e também à trilha sonora proposta pela inacreditável Rádio Saara. Longe de ser mais uma rádio comunitária, a programação diária deste sistema de som que abrange uma de malha vinte e tantas ruas (graças a auto-falantes pendurados nos postes) é composta por uma grade publicitária na qual o texto popular e debochado de seus spots conquista a atenção dos ouvintes por bem ou por mal.

“Estamos nas ruas da Saara fazendo uma reportagem com a seguinte pesquisa: qual é o melhor restaurante do centro do Rio? / Ah! dona repórti (sic), é o Macedônia Grill. No Macedônia Grill tem um super ar-condicionado! / Minha Nossa Senhora, é o Presidente! Vamos dar um furo! O Lula está na Saara! Presidente, presidente: qual é o melhor restaurante do centro do Rio? / (voz imitando o Lula) É o Macedônia Grill! Lá tem uma gastronômica, ou, desculpe, uma nutricionista / Lula, e o Mensalão? / O melão de lá é uma delícia, tchau! / Restaurante Macedônia Grill, agora, sem balança!”

Por um valor que varia entre 800 e 1000 reais, os lojistas da região encomendam à própria rádio uma peça publicitária que dura cerca de um minuto, e através de mensagens que marcam pelo humor (ou mau gosto), anunciam seus pontos – citados sempre com a rua e o número da loja, que é para o freguês saber como chegar lá.

Do outro lado do auto-falante, o diretor de programação Beto Salóes convoca desde o office-boy à recepcionista da rádio para gravarem as vozes com seus diálogos e jingles que causam risos e acessos de ira nos fregueses que passam pelas ruas. Para Renato Alves, coordenador de programação da rádio,”o grande segredo é o número de vozes, pois não dá pra imaginar mais de oito horas de programação com a mesma voz”. Como se trata de uma rádio cujos anunciantes formam uma comunidade composta em sua maioria por árabes e judeus que já passaram dos 50, trotes ao vivo interrompendo a programação, dando conta da morte de um ou outro lojista são recorrentes.

No Orkut, comunidades à favor e contra a inventividade da Rádio - que existe desde os anos 70, mas que completa 10 anos com esta programação inovadora – vivem momentos acalorados entre boatos sobre seus funcionários e relatos ressentidos da desafinada que entoa um jingle de uma casa de cristais. Na vida real, a rádio já foi usada como referência para uma novela da TV Globo (Cobras e Lagartos) e angaria mais sucesso ainda com a segunda edição do concurso Garota da Laje – que dará às gatinhas que exibirem a “melhor beleza comunitária”, um carro usado, uma piscina de fibra de vidro, uma laje pré-moldada e um destaque no Sabadáço da TV Bandeirantes, com o Leão.

Patricia Rocha.

Publicado no 3:AM Magazine: Sunday, June 10th, 2007.

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