Replicante
Por Denise Ravizzoni.
Pegou o pulso meio frouxo, e observou bem. Impressionante! Mesmo depois de umas três horas de brincadeiras com algemas, a pele estava intacta. Nenhuma marca, nenhuma laceração. Bom, muito bom! Seguiu o curso daquele braço com os dedos, percorrendo uma veia fina. Continuou pelo ombro e desceu até encontrar o seio direito. Apertou o bico com força (vontade súbita, forte, de arrancá-lo com as unhas, mas não faria – não ainda).
- Vamos lá, querida. Acorda! Tenho uma surpresa pra você.
Como resposta, só o movimento em arco do braço abandonado à própria queda quando as algemas foram abertas. Tudo bem, ele gostava assim. Nenhum som. Ela ali, presente, mas muito quieta. Os gritos, palavras rudes, elogios e incentivos ficariam por conta dele.
- Não quer se mexer, sua vadia? Ok. Eu te levo.
Curvou o corpo um pouco em direção ao chão, onde ela estava deitada. Ajeitou-a sobre o ombro direito e caminhou sem esforço em direção à escada. Era forte e vigoroso, subir com sua carga foi mais fácil do que esperava. O cabelo da moça dobrada sobre ele como um grande saco de ossos varria o chão de leve, fazendo um som gostoso, agradável. Ele cantarolou.
Sim, estava feliz. Finalmente feliz. Não perguntava mais ‘posso?’, de um jeito tímido, com medo de que percebessem a perversão pulsando na voz. Simplesmente fazia o que desejava. O consentimento fora dado para tudo, uma única vez. Ela era uma espécie de propriedade, a tortura, se houvesse, era consentida, a vítima, caso fosse, era permissiva. Era dele. Podia tudo. Jogou seu belo saco de ossos sobre a cama, barriga para baixo, rosto enfiado no colchão. Sem preliminares, sem explicações, pedidos, palavras. Não era necessário. Ali mesmo começou a fazer o que queria. Introduziu primeiro os dedos no buraco apertado. Depois, com força, colocou o pau inúmeras vezes, até sentir o gozo chegando. Então, parou. Por um momento ficou escutando o som. O som do silêncio. Nada de gritos, pedidos desesperados, protestos. Só o prazer do consentimento. Deliciosa sensação, o poder. E, se era tão bom, não havia motivo para parar.
Sentiu vontade de mijar. Antes, porém, abriu a torneira da banheira. O som e o vapor ampliavam a vontade, segurou a urina até parecer explodir. Aí soltou um jato forte acompanhado do gemido característico de quem consegue expulsar o xixi depois de muito tempo, como se o liquido viesse acompanhado de pequenos pregos com pontas afiadas. Voltou ao quarto e colocou sua parceira em pé, fazendo-a dar curtos passos trôpegos em direção ao banheiro. Ela era leve e tinha a pele elástica, a resistência ideal que se espera ao tocar uma mulher jovem. A água jorrava tépida e já estava pela metade. Deito-a com cuidado na banheira, ajeitando os cabelos num arranjo que considerou bonito. Fotografou a cena e conferiu o resultado. Ficou legal. Na imagem digital os olhos dela pareciam vidrados, fitando o nada, mas não era um olhar de angústia. Só um olhar vazio.
Tirou a camisa e deitou-se sobre ela na água morna. O pescoço fino e longo cabia perfeitamente entre os dedos fechados de suas mãos. Enquanto fodia com força, apertava aquele pescocinho delicado mais, mais e mais. Ela não se debateu, nem protestou. Ele só teve por resistência a barreira da carne e um leve agitar de braços na água. Gozou profunda e lentamente, urrando, uivando, gritando, segurando a cabeça da cadela sob a água morna.
Um espasmo violento o fez cair pesadamente sobre ela. Ficou assim por longos, maravilhosos minutos. Sem bolhas de ar na água, nada de batimentos acelerados, de pernas batendo em confusão. Depois, saiu da banheira para tirar o jeans pesado, encharcado, as botas e as meias.
Ah, Dolly! Sua macia, dócil Dolly! Ali, parada, imóvel na banheira, com aqueles olhos azuis vazios, fixos, olhando o eterno nada. A boneca de látex de última geração mais perfeita, a mais gostosa do catálogo.
SOBRE A AUTORA: Denise Ravizzoni em Números - Dois contos em coletâneas, um livro de contos, um romance. Milhares de livros e centenas de músicas no arquivo da memória. Muitos anos escrevendo uns tantos anúncios e roteiros para propaganda. Um filho, resultado positivo absoluto de um casamento desfeito. Número de amigos razoável para garantir um bom saldo de afeto. Decepções sem conta, o suficiente para armar a guarda sempre que necessário. Cota racionada de esperança para dias menos difíceis. Tempo de vida que não corresponde à idade da alma. Some tudo, multiplique por dois, subtraia o que precisar.
Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Monday, March 16th, 2009.
