Rui Silvares

Por Beto Canales.

Arte é inesgotável. É também um assunto sem fim, polêmico, amplo e, para alguns, vago. Planejando fazer uma entrevista sobre, estava ciente do risco de ter respostas curtas e imprecisas, algumas divagações ou a pura e simples exposição de gosto. Quando convidei Rui Silvares, porém, percebi que seria diferente, por suas posições fortes e claras mas, quando chegaram os primeiros textos, notei não tratarem-se apenas respostas e sim verdadeiras aulas. E não é para menos: Silvares, nascido em Viseu, Portugal, em 1963 é Licenciado em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa em Dezembro de 1991.

Professor do Ensino Secundário em diversas escolas do distrito de Setúbal desde 1986, atualmente exerce a docência na Escola Secundária Anselmo de Andrade em Almada, onde lecciona as disciplinas de Oficinas de Arte, Arte e Comunicação e História da Cultura e da Arte.

Desenvolve atividades públicas relacionadas com as Artes Plásticas desde 1986 até à atualidade, participando de inúmeras exposições coletivas e individuais de pintura, desenho, gravura, ilustração e instalação.Trabalhou também nos campos do story-board para cinema e televisão, da banda desenhada, design de comunicação, ilustração e produção de fanzines.

Desenvolve atividade na produção de espetáculos teatrais onde trabalha no campo da cenografia e concepção de figurinos bem como na autoria de textos originais e, além disso tudo, ainda escreve no blog 100cabeças quase que diariamente. Poderíamos estender muito ainda esta apresentação, mas deixemos os textos que vêm a seguir fazerem isso:

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Rui Silvares e seu “amigo” Pablo Ruiz Picasso” (Madri 2004)

3:AM: Como vês a arte contemporânea?

RS: Vejo-a como uma espécie de mar de umbigos, uma planície de barrigas voltadas ao ar com os umbigos ao vento, tantos umbigos que muita gente, pretendendo contemplar o seu, acaba a olhar para o umbigo do vizinho sem notar grande diferença.

A arte contemporânea debruça-se quase sempre sobre o indivíduo-criador, o artista, e a sua relação com o objecto artístico. O próprio objecto artístico discursa sobre si próprio, reflecte sobre os seus limites e a comunicação com o povão fica difícil. O discurso artístico hermetiza-se e deixa o espectador do lado de fora, isso não me parece muito saudável.

Há narrativas comuns (meta-narrativas) que durante muito tempo e em muitas situações, ajudaram a organizar o discurso artístico de um modo inteligível para a maioria. Quando eu mostro um homem pendurado numa cruz, em princípio, estou a representar o Cristo. A Sua história (ainda) é conhecida por milhões de pessoas. O meu público potencial é imenso. Quando eu pinto uma tela de negro e faço no centro uma pintinha vermelha poucos irão atingir o que pretendo comunicar ou vão ficar pela relação óbvia entre essa tela e um homem fumando um cigarro escondido na noite. Por muito que eu argumente sobre a profundidade da mensagem, que a pintinha é o amor e o fundo da tela a angústia da sua ausência, as pessoas irão abanar a cabeça, dizendo que sim, que é isso tudo e um cigarrinho a brilhar no fundo de coisa nenhuma.

Concluindo, parece-me que a arte contemporânea anda perdida numa floresta de equívocos provocados pela crescente individualização das narrativas que representa. A arte está a afastar-se do povão ignorando-o demaisadas vezes e, na minha óptica, arte sem povão é mais masturbação. Claro que encontro situações de excepção, mas isso é outra cena.

3:AM: Afirmas que a arte está se afastando do povo e, claro, isto empobrece os dois. Obras como um tubarão partido ao meio, caveiras cravejadas de diamantes ou ainda ovelhas dissecadas (Damien Hirst) são vendidas por centenas de milhares de dólares. Fatos como este aumentam a distância entre povo/arte? Ou o inusitado de tudo isso produz algum efeito positivo? Não há, também, uma certa contradição falarmos em arte e povo e nas verdadeiras fortunas que circulam nos leilões de obras como as referidas acima?

RS: Lá bem no fundo, a arte foi sempre uma coisa de elites, negócio dos poderosos. Pelo menos aquela Arte, com “A” grande, que vem nos livros de história mais coloridos. Os artistas produziam em função de encomendas, fosse para os faraós do Antigo Egipto ou para os Papas da Renascença italiana. O povo era parte estranha ao processo, fazia o papel de basbaque, olhando sem compreender, na maioria das vezes.

Grandes obras permaneceram quase secretas nos gabinetes privados de Príncipes ou mercadores endinheirados até que, por volta do século XVIII, começaram a surgir as primeiras colecções públicas, abertas aos olhares reverentes do tal povo. Estou a referir-me à arte europeia e às colecções dos reis de França, por exemplo. Era sempre algo que envolvia grandes somas e enormes vaidades.

A arte sacra, por outro lado, pretendia esmagar ou comover até às lágrimas aqueles que frequentavam as igrejas. E conseguia-o a troco de muito ouro.

No final do século XIX e início do século XX dá-se o grande “boom”, a libertação dos artistas, a busca de linguagens plásticas individuais. As democracias capitalistas davam os primeiros passos e, como tal, a arte também se democratizava. E passava a ser objecto de especulação comercial. Viveu-se o tempo das Vanguardas artísticas. Surgiram personagens arrebatadoras como Picasso, Duchamp ou Max Ernst, multiplicaram-se publicações especializadas e o interesse pelo fenómeno criativo disparou em todos os sentidos. Mas continuavam a ser os mais ricos quem acabava por influenciar os artistas graças à procura de obras de arte. O povo gostava de ver e tinha de contentar-se com isso na maior parte das vezes. Não podia (nem pode) aspirar à posse dos objectos.

A arte contemporânea vai crescendo neste sistema. Hirst é “apenas” a estrela mais brilhante da actual constelação e brilha mais porque é ele quem consegue colocar obras no mercado aos preços mais astronómicos. Parece-me que os milhares e milhões de dólares que se pagam pelas ditas obras, contribuem para fazer crescer a curiosidade popular. O povo adora o dinheiro e se uma obra vale tanto passa a ser, também ela, adorável. Repara no interesse que as revistas de fofoca provocam entre as camadas menos informadas da população. As aventuras e desventuras dos ricaços fazem as delícias do pessoal! Porque não há-de ser assim também com os artistas? Quem se interessa pelo trabalho de um Zé-Ninguém que nunca vendeu uma pintura por mais de meia-dúzia de dólares? Se um tubarão cortado ao meio e conservado num tanque com formol vale milhões, então é porque é uma obra de arte. Sem sombra para dúvidas. O dinheiro justifica e categoriza tudo, no mundo actual. O povo é sensível a isso. Mesmo que não consiga compreender ao certo o conteúdo, a mensagem, do objecto artístico, compreende os números. A arte contemporânea também se caracteriza por isso, pelo valor monetário das obras. Até se estabelecem “rankings” que esclarecem sobre a posição que os artistas ocupam no panorama da arte contemporânea! Hirst é o maior e Jeff Koons vem imediatamente a seguir. É lindo!

Sinceramente não vejo nisto qualquer contradição, vejo o mundo que me rodeia.

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Em que é que ficamos?

3:AM: Acreditas que um movimento como o Stuckista (Billy Childish) tenha sido em vão, desnecessário ou irrelevante? Ou há espaço, mercado e principalmente função para todos?

RS: Manifestações criativas nunca são em vão. Um artista não tem de procurar obrigatoriamente reconhecimento ou um lugar ao sol na imensa praia (de umbigos) que é o mercado da arte contemporânea. Personagens mais ou menos obscuras, como Billy Childish ou outros do género, produzem manifestações artísticas por impulso, de forma genuína. Não creio que vão desistir caso o mercado não os reconheça. Não sei se vender e enriquecer é assim tão importante. O mundo virtual é imenso e tem espaço para todos. A função de cada um é mais ou menos relevante conforme a convicção que se coloca no trabalho produzido. Vivemos tempos interessantes e criar é uma terapia eficaz para muito boa gente.

3:AM: O mundo virtual é importante para o artista somente para divulgação ou pode ser um auxílio em outras áreas, como vendas, por exemplo? Ele ajuda ou atrapalha as exposições?

RS: O mundo virtual tornou-se um excelente veículo de divulgação. Tal como Billy Childish dificilmente chegaria onde chega sem a NET, as obras muitos artistas jamais seriam reconhecidas se não estivessem disponíveis no mundo virtual. Muitos tentam montar galeria online, colocando os trabalhos à venda. Não possuo dados concretos que me permitam chegar a conclusões sobre o papel que a NET vai desempenhando na vida dos artistas contemporâneos mas parece-me evidente que ela ajuda mais do que atrapalha, seja qual for o ângulo pelo qual olhemos o fenómeno. Todos os museus, galerias e leiloeiras têm o seu sítio na NET, talvez um dia destes as vendas online de objectos de arte seja o principal modo de fazer este tipo de negócio.

3:AM: Pode-se afirmar que a arte contemporânea atravessa uma fase boa, apesar da crise internacional? Ou o ciclo está próximo ao fim com o surgimento de uma nova “escola”? Quais os artistas que se destacam? Quais são teus preferidos?

RS: O extraordinário mundo da arte contemporânea é como uma floresta disfarçada de universo. Todos os dias nascem novas árvores na orla da floresta e ela encontra-se em expansão constante e continuada. E cresce, cresce, sem que se lhe vislumbre possibilidade de limite. Nós estamos dentro da floresta. Eu sou uma pequena árvore dessa floresta. De dentro para fora, a minha perspectiva do fenómeno é localizada e parcial. O facto de assistirmos em tempo real ao crescimento da floresta, do universo, da arte contemporânea, limita a nossa capacidade de análise do fenómeno. Falta-nos distância que nos permita uma visão mais afastada e menos parcial.

Rerlativamente à arte contemporânea sou extraordinariamente preconceituoso e pouco conhecedor. Tenho os meus heróis e aqueles que desprezo. Mas, tanto a minha admiração, quanto o meu desprezo, são reflexos daquilo que imagino acerca de mim próprio. Procuro-me nas obras alheias. Inspiro-me nelas ou simplesmente recuso-as. Saber o que não queremos ajuda-nos a escolher aquilo que desejamos.

Tenho a sensação de que não se pode falar de um “escola”. Talvez haja alguma preferência por certos meios de expressão. As novas tecnologias tendem a fascinar os mais jovens. Mas a pintura regressa constantemente e as grandes narrativas aparecem de vez em quando. Tenho uma admiração especial por Banksy, o artista de rua, e sinto um certo desprezo por Jef Koons pelo seu incomensurável mau gosto. Amo Paula Rego, uma grande pintora. Não gosto de Damien Hirst, um rapaz habilidoso mas pouco mais do que isso. No fundo sou um tanto conservador nas minhas preferências.

3:AM: Qual o período ou escola com que mais te identifica e por quê? Entre todos, quais teus artistas preferidos?

RS: Meu livro de História da Arte favorito da autoria de E.H.Gombrich diz, logo na primeira página, que Arte, com “A” grande é algo que não existe, que é uma invenção académica, destinada a controlar a narrativa dos fenómenos artísticos. O que existe (e sempre existiu) foram artistas. Mulheres e homens comuns que, por conjugação de diversos factores que têm sempre a ver com o tempo e o espaço geográfico em que viveram, se dedicaram a actividades criativas que, hoje, consideramos como Arte (o “a” pode ser minúsculo, ninguém se vai ofender). O discurso de Gombrich é fascinante. Mais à frente explica que a divisão em períodos e escolas é outra necessidade da historiografia, ciência estabelecida no século das Luzes, o século XVIII, numa época em que o estudo do passado é utilizado para moldar o presente. Herdámos os rótulos que então foram colados às obras e aos artistas e fomos actualizando a História da Arte.

Na minha qualidade de discípulo convicto das ideias de Gombrich, aprendi a admirar os artistas separadamente das “escolas”. Assim, não tenho um período preferido, nem admiro uma “escola” em particular, mas tenho um respeito profundo e admiração ilimitada por certas personagens dessa História que costumo contar aos meus alunos.

Cito apenas alguns dos quais conheço os nomes, uma vez que os deslumbrantes pintores pré-históricos são mágicos anónimos e os egípcios nem sempre deixaram obra assinada, tal como os escultores do período Românico.

Segue uma listinha que poderia ser mais vasta: Giotto, Bosch, Jan van Eyck, Roger van der Weiden, Watteau, Goya, Max Ernst, Picasso, Paula Rego e… chega. A lista poderia ser mais maior mas assim também está bem.

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Peacemakers

3:AM: Sobre arte, uma das discussões mais antigas - possivelmente surgida entre aristotélicos e platônicos na Grécia Antiga - seja sobre ser ou não funcional. O que pensa a respeito? A arte deve ou pode ter função?

RS: “A forma segue a função“. Esta frase é atribuída a Louis Sullivan, um arquitecto da designada Escola de Chicago, que projectou arranha-céus e desenvolveu uma arquitectura funcionalista. É uma bela frase que propõe uma ideia muito forte. Podemos observar os objectos artísticos à luz dessa perspectiva. Afinal a forma e a função sempre andaram ligadas. As pinturas pré-históricas decerto tinham uma função determinada. Olhadas com olhos contemporâneos imaginamos que a sua função fosse mágica. A arte dos antigos egípcios pretendia criar um universo propício à imortalidade da alma, seguindo regras específicas muito rígidas. A arte sempre teve objectivos pré-determinados que podemos considerar como sendo funcionais. A arte sempre respondeu aos desejos dos seus patrocinadores e às suas necessidades de comunicação. É preciso chegar à época contemporânea para encontrarmos objectos artísticos que, aparentemente, não são criados com uma função específica. A chamada “arte pela arte” ou a “arte sem objecto”, serão exemplos dessa ausência de funcionalidade. Mas, em última análise, essa atitude artística tem o objectivo de reflectir sobre os processos criativos ou sobre os limites da sua própria funcionalidade, tenta encontrar fronteiras para poder ignorá-las. Poderemos dizer que, mesmo essa arte, tantas vezes abstracta, tem uma função; a função de proporcionar espaços de reflexão.Penso que a arte é, sempre foi, funcional. Toda ela. É uma opinião discutível mas a discussão é uma actividade apaixonante, ainda mais quando o tema é a arte.

3:AM: Se colocarmos uma pessoa com potencial intelectual médio durante 6 anos em uma universidade, muito provavelmente teremos um médico ou um engenheiro com desempenho satisfatório. Se fizermos o mesmo com uma pessoa para que ela se torne um jogador de futebol, talvez o resultado não seja tão positivo. Apesar da comparação esdrúxula, ela serve para pautar a pergunta: é possível “formar” um artista?

RS: É possível, sim. Tal como nos outros exemplos que citas, não há garantias de qualidade no “produto” obtido, mas é possível formar artistas. Na minha actividade profissional, como professor de artes, encontro com frequência jovens que estão apenas adormecidos no mundo da arte. A minha função é tentar acordá-los e servir-lhes o pequeno-almoço. Depois… bom, depois, o resto já não é comigo. É com eles e com o tipo de relação que estabelecem com o mundo que os rodeia. Acredito firmemente na existência de um artista adormecido dentro de cada um de nós. Mais, acredito ainda que a arte serve para fazer de nós melhores pessoas. É uma convicção com qualquer coisa de religioso que me faz pensar que a arte pode substituir a religião no caminho em direcção ao paraíso, um paraíso social e humanista. O ensino artístico pode contribuir para um mundo melhor. Agora que falo nisto até parece que sou uma espécie de sacerdote. Ahahah, a arte é grande e Picasso um seu profeta!

catalogtriptic.jpgTríptico da Salvação

3:AM: Aproveitando quase tudo do que foi dito na resposta acima, quais as principais razões para ser ou tornar-se um artista?

RS: Isso eu já não sei, não há ciência que possa medir a coisa nem regra onde encaixar o fenómeno. Há artistas por vocação, outros por convicção. Uns fazem arte como quem respira, outros suam para poderem fazê-la. Há os que têm uma sensibilidade de trazer lágrima ao olho a todo o minuto que passa, outros não sentem nada mas têm mão segura e inteligência aguçada. Há artistas de todas as sortes e arte para todos os gostos. Algumas até para os maiores desgostos! É um mistério tão grande como a existência. Estou em crer que, apesar de tudo e na maior parte dos casos, a principal razão que nos leva a ser artistas vem do coração e, como tal, permanecerá sempre misteriosa por ser da natureza da paixão.

3:AM: Qual o futuro da arte?

RS: O futuro da arte estará sempre relacionado com o futuro das sociedades que lhe servirem de suporte. Não tenho informação nem faço a mais pequena ideia sobre as formas artísticas que são actualmente produzidas na Etiópia ou entre os esquimós. O meu universo artístico é o do mundo ocidental e o seu futuro é tão incerto ou prometedor quanto o da economia global ou o das democracias parlamentares.

Pessoalmente gostaria de assistir a um regresso da arte às grandes narrativas populares. Isso parece-me possível uma vez que a arte da rua vai ganhando espaço e, na rua, fala-se do que aí acontece, das coisas que nos são comuns, criando-se um tipo de representação artística que reflecte o quotidiano.

Olhando melhor a arte que chega aos meios de comunicação de massas, a arte das galerias e das leiloeiras, a tal arte que se transforma em milhões de dólares ou de euros ou de reais, fico com a sensação de que há diferentes sensibilidades e narrativas, das mais particulares às mais universais. O espaço criativo é extraordinariamente variado e não permite grandes profecias. A única profecia que se pode fazer com segurança é que enquanto houver um ser humano ao cimo da Terra a arte não poderá morrer.

3:AM: Para finalizar: que quadro gostaria de ter em sua sala?

RS: Adorava ter “O Jardim das Delicias” de Bosch. Infelizmente essa obra-prima está em exposição no Museu do Prado, em Madrid. Até hoje fiz-lhe apenas uma visita mas tenho a certeza de que não foi a última.

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SOBRE O ENTREVISTADOR
Beto Canales é um eterno estudante de literatura. Produz principalmente contos, apesar de atrever-se a cometer crônicas e muito esporadicamente poesias. A universalidade de seus personagens e dos lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte do planeta. É também um cinéfilo apaixonado e um assumido aprendiz de crítico de cinema.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Monday, December 15th, 2008.