Tempo de ablução

Por Laura Peixoto.

Despencava uma aguaceira pesada fora de estação talvez breve e corri para baixo da marquise da loja popular onde um homem tentava atrair a clientela berrando num microfone os vestidos e blusas A Favorita e fiquei num canto com medo de que ele viesse troçar comigo e baixei a cabeça admirada com o volume de água encardida e crescente que abandonava a sarjeta e invadia a calçada e vi quando um ratinho correu atravessando a rua entre as pernas impacientes de pessoas e enredou por um corredor de louças de plástico quase em frente onde envergonhada esperava o tempo secar e vi quando passou a menina gordinha de dez anos acossada pela mão do pai com uma calça de veludo toda molhada e com os cabelos castanhos presos numa trançinha fina por uma ligueta e ela me olhou e ouvi minha mãe dizer enquanto tentava domar meus cabelos que as liguetas eram imprestáveis e arrebentavam os fios mas naquele dia de chuva implorei para seguir com ela destrambelhada e alegre trabalhar até tarde no salão de beleza.

e ela não me ouvia e as minhas resistências enfraqueciam por essa menina que agora espia por cima do ombro e não me furta um sorriso sequer e logo ela se perde no meio da gente invisível correndo para casa no final da tarde com a chuva logrando meus sapatos de plásticos enquanto a menina de banho recém tomado brincava no colo do pai suado de cueca naquele verão e chuvas fora de hora e ele segurava meu pé sobre o sexo duro e eu vigiava a porta ansiando para que minha mãe chegasse do salão e me mandasse para o quarto estudar a tabuada do sete e a mãe não chegava porque a chuva teimava mais forte e o pai beijava a querida filhinha daquela mãe que não a queria gorda e insistia para lavar os cabelos com os cremes perfumados que ela trazia do salão e agora a chuva alcançou a soleira da loja e o homem aliviado não precisa berrar mais no microfone quando daquela hora em diante cliente alguma se aventuraria sair dos bazares para o temporal na rua e se arredam os balaios de ofertas de sutiãs e calcinhas por preços ínfimos mesmo assim a menina não tinha mesada nem para ir até a esquina comprar um sorvete naqueles dias de quase 40º e aceitava o de baunilha que ele oferecia roubando com sua língua pedacinhos de minha boca e a língua gelada no meu pescoço dizia pai pára com isso porque não trouxe um pra ti também não quero mais fica ele falava baixinho fica o pai só vai olhar e naquele dia a chuva apagou a luz e trouxe a mãe da menina mais cedo para casa onde no quarto estudava toda a tabuada para o exame da admissão desejando fugir daquele colégio evangélico e viu meu pai sem roupa alguma nas minhas costas se acariciando ofegante e ela finalmente abriu a porta e eu não precisei dizer nada e ela gritou desgraçado filho da puta e ele foi transferido para um quartel no Acre e o general pediu silêncio para não perder a pensão e a menina nunca mais o viu mas então o moço disse que precisava fechar a loja e saí para a chuva sem me importar com as trovoadas sobre minha cabeça.

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SOBRE A AUTORA
Laura Peixoto é jornalista com pós em Filosofia e Educação. Mora e destoa em Lajeado/RS onde escrevinha para o mundo “cantando a sua aldeia”. Em 2005, na Feira do Livro de Porto Alegre lançou o livro infantil “Um dia Tudo se Ajeita!“, mas hoje não se acha tão convicta assim: o imaginário e o real confundem minha subversão.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Thursday, May 14th, 2009.