The Last Time I Was Richard
Por Everton Lourenço.
“Todos os românticos se reunirão algum dia; cínicos, bêbados e irritando alguém em algum escuro café”. Eu acreditava fielmente nessas palavras de Richard, achava que um dia todos os românticos se levantariam e caminhariam unidos. E também não via melhor lugar para uma primeira reunião do que um escuro café, ainda que irritasse muita gente. Imaginava que nessa reunião se levantaria uma voz, um grande líder que iria guiar a nós todos rumo à conquista do mundo. Este seria um momento histórico, que ficaria para sempre na mente das pessoas.
Esse era o meu sonho, o meu ideal. Mostrar para todos que nós podemos crer no amor e revolucionar o mundo com ele. E que há muito isso está para acontecer: os nossos sonhos não podem mais fazer parte apenas de nós mesmos; todos vão compartilhar deles. Vamos até o fim. Não vamos nos calar mais; não vamos mais nos esconder. Vamos nos reunir, ir para um escuro café e gritar, protestar, espalhar para todo o mundo que o amor é o que há de mais doce. Não sei ao certo por quanto tempo eu compartilhei do pensamento deste personagem da música de Joni Mitchell, mas sei que foi um tempo sublime, terrivelmente sublime.
Entenda, meu amigo, que muitos já tentaram mudar as coisas seja minimamente ou em larga escala. Há pessoas e pessoas… Uns não querem mudar nada, são conformados, acham que tudo está bom e, ainda que não gostem de algo, não tem coragem para mudá-lo. Outros fazem pequenas mudanças; estes têm o dom da ação: se querem transformar algo, o fazem através unicamente de ações. Às vezes dá certo; às vezes… Há ainda um último grupo, limitadíssimo, raro. Alguns diriam que esse último grupo está em extinção. Bobagem! É certo que são poucos, mas não estão em extinção; sempre foram poucos e sempre serão. Mas sempre haverá alguém que herdará e passará o seu legado. Este último grupo consegue qualquer tipo de mudança. Aliás, o melhor nome é revolução; estes últimos podem revolucionar o mundo. “Como?” você deve estar se perguntando; “Como eles conseguem ir tão além dos outros?” ah, meu caro, eles simplesmente sonham.
Eu já fui assim um dia, eu já fui um sonhador. Você não pode imaginar o poder que a capacidade de sonhar te traz. São indescritíveis os prodígios que um sonhador é capaz de realizar. O mundo está em suas mãos, você é o senhor de tudo. Não há nada que você não possa fazer. Talvez você, meu amigo, esteja pensando “Que maravilha!” ou “Eu queria ser assim!”. Ah, quão imensa é a ingenuidade humana… Na verdade, nada há de bom em ser um sonhador. De que adianta ter o mundo nas mãos quando não se tem a si mesmo ao alcance? Qual a vantagem de se revolucionar tudo o que está a sua volta quando não se pode controlar a si mesmo? Talvez ainda esteja difícil de entender, mas é simples: o sonho não é algo que você domina, que você controla, mas algo que te domina e controla impiedosamente. Ser um sonhador é não buscar a realização do sonho, pois não é de realizações que vive um sonhador, mas apenas do sonhar. E muitos acham que sonhar é fantasiar, fugir da realidade. Felizes são os que pensam assim. Mas a verdade é que sonhar é descobrir que não há realidade, que não há verdade…
Bem, eu dizia que já fui um sonhador; mas não um qualquer. Eu fui um grande sonhador. Por isso mesmo, eu nunca realizei meu sonho. Quando se tem um grande sonho, a imaginação é uma doce companheira, que te acompanha sempre sorridente. Mas logo a sua companhia muda; logo você conhece a frustração. Essa, sim, é a verdadeira e inseparável companhia do sonhador: há todo momento o assombrando impiedosamente. Foi exatamente no momento em que passei por essa transição, quando o gosto das lágrimas era muito mais assíduo que o do alimento que já não conseguia levar à boca, que experimentei a mais estranha sensação da minha vida. Esse sentimento foi (e ainda é) para mim uma grande incógnita. Talvez alguém o descrevesse como uma grande dor, um sofrimento sufocante que consegue penetrar no fundo do que é vulgarmente conhecido por alma, nela alojando-se e corroendo-a, não lentamente, mas de maneira acelerada e cruel, a tal ponto que, em pouquíssimo tempo, um indivíduo acometido por esse mal pode ser completamente dilacerado precisamente no ponto mais íntimo e essencial de um ser, isto é, a tal alma. Porém, particularmente, eu discordo em absoluto dessa descrição, pois não passa de uma tentativa de descrever o indescritível, apenas uma simplificação patética.
Porém, um dia, finalmente me livrei desse sofrimento. Hoje, eu já não estou mais preso à crença nos sonhos, no amor… Agora posso tomar meu café em casa, sozinho com minha TV ligada. Não durmo mais em cafés escuros em meio a garrafas e copos e tudo que restou dos meus ideais. Se me perguntarem se agora sou mais feliz, ainda não estou pronto para responder. Talvez nunca esteja; a felicidade é efêmera, fugaz. A maior fonte de alegria é não se sentir na obrigação de estar alegre. A vida é assim: uma hora você está sonhando e na outra está acordado. Qual é a verdade? Qual é a mentira? Não sei… Apenas digo que agora estou bem acordado e tudo me parece real, e, para mim, isso basta.
Provavelmente o amigo está se perguntando como eu consegui deixar essa vida para retornar à “realidade”. Bem, os meios empregados foram intraduzivelmente metafísicos, sendo-me impossível expressá-los. O que se pode dizer é que não me foi simples essa transição. Muitos foram os momentos de dor e de sofrimento até que eu pudesse voltar a ser eu mesmo. Mas com muito esforço eu pude vencer as amarras que me prendiam à liberdade. Eu não quero mais ficar preso a nada; e o pior tipo de prisão é aquela que te impede de estar preso. Por isso, meu amigo, tenha muito cuidado quando for buscar a liberdade, quando for enveredar pelos labirintos do sonho; pois talvez você nunca volte. Comigo, por sorte (ou não), foi “apenas uma fase, estes dias de cafeterias escuras”.
SOBRE O AUTOR
Everton Lourenço é natural do Rio de Janeiro. Tem 20 anos de idade e escreve desde dos 15. É essencialmente poeta, mas gosta de se aventurar pelos caminhos da prosa. Já teve alguns de seus poemas publicados no jornal O Globo. Atualmente cursa Letras com habilitação em português-latim na UFRJ.
Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Saturday, September 8th, 2007.
