Timidez

Por Bibiana Lubian.

Entro.

Seja onde for, começo a disfarçar,

a fingir que estou muito à vontade…

Mas a verdade é que nem mesmo sei como hei de estar;

não sei deixarem ver que esta que é a verdade!

Suspeitando que todos estão possessos.

No olhar de toda gente encontro o mesmo grito:

Fora! Sempre no mesmo tom: correto, sério e frio.

Me despeço amavelmente,

Fingindo não ter sido mandado embora.

Lá fora só o lamento do vento me embala,

embebeda e atormenta.

Sinto-me bem! Que bem?

Todo embrulhado em sofrimento.

O martírio tenta-me!

Que bom que é ficar só, posto de lado…

subir a longa queda até o fim.

E chegar exausto, incompreendido, caluniado.

Desato em soluções sobre mim.

Choro na noite longa e transito como um menino ruim atrás da porta.

Mas comigo me consolo em sentir-me incompreendido.

Por que aquele menino ruim não merecia tal castigo.

Assim esta paródia do meu mal se junta a minha megalomania,

volto aos clubes e salões,

visto a minha grandeza diante do furor deles e delas.

Sofro superiormente obscenidades e empurrões.

Sento-me triste até a morte olhando para os vidros da janela,

olho no espelho em frente: uma caricatura,

um rosto cego,

mudo e empoeirado.

Garante que sou aquela compostura,

Esse sepulcro caiado.

Por quê? Não retorno à rua?

…enjoam-me os cristais, as luzes e os decotes.

Como é bom passear lá fora, sob a lua sereníssima.

Porém na rua há bares, bordéis, escuro e fêmeas.

E no vinho há desespero e gosto.

É então que tu vens! Mestre que eu procuro.

Então me encontras e cospe-me no rosto!

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SOBRE A AUTORA
Bibiana Lubian é uma amante da literatura e das artes em geral. Como jovem e como iniciante, tem as clássicas marcas dessa dupla condição: o tom confessional e a intensa carga afetiva inspirada em sua própria vida; no plano textual, certa prodigalidade no uso de adjetivos e um léxico que reflete o universo das pessoas de sua geração.

Bibiana já possui algumas características definidoras, o que se percebe tanto nas crônicas quanto nos poemas; em primeiro lugar uma inequívoca sensação de estar “gauche“ na vida, uma densa melancolia e uma irreprimível visão oblíqua da existência humana: “Já não quero mais que meu coração seja guiado, encorajado ou estimulado por qualquer impulso e por emoções baratas; ele sozinho já se inflama o bastante“. De fato, quem isso afirma, é porque ultrapassou alguns estágios vitais que ainda engasgam outros. Sabe-se de si mesmo quando deixa de saber pela mão alheia. Em segundo lugar, destacaria uma espécie de perspectiva existencial, que acredita pelo verbo: As palavras só significam a realidade depois de termos assinado embaixo. É uma outra forma de dizer – mais simples e límpida, talvez – que estamos em definitivo amarrados à nossa situação de seres nominadores ( e, portanto, intrigados e desconfiados).

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Wednesday, May 27th, 2009.