Trecho: Everyday

“O Telhado”, por Lee Rourke.

Eram duas da tarde, no que havia sido anunciado o dia mais quente do ano até então. Irvine Doyle sentava-se à sua mesa, olhando fixamente a extraordinária tela plana do seu monitor desde as oito horas daquela mesma manhã. Menos por volta das onze horas e meio dia, quando ele contava os pombos que deslizavam em frente sua janela e sobre os diferenciados telhados de Londres. Ele contou, mais ou menos, quatrocentos e quarenta e três, percebera que deve ter contado o mesmo grupo por várias vezes. Isso não o preocupou, pois ele muito gostava dos pombos.

Agora ele se encontra só. Seus colegas foram no pub, o convidaram, mas educadamente declinou a oferta - o que foi muito para a admiração de seus companheiros. Irvine Doyle jamais rejeitaria tal convite. Geralmente, qualquer motivo era o suficiente para se retirar do escritório. Mas esse dia em particular, era diferente, uma nuvem grossa de inércia desceu derrepente da atmosfera encobrindo Irvine Doyle com indiferença. Ele simplismente não queria saber de nada. Tais sentimentos nunca se manifestaram dessa maneira antes. Irvine Doyle não entendia o que estava acontecendo.

O escritório estava quieto, só mesmo o perpétuo ruído do mecanismo do ar condicionado ressoava por todo o prédio (imagine uma estrutura brilhante que parecia, pelo menos de relance, feita somente de vidro). Irvine Doyle momentaneamente parou de contemplar a memorável tela plana de seu computador e se voltou para a janela, olhando através do pátio da companhia para o prédio ao lado oposto (imagine uma construção uniforme de tijolos vermelhos, construído por cerca de 1930, provavelmente quando esse tipo de modelo de blocos de escritórios pareciam modernos e limpos, e não serviam como uma imensa tela para grafiteiros do tipo Banksy em cada fachada concebível) Esse prédio, atravessando o pátio da companhia, o qual Irvine Doyle observava quase todos os dias, agora é ocupado por invasores. Quase todos os dias ele observaria os novos, arty, ocupantes se reunindo para as refeições, exercícios e seja o que for que fizessem, faziam no telhado.

Aquele telhado, tudo que Irvine Doyle queria era estar naquele telhado, naquele dia em particular, sentado, bebendo vinho, fumando, seja la o que for que eles fumam, tomando banho de sol, lendo um livro, curtindo o momento,  enquanto olhando o pessoal nos escritórios, na moderna torre feita de vidro, através do imaculado pátio e sorrindo para si mesmo, seguro em saber que ele não teria que passar os dias de suas vida acorrentado à aquela escrivaninha miserável. Essa íntima e pequena fantasia de Irvine Doyle tinha um aspecto eufórico e agradável.

Irvine Doyle tentava tapar os ouvidos, quando seus colegas, que se sentaram a suavolta, completavam suas dissensões:

Porque eles simplismente não arranjam um emprego?
Porque eles não pagam seus impostos como todo mundo?
Porque eles não ganham seu próprio dinheiro ao invés de gastar de seus pais?
Porque eles não contribuem para a sociedade?

Irvine Doyle se vira e ignora os comentários coniventes de seus colegas, ele acenava com a cabeça, fingindo consentimento quando ele achou necessário, desejando, secretamente, estar naquele telhado, não ali, sentado em sua miserável escrivaninha, tentando não escutar os protestos de seus colegas.   

Ele retornou para sua memorável tela plana, ele tinha trinta e dois e-mails para ler - Todos relacionados a trabalho. Decidiu desligar seu computador, olhou mais uma vez para o telhado. A princípio, ele pensou ter visto apenas um homen, parecia estar trabalhando, serrando madeira numa bancada ou coisa do tipo, mas aí ele notou que aquele jovem homen, um tanto musculoso, estava nu. Daí ele notou, aos poucos, a extraordinária mulher, que também estava despida, em frente ao musculoso homen, e se a joelhando, sua redonda, formosa, bunda tomou um formato de coração, exposta, para quem quisesse ver, o homen musculoso furiosamente enterra seu pênis dentro dela, ritmicamente sem a menor das preocupações no mundo, Irvine Doyle nunca tinha visto tal descomedido ato, livre de qualquer vergonha ou vaidade. Aquilo era sexo, um chega junto, não apenas para os dois participantes, mas para todos. Aquilo era um tapa na cara de cada um dos que trabalhavam no escritório e que os assistissem , um grito de guerra anunciando a todos, de que existe um outro caminho , que você nao tem que seguir  o rebanho, que você pode se destacar entre todos os outros, que você pode brilhar, não importa o quão absurdo você pareça.  

Irvine Doyle continuou assistindo o ato no telhado através do pátio da compania,o hipnótico espetáculo do rapaz musculoso e da mulher sem-vergonha fodendo como loucos, abertamente, jamais testemunhara antes t ão grandioso ato. Era magnífico. Desafiante. Mesmo os pombos pararam para dar uma olhadinha. Ele contou quarenta e quatro no total. O casal continua, de qualquer maneira, o maravilhoso exercício.

Ele andou imediatamente para a janela da manifestação súbita, ele assistiu, atenciosamente, cada movimento, era uma pornografia peculiar, de alguma forma, mais tocante do que estava acostumado. Era como se ele pudesse sentir o prazer do casal, sua libertação, seu chocante abandono, sua indiferença para com o mecanismo a sua volta: a cidade e seus ocupantes manipulados, governados por este tipo de tentáculo, raciocinando, agradando, persuadindo, forçando cada decisão, cada reunião de negócios, cada negócio fechado, e isto era apenas deles - e isto sempre seria - e por aquele  momento extasiado de sol dourado naquele telhado eles sabiam disso e Irvine Doyle sabia disso e todos os que haviam testemunhado tudo aquilo também sabiam disso. Ele os considerou mais que magníficos ele os considerou celestial, até mesmo super-humano. Se sentiu abaixo deles, como se eles conhecessem algum segredo sobre a existência que ele jamais pudesse saber, então ele continuava a assisti-los, hipnotizado pelo brilho que os rodeava, desejando que fosse ele, desejando que ele estivesse lá e não onde ele estava. Desejando conhecer a vida o suficiente para não precisar se preocupar com mais nada.

Logo a esplêndida copulação terminou, ambos, o musculoso jovem rapaz e a indulgente mulher se espreguiçaram e olharam em direção ao escritório de Irvine Doyle — Assim como se eles soubessem que ele estava lá, todo só, os assistindo. Assim como se eles tivessem feito todo esse show especialmente para ele, como se para provar-lhe algo que vinha o intrigando por muito tempo, algo que ele vinha esperando por toda sua vida naquele escritório.  

Ele assistiu enquanto eles vestiam suas, então, discartadas roupas: uma camiseta aqui, uma tanga ali. Logo eles enrolaram e acenderam uma vela gigante, cada um inalando a fumaça azul escura para dentro de seus pulmoes como se fosse água fresca.  Logo seus colegas retornaram do regado almoço, conversando e rindo. Ele os observava enquanto os mesmos atiravam seus casacos e suas bolsas em suas mesas antes de chocalharem seus computadores para checar seus emails em seus igualmente estraordinários monitores de tela plana. Naquele momento ele decidiu não contar a seus colegas sobre a performance que havia acontecido minutos atrás no telhado do prédio através do pátio da compania, ao contrário, ele decidiu escrever uma carta de demissão e entrega-la para o gerente naquela mesma tarde. E, internamente, ele dedicava aquela eloquente carta escrita ao musculoso jovem rapaz e a formosa mulher no telhado e ele nao contaria a ninguém sobre o ocorrido, ja que Irvine Doyle sabia que, em momentos como o que ele se encontra agora, diferente do musculoso jovem rapaz e da linda mulher no telhado, era muito melhor manter certas coisas para si.

Este é um trecho de Everyday próximo lançamento da Social Disease, London.

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SOBRE O AUTOR:
Lee Rourke
é de Manchester. Ele também é Editor Chefe da Scarecrow e Editor de Critícas na 3:AM Magazine. Sua coleção de contos Everyday será publicada pela Social Disease em 2007.

Publicado primeiramente em 3:AM Magazine: Tuesday, June 5th, 2007.