Uma Noite Sem Amor

Por Beto Canales

- Te vinga da tua mulher em mim, faça o que quiser, só não deixa marcas - diz Samantha, pelo menos ela se apresentava assim, deitando na cama com as roupas íntimas aparecendo e com uma expressão maliciosa liderada por um bonito sorriso. O homem, vestido, ficou olhando um pouco surpreso e, num misto confuso de sensações que orbitavam entre poder, prazer e sarcasmo, permaneceu parado esperando ouvir mais. E ouviu:

- Me bate na cara, pensa na cadela da tua mulher e me bate na cara!

Por alguns instantes sentiu vontade de esbofetear o rosto fino de pele macia e bronzeada, nariz pequeno e lábios muito vermelhos, escondendo dentes brancos e parelhos, e bonitos olhos esperançosos, mas resistiu. Continuou observando a jovem que, com movimentos provocantes, virava o corpo lentamente, ficando de bruços e dizendo, com o rosto voltado para trás:

- Bate na minha bunda, me castiga que eu mereço, bate forte, bate!

Ele seguiu ouvindo, mas suas expressões foram ficando tensas. Deu alguns passos para frente e sentou ao lado da cama, desviou os olhos de Samantha e chorou compulsivamente até chegarem os soluços. Ficou assim por alguns minutos até quando, enfim, ela disse:

- Calma. Fica tranqüilo. Pagaste por toda a noite, não temos pressa. Podes fazer o que imaginar comigo. Se quiseres ficar só conversando, não há problema.

Falou isso e buscou uma bebida gelada. Parou na frente do homem e perguntou:

- Qual teu nome mesmo?

- Com qual nome me pareço?

Ela pensou e, já com uma cara esboçando um sorriso, disse:

- Thales. Nome do meu primeiro amor, um garanhão. E combina com meu nome. Thales e Samantha. Bonito!

- Pois é este mesmo meu nome -, respondeu tentando se recompor.

- Posso beber, Thales?

- Claro. À vontade, mas eu agradeço.

E assim fizeram. Ao lado do frigobar, aos pés da cama, havia uma luz projetada em duas poltronas vermelhas e uma mesinha no meio. Ali ficaram por algum tempo, ela bebendo e os dois conversando. Thales ainda de roupa e Samantha, que a qualquer oportunidade não deixava de se insinuar, cada vez com menos roupa. Havia deixado os seios, lindos e grandes e nem um pouco caídos, com os mamilos rosa e perfeitamente redondos, à mostra, em um processo de permanente sedução. Já dava para perceber o envolvimento de Thales no jogo erótico. Mas ele mantinha-se firme e vestido.

Havia chegado um pouco antes na boate e chamado o gerente. Sem rodeios, pediu que trouxesse a mulher mais depravada da casa. Preferiu pagar adiantado sem pechinchar em nada. Tinha adquirido o direito sobre a mulher para a noite inteira, com todos os caprichos que uma mente, sã ou doentia, pudesse ter. Conheceu Samantha na porta do quarto e avisou, em tom calmo, que estava com sérios problemas e por isso estava ali. Teriam uma longa noite.

Pois agora, sentados nas poltronas que pareciam ficar cada vez mais confortáveis, ele falava de sua vida tranqüila e bem estruturada. A cada insinuação, a cada sugestão erótica de Samantha, contava coisas mais íntimas a seu respeito. Falou sobre o casamento de quase vinte anos, da esposa letrada e carinhosa. Contou com detalhes desde o namoro até como viviam atualmente. Falou de sua igreja e de alguns preceitos bíblicos. A qualquer respirada mais profunda, Samantha dava um jeito de se retorcer e mostrar o que queria, mas continuava ouvindo com atenção dedicada. Por vezes, ficava segurando os seios e acariciando os mamilos; outras, se masturbando pelo lado do biquíni e depois colocando os dedos lambuzados na boca simulando sexo oral. Nada abalava Thales, que seguia na tarefa de mostrar o quanto sua vida era boa. Falou dos filhos, do sucesso deles, dos amigos. Samantha, depois de muito ouvir e se oferecer, pergunta de uma maneira bastante incisiva, qual problema que o afligia, já que sua vida parecia perfeita. O que queria afinal? Thales recostou-se e, sem tirar os olhos mareados do chão, provocou:

- Conta tua vida que depois eu falo.

Samantha sorriu erguendo as pernas, dando um salto e ficando de pé. Falou, com uma notável fluência verbal e corporal, que crescera em uma família pobre da periferia. Foi estuprada pelo pai que, para sua sorte, morreu cedo de tanto beber. Mais tarde, já adolescente, foi molestada sistematicamente pelo padrasto até que um dia não agüentou mais e saiu de casa, deixando os irmãos pequenos naquele inferno. Tentou por algum tempo arrumar um trabalho comum, mas nunca conseguiu ganhar o suficiente, pois, mesmo longe, sustentava a mãe doente, os irmãos menores e até o padrasto desempregado. Ou seja, a tragédia perfeita, com todos os quesitos exigidos. Então, e somente por isso, estava ali, vendendo o que tinha, o corpo, e o que sabia fazer: sexo. Thales ouviu tudo com atenção sempre fixando o olhar no rosto de Samantha. Vagarosamente e meio envergonhado, percorreu o corpo que se mostrava cada vez mais. Olhou demoradamente os seios que balançavam com graça acompanhando a cadência das palavras, para as coxas grossas e torneadas, que ficavam semi-abertas a maior parte do tempo, para os pés, apertados por uma sandália prateada com um salto enorme. Subitamente levantou e ficou frente à frente com Samantha e disse, chegando muito perto, quase encostando seu peito nos seios, que seu problema era um desígnio de Deus, que recebera uma missão Dele e por isso estava ali: para salvar uma alma da perdição. Disse quase gritando não existirem razões suficientes para uma mulher se vender, se prostituir. Foi chegando ainda mais perto até empurrá-la, sentindo a maciez do seu corpo, derrubando-a na cama, explicando que ela era o motivo do choro, mas que a salvaria, a tornaria uma mulher decente. Continuou com os berros desvairados, deitando-se sobre Samantha, cada vez mais desnuda. Gritou que aquela vida de pecado iria terminar e a penetrou com facilidade, molhada pelo prazer. Transformou os próprios gritos em gemidos, sem falar ou ouvir mais nada, nem mesmo Samantha murmurar:

- Me salva, me salva meu pastor…

O nome dele era João e o dela Maria.

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SOBRE O AUTOR: Beto Canales é um eterno estudante de literatura. Produz principalmente contos, apesar de atrever-se a cometer crônicas e muito esporadicamente poesias. A universalidade de seus personagens e dos lugares onde ocorrem suas histórias são marcas registradas, permitindo que aconteçam com qualquer um em qualquer parte do planeta. É também um cinéfilo apaixonado e um assumido aprendiz de crítico de cinema.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Tuesday, November 4th, 2008.