Uma Reza Para Curar Um Mal Inexistente

Por Ranice Pedrazzi Pozzer.

Era uma tarde morna, exatamente na temperatura que Lúcia gostava para caminhar. Sempre imaginava que naquele calor, sentindo aquele ar morno que a enchia de tesão, poderia andar quilômetros sem ficar cansada. Era o dia perfeito para procurar um endereço. Um em especial. Uma casa em uma vila, onde uma senhora, há quase sessenta anos, benzia pessoas. O motorista do jornal garantira que ela era uma mulher séria, que rezava como uma missão. Não cobrava, mas se alguém quisesse pagar, recebia.

- Eu sempre dou alguma coisa. Levo os meus filhos lá e pago dez, vinte reais - afirmou o rapaz ao entregar a ela um pedaço de papel rasgado com o endereço.

Lúcia saiu da redação certa que naquele dia teria uma boa história. Era o tipo de matéria que gostava de fazer. Contar a vida de alguém, as motivações, as realizações e, principalmente, as dores. Imaginava que alguém que dedica sua vida a rezar, deve ter uma grande dor, se não sua, assimilada dos que a procuravam.

Andou muito e pareceu nada. Só que a determinação sumiu ao virar a última esquina. Era uma rua sem saída, tranqüila, como boa parte das ruas afastadas do centro da cidade. O bairro ainda mantinha um ar de segurança. Janelas e portas abertas, muros baixos, roupas estendidas nos pátios. A neurose da violência ainda não tinha atingido aqueles moradores e se alguém falasse para eles em cerca elétrica, porteiro eletrônico, segurança, eles dariam de ombros rindo. A vigilância de quase todas as casas era feita por cães vira-latas, que andavam soltos, sem coleiras, nem correntes.

Lúcia conferiu o endereço. Estava diante da casa certa, mas hesitava. Era uma casa de alvenaria, ainda em obras, no centro de um terreno de chão batido. Uma certa movimentação no pátio chama a sua atenção. Vozes, risadas, agradecimentos.

- Se está procurando a dona Margarida é aí, mesmo.

A voz veio da casa ao lado. Uma vizinha que estava parada no portão, olha para Lúcia e sorri. Um sorriso de quem parecia ter detectado a relutância em entrar.

- Pode entrar. - ela insiste como se a casa fosse dela.

Lúcia era apenas uma das muitas pessoas que ficava se questionando diante do portão daquela casinha. E a mulher da casa ao lado via isso todos os dias.

- Posso mesmo? - perguntou se recriminando. Acabava de concordar que a casa pertencia a vizinha.

- Sim. E vai lá para os fundos. Dona Margarida está lá.

Contornou a casa observando cada detalhe. Cacos de brinquedos espalhados por todos os lados, um galo amarrado no hidrômetro, restos de material de construção. Um casal passa por ela sorrindo. Ainda gritam um muito obrigado antes de deixar a casa. No pátio é convidada a entrar na cozinha e esperar, que a dona Margarida já iria atendê-la.

Era uma casa muito simples. Talvez fosse a casa mais pobre em que ela já havia entrado. Estava usando um jeans e uma camiseta, não tinha mais do que dez reais na carteira para passar a semana toda e ainda assim contrastava com o lugar. Morava em um daqueles prédios que têm muitas portas em corredores mal iluminados, num apartamento pequeno e antigo. Sempre se achou em uma situação limite, mas naquele momento chegou a sentir culpa pelo que tinha. Sua camiseta nem era branca e parecia brilhar contra o sofá.

Então ela apareceu. Velha, pequena, curvada e ágil. Movia-se rapidamente e não pareceu surpresa com a moça que queria saber da sua vida para colocar no jornal.

- Fé e oração. Então vamos falar sobre fé e oração. – repetiu sentando-se ao lado do fogão a lenha.

Lúcia experimentou uma dose de satisfação. Dar umas voltas antes de perguntar o que exatamente queria saber era o recurso perfeito.

A benzedeira falou que era orientada por um guia, uma voz de mulher que ela atribuira a uma santa menina, que um dia tinha salvo sua vida embora não tenha conseguido salvar a sua casa. Contou que acordou em uma noite ouvindo um choro e percebeu que a casa estava em chamas. Correu com o que pode, mas perdera todo o resto.

- E esta voz ainda fala com a senhora? – Lúcia perguntou já direcionando a matéria, pensando qual psiquiatra deveria entrevistar para falar sobre distúrbios de personalidade e esquizofrenia.
Por um segundo lhe passou pela cabeça que a tal voz deveria ter soprado suas reais intenções no ouvido da benzedeira e teve medo. Dona Margarida sorriu. Como se pressentisse os sentimentos da jornalista, começou a falar de santos, de igrejas, de missas, do seu tempo como aluna de catequese. Lúcia não sabia nada sobre idolatria, e realmente ficou mais tranqüila. Na verdade, teve consciência que estava ali a trabalho. Não podia permitir que o que fosse dito a alterasse. Ouviu e anotou. Perguntou e esperou por respostas.

- Minha filha, eu preciso te benzer. A voz disse que eu preciso.

- Por mim, tudo bem. Algum motivo em especial?

- Inveja, tu és muito carregada.

Lúcia conteve a vontade de rir. Não conhecia ninguém miserável o suficiente para invejá-la. A benzedeira pegou uma tesoura enferrujada e com a ponta tirou uma brasa do fogão. Passou aquela brasa ao redor de Lúcia, murmurando. A fumaça a contornava, formando um halo em seu corpo. Mas não chegava a tocá-la. E isso ela explicou como habilidade de uma mulher experiente em usar a fumaça, como os fumantes que faziam círculos no ar com seus cigarros. A brasa foi jogada em um copo com água e outra foi tirada do fogão. O ritual se repetiu várias vezes.

- Agora vou benzer à distância, a menininha que está com problema no peito.

Lúcia olhou para a senhora esperando um complemento, que foi dado.

- A sua menina, que está com problema no peito.

A surpresa foi substituida por um sorriso de alívio. Lúcia lembrou que usava uma corrente no pescoço, com um pingente com o nome da filha, que estava à mostra. Aceitou a reza à distância para curar um mal inexistente. A filha estava na escolinha e muito bem. Em minutos, Lúcia pegaria a menina e iriam para casa.

Agradeceu as respostas e as rezas e saiu. Estava bem, cheia de idéias para escrever. O ar morno daquela tarde continuava enchendo-a de tesão. Talvez por isso, pelo seu estado de quase euforia, não percebeu que a filha de vez em quando ofegava e chegou a tossir enquanto elas caminhavam para casa.

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SOBRE A AUTORA
Ranice Pedrazzi Pozzer é jornalista, trabalha como Assessora de Imprensa de uma empresa de Tecnologia a maior parte do tempo. Nas horas vagas, escreve. Sempre contos. Sempre curtos, para comportarem sua ansiedade por começar uma história nova.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Monday, May 4th, 2009.