Vai.

Confesso que foi duro. Mas necessário. Decidi te deixar partir. Decidi te permitir a independência de mim. Sofri, pois pra te deixar livre foi preciso te perder. Egoísta, só sabia te ter preso. Então abri e porta e disse “vai”.
 
Tu, no entanto, custou a me deixar. Não entendia porque eu pedia pra ires embora se o queria tão bem. Confuso, impotente, quase desistiu. Mas de tanto que insisti, vencido, se foi. E quando o fez, fez ligeiro, sem olhar pra trás, talvez admitindo pra si sua ânsia em desvendar o desconhecido.
 
Depois disso, muitos me disseram que tu não saberias viver em liberdade, que estavas acostumado ao meu zelo e ao meu amor. Que eu te fizera mais mal que bem ao te deixar partir. E é possível que estivessem certos. Pois, ao tentar me livrar do egoísmo de querer-te só pra mim, fui mais ainda. Ao romper nosso laço pensei só em mim novamente, na conquista da minha liberdade.
 
Tua gaiola ficou em algum lugar daquela casa onde agora moram outras histórias. E hoje, ao escutar o pio de algum pássaro, busco encontrá-lo. E quando surpreendo um canário amarelo num fio de luz, imagino que pode seres tu, mesmo sabendo que se a luta pela sobrevivência não te matou cedo, o tempo agora já o fez. 

Sobre a autora:

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Tássia Jaeger, 22 anos, gaúcha de Porto Alegre, estudante de Jornalismo; colaboradora do site Queb (Qual é a Boa?), da AJOR (Agência Experimental de Jornalismo IPA) e do site Universo IPA da Rede Metodista de Educação do Sul, do site 3:AM Magazine Brasil, do zine virtual E-Blogue e do Tudo de Blog da Revista Capricho nos anos de 2008 e 2009 . Também pode ser lida em seu blog www.tataj.blogspot.com.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Monday, March 15th, 2010.