Vida de Gato

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Por Clarah Averbuck.

Acordei atrasada de novo, e o sol entrava pelas frestinhas da janela da casa do meu amigo, e os lençóis estavam suados, e o travesseiro estava suado, e eu estava sozinha e completamente suada. Meu amigo tinha saído. Diferente de mim, ele era uma pessoa que trabalhava e precisava acordar cedo. Eu também deveria ter ido, deveria ter acordado junto com ele e empacotado minhas coisas e ido pra casa, voltado para a minha cidade, mas não consegui. Na verdade, eu deveria ter ido a mais ou menos dois dias, mas não tinha dinheiro. Nenhum. E precisava de dinheiro para a passagem. Confesso que também não andava me esforçando muito para ir embora; queria ficar no Rio o máximo de tempo que pudesse, como todo mundo que tem um coração. Cidade maravilhosa, cidade linda, cidade sedutora, mulata que hipnotiza turistas como eu, mulata que me enche os olhos e me faz suspirar de paixão e saudade. Cidade maravilhosa. O Rio é foda, mas eu precisava voltar para São Paulo correndo. Precisava sair do meu apartamento. A Senhoria centenária e a imobiliária não me queriam mais lá. Como se não bastasse, a velhinha fazia terrorismo comigo e ficava me encarando na padaria toda vez que me encontrava. Eu era obrigada a me esconder atrás da máquina de café ou manter-me ao lado esquerdo da Dona Gemma. Ela nunca via nada que estivesse do seu lado esquerdo, porque era caolha. Dona Gemma tinha um grande talento para cobrança: na época em que eu tinha dinheiro, ligava todo o dia primeiro para checar se eu pagaria em dia. Eu nunca pagava. Sou escritora, sabe. Escritores nunca pagam contas em dia. Tentava explicar para Dona Gemma, olha, Dona Gemma, a senhora tem que entender que não tenho salário, não depende de mim, a senhora não viu meu texto que saiu no jornal? A senhora não quer um exemplar autografado do meu novo livro, Dona Gemma? Vai ser lançado logo, bem logo, vou mandar um convite. A senhora não acha bom ter uma escritora famosa morando no seu apartamento? Não, ela não queria meu livro e nem achava bom ter uma escritora famosa morando no seu apartamento. Perguntava, incrédula, que diabos de escritora famosa era essa que não ganhava dinheiro, como se algum bom escritor no planeta terra ganhasse dinheiro com livros. Ela não entendia nada, pobre Dona Gemma. Apenas praguejava e me dizia para trabalhar ou me mandar. Resolvi me mandar. Agüentar uma velhinha me ofendendo ao telefone e me encarando com um olho só na padaria estava na lista de coisas que não queria para a minha vida. Empacotar minhas coisas e meus gatos e arrumar um lugar, antes que ela mandasse homens feios, rudes & barbudos pra me expulsar de casa. Droga. Doía ter que sair daquele apartamanto. Eu amava aquele lugar, amava de verdade, cada canto dele, cada cartaz de filme colado na sala, cada brinquedo, cada janela, cada rachadura na parede. Por outro lado, finalmente estaria livre do barulho, das goteiras que inundavam meu quarto toda vez que chovia, das malditas cobrinhas de cheiro que invadiam minha casa, todas criadas na Pizzaria Esfiharia do andar debaixo. Não era nada agradável acordar com o quarto rescendendo a alho e óleo as sete da manhã, vou te contar.

Tinha outro motivo para voltar, além do meu gato e minha mudança. Antonio. Antonio, o amor da minha vida. O homem mais perfeito que deus já criou, o homem que foi feito para encaixar no meu corpo e na minha alma e que me completava como eu jamais poderia ter sonhado, porque me ensinaram que não existem príncipes, não existe perfeição, não existe não existir restrições, mas desde o momento em que li a primeira frase que ele fez pra mim, antes da primeira vírgula, porque ele ainda por cima ainda escrevia melhor do que eu, soube que ele era o cara. Soube, assim. Plim. Nos conhecemos no dia do aniversário do nosso escritor, John Fante. Não poderia ser mais perfeito. Na primeira vez que nos vimos, dormimos abraçados. Colados. Ele apertando minha mão e nossos corpos em S, encaixados. Aquilo não me deixou nenhuma dúvida: era ele. Era o cara. Ele não largou minha mão nem enquanto dormíamos. Ele não fugiu. Meu quarto estava um caos, garrafas de vinho, latas de cerveja e cinzeiros virados até onde a vista alcançava. Nossas roupas estavam por todos os lados, mas ninguém ali estava interessado nelas de qualquer forma. Primeiro pensamento do dia: quero acordar assim pro resto da vida, quero acordar assim até não querer mais. Nos abraçamos e nos esfregamos e nos lambuzamos e suspiramos e quando abrimos os olhos, tudo que pude fazer foi sorrir até doer, então nos beijamos de novo e nos abraçamos e nos esfregamos e aquilo não teria fim se não precisássemos desesperadamente comer para que nossos pobres estômagos se recuperassem da noite anterior. Banho. Ele primeiro, enquanto eu tentava separar nossas coisas do lixo. Podia ouvi-lo cantando no meu banheiro rosa. Eu adorava o meu banheiro rosa. Eu adorava ouvi-lo cantar no meu banheiro rosa. Era a primeira vez, mas eu adorava ouvi-lo cantando no meu banheiro rosa. Juntei os entulhos sorrindo enquanto ouvia Black Rebel Motorcycle Club, nossa banda querida, o Jesus and Mary Chain dos anos 90, a banda que ouvimos incessantemente durante a noite da minha vida. Já sabíamos onde iríamos comer: no meu bar. O meu bar ficava a duas quadras da minha casa. Lá, você poderia tomar uma cerveja (barata), alugar um filme (bom), comer um sanduíche (ótimo), comprar um livro (com desconto) e ainda levar um pacote de esponjas, uma tomada, sabão em pó e uma pá de lixo, isso depois de conversar com o dono durante horas sobre literatura portuguesa do século passado. Digo, retrasado.

Mas eu precisava voltar para São Paulo. Acendi um cigarro e fui até a janela. Senhoras e senhores, à esquerda, temos o mar. Puta que pariu, o mar. Rio de Janeiro, maldita vadia sedutora que não me deixa ir embora. Preciso ir, querida, preciso ir, me dá um beijo, me olha nos olhos com o mar estourando branquinho na praia, deixa o teu sol entrar nos meus ossos, dá forças pro meu corpo cansado e fodido, meu corpo de velha, meu corpo de velha de vinte e dois anos. Meu corpo estava fodido, completamente fodido, acabado, meu fígado dava sinais de desistência depois de acelerar comigo por muitas e muitas voltas. Minha pele ia ficando amarelada, meu estômago rejeitava certas comidas, e foi quando tomei a decisão de só beber vinho. O médico contestou; nem vinho, Camila. Nada de álcool. Certo, certo, o senhor não gostaria também de cortar minhas duas pernas e furar meus olhos, Doutor? Como assim, sem álcool? Ele estava delirando. Tive certeza disso quando ele proibiu também minhas Boletas da Alegria, meus Inibex, fiéis companheiros desde a adolescência, que me mantinham cabendo em minhas calças. Olha, Doutor, não vai dar. O senhor me desculpe, mas não vai dar mesmo. Não posso ficar sem beber. Preciso disso para pensar, Doutor. Não, preciso disso para parar de pensar. Na verdade, preciso disso pra colocar os pensamentos em ordem, em fila, para chegarem no guichê um de cada vez. Senão parece que minha cabeça é uma feira livre, com duzentas pessoas gritando ao mesmo tempo. O senhor entende, Doutor? Não, não acho uma boa idéia ser internada. De verdade. Não, Doutor, não acho necessário. NÃO. É o seguinte: ou o senhor me arruma uma droga que não me mate, ou eu continuo bebendo e tomando bolas e morro. Sim, é problema meu, lógico. Mas o senhor não está aí, tentando dar soluções? Eu já disse o que acho. Ah, vá o senhor tomar no rabo. Se o senhor não fosse conveniado, pegava meu dinheiro de volta. Passar bem.

Botei minha mochila nas costas, meus óculos de sol, peguei meu discman e fui pra rua. Ainda ia morar no Rio, em Copacabana. Comer camarão e andar descalça. Escrever olhando pro mar. Respirar fundo e sentir meus pulmões salgados ao invés da fuligem que São Paulo tinha para me dar. Não queria nada do que São Paulo tinha, mas alguma coisa me mantinha por lá. São Paulo é como uma mulher que você não consegue deixar, uma mulher velha, feia, com rolinhos no cabelo e creme na cara, que grita e ouve óperas e usa perfumes azedos, e você não agüenta mais, não agüenta mais ouvir aquela voz, ver aquela cara, mas também não consegue se livrar daquilo porque no fundo, lá no fundo, você gosta dela. As crianças já foram embora, casaram, seria fácil pedir o divórcio, mas você simplesmente não pode. Deve ser alguma espécie de karma.

Entrei no ônibus e sentei no fundo. Dormi. Acordei com o cobrador pisando no meu pé e avisando que era o fim da linha. Levantei, meio tonta, desci, comprei minha passagem e entrei no ônibus de 1950, que sacodia como um pau-de-arara e tinha interruptores de luz para a descarga e a torneira do banheiro. Interruptores de luz. Um lixo. Adeus, meu amor. Até a próxima. Preciso ver a vaca da minha mulher. Inferno, aí vou eu.

* * *

Antonio, Antonio. Meu doce Antonio. Tantos homens passaram pela minha vida, alguns amores, muitas paixões, incontáveis desilusões, mas sempre estive sozinha. Era como se estivesse trancada em um quartinho cheio de livros mofados e discos de vinil, um quartinho sem chave. Recebia algumas visitas, gostava de receber visitas, e algumas delas até tentavam abrir a porta, sempre em vão. Sempre sozinha. Já tinha me conformado quando Antonio apareceu, escancarando todas as passagens e deixando entrar luz e ar puro e me abraçando e falando e mostrando e dizendo que não poderia agüentar outro amor, que não queria mais saber de sofrer pois sua namorada, a mulher da sua vida, estava indo morar na França. Que precisava ficar sozinho, que não agüentaria, não poderia, iria embora desta vida. Antonio queria ser um monge-cavaleiro templário. Mas ele não ia conseguir.

Antonio, meu querido, olha bem pra mim, olha no fundo dos meus olhos e me diz que eu não sou a mulher da sua vida. Me dá a sua mão, encosta no meu peito e ouve meu coração fodido, todo furado, ainda batendo. Não temos escolha, meu querido. Nossos corações não param. Os filhos da puta nunca param de bater, de espancar nossos peitos, doidos para pular nas mãos de alguém. Nossos corações são como uma maldição sem cura. Os filhos da puta não param. Então não tenta parar, só faz doer mais. Não tenta parar e vem sofrer comigo, meu querido. Porque eu te entendo. O tempo todo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, eu te entendo. Sei sobre a bola de espinhos rasgando teu peito, sobre a confusão e a dor e a falta de ar e a perda de chão te deixando sem saber para onde ir, sobre os soluços e as lágrimas queimando teu rosto de menino e entrando na tua gola. Sei sobre nada mais importar, sobre o mundo ficar pequeno e perder o sentido. Já estive lá e sobrevivi. Sozinha, fodida, sem ninguém para me dar a mão. Você também vai sobreviver. É forte como eu, nada vai te deixar no chão. E se deixar, estarei aqui para te puxar pra cima e te abraçar e te dar colo e te limpar as feridas. Estarei aqui para qualquer coisa, meu querido. O mundo pode cair, explodir, inundar, me ameaçar, a terra pode tremer e gritar e espernear e fazer o que quiser; nada vai me fazer sair do teu lado. Não achei que existisse nada assim fora dos livros que não li e dos filmes que não vi. Agora que sei, nada mais me interessa. Pode ser que um dia você vá embora, nunca se sabe para onde essa vida puta e louca quer nos levar. Não importa, não importa. Você existe. É o suficiente para me deixar dormir em paz. Então vem, meu querido. Vem sofrer comigo. Vem descobrir que além de nós, não há ninguém. Estamos sozinhos.

Cheguei em casa. Silêncio. Gatinhos fazendo festa. Olá, meus amores. Eu também fiquei com saudades. Me olhei no espelho do banheiro, o único da casa. Tão diferente de tão pouco tempo atrás. Era como se estivesse ficando velha sem ter rugas e sulcos. Minha pele é lisa e branquinha, mas tenho o rosto de uma velha por causa da dor. Não é a mesma dor dos pobres, dos miseráveis de todos os livros de fotografia que insistem em mostrar o Brasil. A dor deles é dura, seca, dor de quem passa sede e fome e trabalha demais para pensar. Minha dor é interna, não curte a pele, não estraga o corpo. Mas meus olhos me delatam. A dor estava toda ali dentro, os olhos sérios, negros e fundos. Dor de quem já viu tudo e não espera mais nada. De quem ficou sozinha a vida inteira, encarcerada em si mesma. De quem já viu o nada, o vazio absoluto, a ausência de cor e dor e calor e música e sentimento, já foi engolido e cuspido pelo nada incontáveis vezes, e será de novo, e de novo, e mais uma vez, até a última, quando só sobrar um caroço morto, um esqueleto sem vida. Depois de ver o nada, nada mais espera. Não é como se você ficasse insensível ou entorpecido, nada disso. Aumenta o apetite por sentimentos, aumenta a intensidade, porque você sabe que ele pode chegar a qualquer momento, como uma nuvem, uma peste silenciosa, e acabar com tudo. A dor salva do nada. Só ela salva. Vinte e dois anos de dor. Os mais velhos acham que é exagero, que nada sei da vida. Mal sabem eles que vivi mais do que todas as minhas avós juntas. Elas reprimiram sua índole, esconderam paixões e libido, engoliram mágoas e sentimentos, acataram decisões, deixaram-se domar e viveram proibidas. Sofreram sim, mas sofreram caladas, conformadas. Casaram-se com o nada. Eu grito. Grito para dentro e para fora, me atiro de cabeça em águas turbulentas, escalo montanhas, nado nos canais mais perigosos. Preciso estar no limite. Algumas vezes quebraram-me as pernas, chutaram-me a cara, pisaram-me os dedos, mas sobrevivi. Sobrevivo sempre. Sou toda marcada, cheia de cicatrizes, mas tudo vale a pena quando não é em vão. Então podem bater, vocês filhos da puta podem bater o quanto quiserem e quebrar todos os meus dentes. Eu agüento. E ainda dou um sorriso banguela no final, porque eu sempre ganho.

As últimas semanas na minha casa querida. Caminho pela sala passando a mão pelas paredes e me sentindo uma filha dos anos oitenta. Só faltava começar a tocar Smiths. Pronto, aí eu poderia dançar com a parede e me despedir de casa. Deus me livre. Até coloquei um disco do Hole para exorcizar o Exu Anos Oitenta. E viva a Courtney Love. Quem fala mal da Courtney é meio tacanho. Desculpe, mas ela é uma puta mulher. Tem culhão, personalidade e não precisa ser uma bonequinha graciosa para ser bonita. Courtney é uma Dona do Inferno. Sobreviveu a um monte de merda, perdeu o homem da sua vida e continua de pé. De salto. Olhando para baixo e mandando todo mundo se foder. Yeah, Courtney. Mostra pra eles quem manda nesta merda de mundo. Homens são fracos, não sabem apanhar. Não sabem levantar depois da surra. Reclamam de dor até na hora de espremer uma espinhazinha mixuruca nas costas, bando de maricas. As mulheres sempre dominaram o mundo. Você já leu SCUM Manifesto, da Valerie Solanas? Não conheço um homem que tenha passado da quinta página. Para variar, eles fogem quando o assunto começa a ficar sério. Aiai, viu. Vou sentir falta deste lugar. Só porque vou embora, o barulho dos carros parece ter diminuído. Talvez o som esteja alto demais. Preciso de uma garrafa de vinho. Meu amigo Miranda disse que eu só deveria beber vinho bom, se pretendia ser amiga do meu fígado. Mas ei, quem disse que eu possuía reais para comprar vinho bom? Vai Almadém mesmo, desculpe, amigo fígado, acho que você é muito simpático, mas hoje não vai dar. Preciso me despedir da minha casinha querida. Minha casinha na Rua Purpurina. Minha primeira casa de verdade. Deito no sofá, pernas para o alto, sozinha, sozinha, sozinha, a janela escancarada, a chuva castigando o asfalto, sozinha, sozinha, sozinha, eu e meus gatos, eu e meus amores, eu e meu vinho, eu e minha casa. E ele, em algum lugar. Fecho os olhos, mais um gole de vinho, pensando no meu Antonio, na boca dele, aquela boca linda que eu adorava morder, nas palavras dele, no enorme talento dele de me fazer gozar sem gozar, apenas lendo. Mas o talento dele não se restringia a palavras, não senhor. Eu poderia passar o resto da vida beijando seu corpo inteiro, começando pela boca – ah, a boca—, descendo pelo pescoço e mordendo os mamilos de leve e passando a língua em sua barriga macia e descendo e descendo. Ele era tão perfeito que cabia direitinho na minha boca, ah, como era bom ouvir… Puta que pariu. Uma gota gelada de água na minha cara. Certo. Fui interrompida por uma gota d’água minha testa. Oh, uma goteira nova. Em cima do sofá. Sensacional. Era, deixe-me ver, a sexta goteira da casa. Bem-vinda, nova goteira. Cuidado, a dona deste lugar é velha, tem um olho só e não gosta de escritores que não pagam o aluguel em dia.

Bem, nunca tive problemas em mudar. Mudar é sempre legal. Especialmente quando o lugar parece mais um regador estúpido todo esburacado do que uma casa. Aquelas malditas goteiras. Se Dona Gemma não desse um jeito naquilo, a única coisa que daria pra fazer lá dentro era um jardim de inverno auto-regável. Boa sorte, Dona Gemma. Espero que vikings nórdicos aluguem este apartamento e terminem de destrui-lo, sua velha chata.

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SOBRE A AUTORA
Este é um trecho de Vida de Gato (Planeta, 2004). Clarah Averbuck é autora de outros dois romances, Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante (7Letras, 2003) e Máquina de Pinball (Conrad, 2002). Seu trabnalho já ganhou adaptação para o teatro e cinema. Clarah também canta no Jazzie & Os Vendidos.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Thursday, August 16th, 2007.