Violino Encapsulado

Por Letícia Palmeira.

Sofrendo por antecipação e aguçado por mais trampolins vive o homem moderno. Coca-cola para resolver crises e mulher na cama para acalmar instantes em que perde sua identidade. Somos todos o homem moderno. Encapsulados por medo e seguidores da religião agnóstica. Café e cigarros e cirrose inconsciente. De um lado a outro da rua − todas as ruas – caminha dessa forma o patrimônio que somos. Trapézios e ícones e jornadas de trabalho tão cansativas que dinheiro sim, dinheiro não, insatisfeito feito papel de carta, homem moderno se torna canibal e compra sua própria esmola. É triste, alegórico, nômade, traidor, quebra de valores, escritor de atas, suas próprias atas do que pode ou não vir sob o dia. Gripe do século e um vírus rotativo. Morador de posto de gasolina e consumidor da vida que não lhe pertence. Mas andamos todos de mãos dadas porque somos todos um. Mesma vida porque somos globalizados. Tão bonito ver homem moderno de terno e sapatos e lingerie. A mulher, mesmo escondida no termo, também é homem moderno. Encapsulada também. Causa trabalhista sexual e protagonista do rumo incerto. Gravidez inteligente, sem filho inteligente e consumidora de cosmético para não quebrar o arquétipo. Homem moderno quer ser moderno e mal conhece a lua, já aponta defeitos. Tudo diet. Hora diet. Humor diet. Cinema diet também. Francês para soar Proust. Inglês para ser Microsoft. Espanhol para concurso público e visita cidade grande, morrendo de medo de assaltante, mas vai. Desbravando bares e consumindo outro homem moderno, o homem moderno é incansável. Sofre em sua abordagem automotiva, lê e faz revisões de sua agenda vazia e o mundo se abre como flor em tempo certo. Diet, cosmos, híbrido e tangente de vetores. Deus criando sua concepção. E toda semana lê revista colorida e cheia de pesquisas quase anti-semitas. Quem será eleito na próxima eleição? Uma dose maior de calmante e está pronto. Sai e ganha a vida que já se perdeu entre o filme bonitinho que traz alegria para o filho encapsulado. Naves espaciais e o homem moderno no trapézio da história clássica.

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SOBRE A AUTORA: Letícia Palmeira é graduada em Letras em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino na cidade de João Pessoa. Cidade em que mora e observa ruas e engarrafamentos e pessoas que dormem em ônibus. Está sempre escrevendo e quando não, pensa em escrever algo. E assim segue em harmonia.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Tuesday, January 13th, 2009.