Wry: Mário Bross

Os caras largaram tudo em São Paulo e vieram pra Londres, tudo menos o carisma e a vontade de fazer o que gostam. Zan foi conferir o que mudou no som, na vida, na expectativa da banda Sorocabana numa conversa mais que agradável com Mário Bross, vocalista, letrista e compositor do Wry.

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(Fotos: Cortesia de Stuart Nicholls)

3:AM: Vocês tem bandas como U2, The Who, Velvet Underground, Janes addiction, Sonic Youth e Blur como referência musical, e sabemos que você adora Jesus and Mary Chain, e Wry até está participando de um tributo com uma música-cover. Mas falando de casa, você teria algum herói nacional?

MB: The Who e Jane’s Addiction acho que não fazem mais parte, mas U2 e My Bloody Valentine ainda podemos citar, eu acredito. No Brasil não existiu até hoje alguém melhor que Legião Urbana, em termos de música rock. É a maior banda de rock do Brasil sem sombras de dúvida. Eles são meus heróis, além deles, eu gosto muito de Secos e Molhados, Plebe Rude, Caetano Veloso, Guilherme Arantes e Os Mutantes.

3:AM: O que não vamos encontrar na sua discoteca de jeito nenhum?

MB: O que não entra na minha discoteca? Bandas tipo Raimundos, bandas que copiam Beatles, bandas que copiam Rolling Stones, Bonde do Rolê, bandas que copiam Radiohead e bandas que só querem saber em tocar alto e pesado.

3:AM: Você deixou claro o que pensa do Bonde do Rolê neste vídeo de 3 segundos que deu o que falar, neste blog, foi publicado a conversa pós-vídeo entre você e o Gorky do bonde. agora que sabemos o que você acha da música deles, o que você pensa das “pessoas” por de trás da banda, ou seja, bonde, depois disso tudo?

MB: Não os conheço pessoalmente, lógico que já nos vimos. Lembro do nosso último show em Curitiba, em dezembro de 2005, onde Gorky e CSS eram DJs, numa espécie de dj set/pocket show com a vocalista e a baixista. Eles, BdR, devem ser legais pessoalmente, ainda mais por levar em consideração os 3 segundos do vídeo “eu odeio bonde do role” e se preocupar um pouco. Em termos de ser conhecido, não somos nada em comparação com eles.

Acho que eles tem que fazer tudo muito rápido, em ordem para ganhar dinheiro o mais que puderem, antes que essa faceta em que estão metidos acabe. Só isso. Acho que devem estar fazendo bem o papel deles e respeito o sucesso internacional.

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3:AM: Quais são as maiores dificuldades uma banda independente enfrenta no país que é mais conhecido mundialmente pelo carnaval e futebol?

MB: Eu não sou a melhor pessoa para responder. Sou meio “naive” a qualquer tipo de sofrimento ou dificuldade. Posso parecer louco, mas sou assim. É como se eu não entendesse sofrer do mesmo jeito que a maioria entende. Mas baseando no que as bandas em geral respondem, eu creio que seja o fato de não ter tantos lugares disponíveis para tocar, ou quando tem, o local é desestruturado para receber bandas. O rock alternativo no Brasil não é visto como algo antigo e experiente, é novidade ainda. Eu vejo uma mudança muito grande acontecendo desde 2001 e o ápice disso tudo foi o CSS ter estourado no mundo. Eu acho fantástico. As vezes, as pessoas reclamam demais.

3:AM: Na entrevista para Leandro Carbonato em 2005,quando ele pergunta porque vocês se mudaram pra Londres, você diz:

“Pra ir mais longe, mais alto e também pra obedecer nosso sonho. …Somos mutantes, apesar de quase ninguém perceber, pois temos essa nossa sonoridade que grudou na gente como cola e nunca mais vai sair. Talvez esse seja o nosso charme. …em termos financeiros era melhor tentarmos um salto maior do que onde estávamos. E também porque adoramos Londres, uma cidade que realmente respira rock e todo aquele estilo de vida que sempre quisemos.”

Dois anos depois desta entrevista, o que você acrescentaria nesta resposta?

MB: Que eu estava completamente certo nessa escolha. Independente do que realmente acontece, aqui ajuda muito o lado financeiro, em poder escolher o que poderemos fazer no futuro, ou no exato momento. Dou Graças a Deus de ter feito isso, mesmo sabendo que muita gente sempre achou que deveríamos ter ficado no Brasil; muitas outras, que deveríamos cantar em Português, sabe? Mas não digo não a ninguém, todos estão certos, inclusive a gente. Todas essas coisas ainda podem acontecer, o tempo não para e as idéias fluem rapidamente. Mudança gera mais criatividade. Eu quero voltar ao Brasil. Se me perguntassem quando, eu diria que no final de 2008.

3:AM: Por que o final de 2008?

MB: Boa parte por motivos particulares, essa data enquadra bem aos planos pessoais que estou tendo agora. Mas que automaticamente enlaca o Wry também, sem dúvidas. Temos planos iguais para um futuro extra-banda, pelo menos 3/4 do Wry, tem uma meta igual.

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3:AM: O que o Reino acrescentou na bagagem que o Wry esta levando para o Brasil, e o que você considera de mais precioso dentro dela?

MB: Muitas idéias fantásticas de primeiro mundo que enquadra nas várias coisas que podemos fazer no Brasil. Dentro e fora do Wry. Mas o mais legal mesmo é toda esse aprendizado musical, principalmente no Rock, por ser aqui um país muito rico em musica rock, suas estruturas, sua poesia, os festivais, e de como é visto. É muito cedo ainda pra falar, pois ainda fico um bom tempo aqui. Muito pode mudar, creio eu.

3:AM: Falando em festivais e em coisas que pode-se fazer dentro e fora do Wry, vocês organizaram o Circadélica em 2001, que levou 30 bandas de todo Brasil, quase 5 mil pessoas compareceram e arrecadou 4 toneladas de alimentos que foram distribuídos às famílias carentes da região de Sorocaba. Está entre seus futuros planos organizar outros festivais da mesma natureza? E esticando a pergunta um pouquinho mais, ja que estamos também falando do problema da pobreza, que está presente em todo pais, você acha que o Brasil tem jeito?

MB: Sem dúvidas queremos fazer outro Circadelica, o festival foi muito perfeito pra gente deixar assim, entregue ao passado, esquecido. Na verdade, eu não vejo a hora. Sobre o Brasil ter jeito? Sim, é lógico. O Brasil vai apavorar ainda, será uma superpotência, daqui uns 15-20 anos. Tem tudo para ser se continuar assim. Claro que estamos cheios de problemas, mas os problemas hoje são muito diferentes. Como num efeito borboleta, parece muito desorganizado, mas na verdade, esse é o caminho certo para todos podermos rir no final. Estive no Brasil há 1 ano e maio atrás e vi um país com as pessoas reclamando menos, ou nem, da falta de dinheiro. A economia está sem dúvida melhor. E o que vai dar ao Brasil a reviravolta será o futuro, com os milhoes de turistas que estaremos recebendo. O Brasil vai ter jeito, mas quando isso acontecer não acho que vai durar tanto, pois daí teremos problemas físicos na Terra que vai fazer tudo mudar. Mas acredito que teremos nosso 15 minutos de fama entre as super-potências do Mundo ainda.

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3:AM: Falando do Flames In The Head, como foi fazer este disco com participações tão especiais como Tim Wheeler e Gordon Raphael?

MB: Foi ótimo, principalmente com Tim Wheeler do Ash, foi fenomenal. Inesquecível, na verdade. Foi saber um pouco como é o mundo do Mainstream internacional sabe, de qualidade e talento. Foram 4 dias completos de profissinalismo e aprendizado. Ficamos bem amigos depois disso, ele é uma pessoal genial. Eu iria ainda mais fundo, Tim Wheeler chega a ser angelical. Trabalhar com Gordon Raphael foi como mergulhar num mundo mais tosco e violento, um mundo mais Nova York ou até Grunge. Ele gosta que tudo seja feito de primeira, ou de forma rústica, sem muitos paralelos ou recursos. Foi legal saber das histórias com os Strokes, foi legal tropeçar num disco de outra época do Is this it?. Foram duas produções complemente diferentes, foi ótimo pra mim. Tudo o que aprendi nessa época acrescentei nas gravações do mais recente do Wry, Whales and Sharks, que foi produzido por mim mais o Lu (wry) e Jon Hassuike, um amigo de longa data que trabalha com música aqui em Londres.

3:AM: Whales and Sharks recebeu boas críticas aqui e no Brasil, na Trama Virtual, Studio Eleven diz: “Em alguns momentos a sonoridade de Whales and Sharks lembra o “The Verve E.P” de 1992. Em outros momentos, lembra o MBV em sua fase mais áurea. Em todos os outros momentos, lembra Wry. O jeito Wry de compor, de fazer rock. Aquela levada inigualável e eletrizante que só eles sabem fazer.” Está aí uma mistura que parece ter funcionado muito bem, o que mais te agrada particularmente neste Cd?

MB: Eu amo esse EP de paixão, acho que é a melhor coisa que já gravamos na nossa carreira. Particularmente, adoro como ele foi gravado; em nossa garagem entre discussões, cansaço, muita risada, trabalho árduo, amizade e comoção. Foi um período que nunca vou esquecer, ficamos mais próximos ainda como amigos, e como adultos que se entendem. Gosto do flerte com a morte, no olhar romântico que tenho pelo ato de ir embora ou chegar primeiro, onde ainda não sabemos direito. Gosto do jeito que brincamos com os efeitos na guitarra e do poder de poder mudar as músicas para o jeito que a gente quisesse. Eu acho que Whales and Sharks entrega a gente mais como um livro aberto para quem quiser ler, de uma banda que quer a qualquer fazer acontecer. É natural e humano, e quase perfeito.

3:AM: Quais as novidades do Wry vindo por aí?

MB: Logo estaremos lançando Whales and Sharks no Brasil, e também o National Indie Hits, onde passeamos por covers de bandas brasileiras que
nos influenciaram no passado como Killing Chaisaw, Low Dream, Pin Ups, Snooze, Walverdes e Astromato. Para 2008, um álbum novo por aqui no Reino Unido (depois no Brasil) que já estamos escrevendo, temos em torno de 20 músicas novas, 3 delas em português. Turnês pela Europa e uma pelo Brasil. Mais vídeos no youtube, mais sementes plantadas e por aí vamos. Vivendo.

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SOBRE A ENTREVISTADORA
Zan é nascida em Santo André, nos arredores de São Paulo em 1978, se mudando para Londres há alguns anos atrás. Editora do 3:AM Brasil.

Publicado primeiramente no 3:AM Magazine: Thursday, January 31st, 2008.